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Entre amigos

Memphis Belle 

Existe coisa melhor do que ter amigos? Pra mim, não há. Não tenho ainda amigos há 50 anos, mas são muitos com mais de 50 anos. Às vezes mais distante, outras mais próximo, amigo é coisa pra se guardar no lado esquerdo do peito, como diz Milton Nascimento.

Embora muitas vezes não demonstre, gosto demais dos amigos que tenho, das amizades que algumas vezes nem busco, mas que afortunadamente para mim são cultivadas pelo meu verdadeiro amigo.

Outro dia, olhando a pequena coleção de DVDs em casa, entre eles, Antes de Partir (Bucket List), Perfume de Mulher, O Grande Lebowski, Memphis Belle, Os Intocáveis, as séries Boston Legal e Cheers, caiu a ficha: a amizade é o traço em comum da maioria dos filmes que possuo.

Ao mesmo tempo, me vieram à mente algumas das expressões sobre amizade. Algumas tradicionalíssimas como: “Amigo do peito”, “Amigo é pra essas coisas” e “Amigo das horas incertas”. Outra, muito em voga em Brasília, “Aos amigos tudo, aos inimigos a lei”. Ou, ainda, uma quase celibatária, “Mulher de amigo meu, pra mim, usa calça”. E, por fim, uma expressão bem do dia-a-dia, “Amigos, amigos, negócios à parte”.

Sobre esta última, reconheço que não é qualquer um que consegue separar claramente a amizade de negócios. É preciso ter coragem e habilidade para dizer não, e se safar de inesperadas saias-justas.

Imagine, por exemplo, aquela colega do escritório que começa a contar coisas pessoais, dificuldades familiares, forçando uma aproximação maior, vá lá, uma amizade mesmo. A partir daí, tenta usar essa aproximação para sair mais cedo, entregar trabalho atrasado ou incompleto e faz cara de sofrimento para fugir das críticas. Para evitar essas artimanhas, o melhor é ser direto, sem rodeios. Diga logo no início “Pela demora, este relatório deve ter ficado excelente”… Para, poucos minutos depois, acrescentar: “Pensei que fosse impossível, mas ficou uma m…!”

E tem aquele amigo meio distante, apresentado em algum fim de semana no clube e encontrado eventualmente. Mas aí você vai trabalhar numa empresa grande, melhor ainda, em um alto cargo. Pronto, o cara se aproxima tão rapidamente que você pensa até que vai haver uma colisão, um abalroamento. Começam os convites de almoços, cinemas e jantares com respectivas acompanhantes e você fica em dúvida se não é melhor mudar de clube (pedir demissão do emprego não vale a pena) para evitar tanto assédio.

Ou tem o tipo que passa a impressão de que os amigos estão virando, sempre que possível, um negócio a fazer, um target. Trata-se de um profissional 24/7, sempre em busca de business. Chega em happy hours e acha que continua no office ainda em um meeting com clientes. Em volta da mesa do bar, todos para ele são painelistas, o que em si não é ruim, exceto pelo fato de que todos receberão comentários do tipo: “isso que v. está falando é bullshit” ou “muito bem, welcome to the game”. É o coordenador em tempo integral.

Um quarto tipo, o negociador em pessoa, não só não separa amizade de negócios como, na verdade, mistura tudo completamente e, pior, envolve a família. Assim, não perde oportunidade para ensinar negociação para filhos e mulher. Tanto, que não há mais conversa mole nos jantares em casa. A todo comentário ou assunto levantado, coloca sempre como provocação se haveria uma alternativa melhor, ou então consulta a todos se o que um dos filhos está fazendo é ou não a melhor maneira de lidar com determinada questão. A família vira um curso de extensão universitária.

Mas amigo, quando é amigo mesmo, pode ser de qualquer tipo. No meu caso, não tenho muitos, mas também não são poucos. E, se pudesse escolher de novo, seriam os mesmos. Pra eles posso dizer, parafraseando o grande Vinicius de Moraes, em Samba da Bênção: “é melhor ter amigos que ser triste, a amizade é a melhor coisa que existe…”.

Alberto Lyra                         

Nosso blogueiro convidado é Beto L, administrador de empresas, generalista sem ser superficial e objetivo sem ser detalhista. Filosofia: há muito humor no mau humor.

Desafiando Barbarella

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Depois, bem depois dos 50, Jane Fonda continua ótima, mas na pele de Barbarella, a heroína erótica e divertida daquela ficção científica dos anos 60, ela será sempre divina. Não lembrava, mas leio agora num espaço virtual fashion que os modelos que ela usava no filme foram criados pelo espanhol Paco Rabanne. O estilista das roupas futuristas a decorou de metais e plásticos e fez história.

A Jane Barbarella me faz lembrar de uma amiga querida, que tem a mesma marca do erotismo divertido. Sabe dar um toque bem-humorado a qualquer história de sexo, descola vídeos aparentemente inocentes com boas surpresas picantes. Recordo um deles, no contexto da notícia de uma gravidez, que ela enviou para a futura avó. Delicado, bonito, falava dos recém-nascidos, fases da vida, lembranças marcantes. No final, uma imagem se encaixava nas tais lembranças que não podiam deixar de ser registradas no percurso do futuro bebê: estirado numa cama, o belo Reynaldo Gianecchini, peladíssimo. Congratulações assim, só dela.

E seu humor erótico deu as caras, totalmente às claras, na sua festa de 50 anos. Ela recebeu os amigos fantasiada de Barbarella — deliciosamente hilária, com uma enorme peruca loira e seios em cones pontudíssimos de plástico imitando metal . Provavelmente se fantasiou na 25 de Março, onde Paco Rabanne nunca deu expediente. Mas estava, como Jane Fonda, perfeita!

Elas têm mais em comum. Talentos de sobra como artistas, apenas em palcos diferentes. Jane estimula a imaginação nas telas do cinema. A Barbarella minha amiga cuida das fantasias dos outros no divã e faz das suas pura diversão.  Além de bruxa sábia nas questões da alma, ela é autora de livro, canta, dança, toca violão, venceria qualquer um naquele programa de música em que Blota Jr desafiava: “A palavra é…”

Ter gente assim ao lado, que curte vestir ou viver as fantasias, sempre faz sair no lucro aqueles que fogem delas, que nunca acharam graça nem em rodar de caipira na quadrilha junina.  Com uma amiga que adora dar festas encantadas, uma hora você cede, não quer ser a “espírito de porco”: põe um treco na cabeça, joga uma rede em cima da roupa e diz que está de aranha, até enfrenta um karaokê…  E, claro, acaba se divertindo muito, no mínimo sacando como as fantasias se encaixam bem ou não se encaixam nos outros convivas, como alguns resistem o quanto podem para, de repente, surpreenderem improvisando uma letra para um som japonês: Sushiiii kerê suchimiii ni Hiroshima… Ki ki kissoba…  E tem mais graça quando os melhores momentos dessas ocasiões chegam embrulhados de presente e, diante dos seus olhos, surge um velho amigo simplesmente trajando um boi. Só mugindo…

Se você não tem amigos como Barbarella, talvez uma rainha má, um escravo romano, uma havaiana ou cigana, um cawboy ou mesmo o boi ou leão, arranje. Quem prefere ver a vida do lado do avesso, precisa, de vez em quando, se envolver com as fantasias.

E deixo à Barbarella desafios para comemorações aos 60, 70, 80 e muito mais:

Úrsula Andrews saindo do mar com a faca pendurada no biquíni (oportunidade para descobrir um James Bond no pedaço); Dona Marta (não a Suplicy, a dos quadrinhos do Glauco); Furacão Katrina (para detonar!); Pata selvagem (ou voando com a própria natureza); Azeitona na empada ( o eu na globalização); Blota Jr em “a palavra é…” (muita moleza!); Ronaldo, o fenômeno (dominando todas …); Vitória de Samotracia (para quando perder a cabeça); e Sustentabilidade (que cairá bem aos 90).

 A foto é do poster do filme de 1968, dirigido por Roger Vadin, com Jane Fonda no papel inesquecível de Barbarella. Para saber mais sobre o filme, navegue pelo IMDb. Para assistir a um trecho do filme e relembrar,  clique aqui e vá para o Youtube.

 

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