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A vida por inteiro

 

“Gracias a la vida que me ha dado tanto,
Me ha dado la risa y me ha dado el llanto”

Quando ouvia lá atrás, em um passado que já vai longe, Mercedes Sosa com sua voz forte cantar esta música, minha gratidão era pequena porque a vida transcorrida era  pequena tambem. E talvez, distraída pelo barulho da juventude, só ouvia sobre o riso e desconsiderava o pranto.

Hoje tenho um olho que chora e um olho que ri.
E no meu coração, instalada para sempre, uma profunda gratidão.

Descobri o tamanho do passo que posso dar.
Descobri que, por maior que seja o meu desejo, há fatos que não posso mudar.

Aprendi a aceitar que, em muitos momentos, a vida segue um curso que me leva para longe dos rumos traçados.
Às vezes sou levada pelas nuvens, na velocidade da brisa.
Às vezes vou rolando ladeira abaixo, ralando a carne e o coração.

Há momentos em que sucumbo e chamo pelo ponto final.
Já há outros que me levam a querer sempre mais.

Já sei que amar dói para valer.
Mas nunca desisto daqueles a quem amo.
É por eles que torço. Muitas vezes à distância. É por eles que me entristeço de ser apenas mortal.
Para eles queria poder fazer milagres. Queria ver, no rosto deles, brilhar sempre e sempre o olho que ri.
É por isto que choramos juntos.

Às vezes meu corpo se dobra pela intensidade de uma dor.
Sempre meu corpo se curva à intensidade da vida e a ela presta uma profunda reverência.

Ouço novamente a mesma música e agora sim posso dizer: Graças à vida, que me tem dado tanto, meu riso e meu pranto.

A vida quero por inteiro!

Tolices da sedução

Woman with Gray Eyes and Red Lipstick_Pink Sherbet

A que tipo de homem as mulheres entregam seu coração: ao tolo ou ao homem de espírito? Em uma crítica de costumes de 1861, nosso Machado de Assis diz que elas preferem os homens tolos. Seu texto – “A queda que as mulheres têm para os tolos” — tem como base um panfleto de 1859, de autor francês. A amiga que me passou a dica fez o achado no site da Brasiliana USP, um projeto que permite acesso a coleção de livros e documentos do Brasil. Aguço a curiosidade das fifties com alguns trechos, aqui em português atual. Na escrita original, que você pode acessar no site da Brasiliana, tem muito mais sabor.

 

“Passa em julgado que as mulheres lêem de cadeira em matéria de fazendas, pérolas e rendas… entraram os filósofos a indagar se elas mantinham o mesmo cuidado na escolha de um amante, ou de um marido.”

 

“… a verdade se descobriu: … escolhem com pleno conhecimento… depois de verificar nele a preciosa qualidade que procuram … a toleima.”

 

“Desde a mais remota antiguidade, sempre as mulheres tiveram a sua queda para os tolos… Alcibiades, Sócrates e Molière e Platão foram sacrificados por elas …. Turenne, La Rochefoucauld, Racine foram traídos por suas amantes, que se entregaram a basbaques notórios. … as nossas contemporâneas continuam a idolatrar os descendentes dos ídolos das suas avós.”
 

“… Mulher alguma resistiu nunca a um tolo. Nenhum homem de espírito teve ainda impunemente um parvo como rival.”

 

“ … o homem de espírito… imagina que para agradá-las é preciso ter qualidades acima do vulgar. … Respeitoso até a timidez, não ousa exprimir o seu amor em palavras; exala-o por meio de meigos cuidados… não a fatiga com a sua presença.”

 

“O tolo, porém, não tem desses escrúpulos… diz-lhe dez vezes ao ouvido: Como é bela!, porquanto revela-lhe o instinto que pela adulação é que se alcançam as mulheres…”

 

“… Elas querem amor, qualquer que seja a sua natureza, e o que o tolo lhes oferece é-lhes bastante, por mais insípido que seja…”

 

“… o homem de espírito quando chega a fazer-se amar não goza de uma felicidade completa. … Pergunta por que e como é amado… em compensação desses tormentos, há no seu amor tanto encanto e delicias!… sabe descobrir o encanto das criancices frívolas, dos invisíveis atrativos, dos nadas adoráveis!”

 

O tolo é um amante sempre contente e tranquilo. Tem tão robusta confiança nos seus predicados, que antes de ter provas, já mostra a certeza de ser amado… faz uma grande honra à mulher a quem dedica os seus eflúvios.”

 

“O homem de espírito é o menos hábil para escrever a uma mulher… Quer ser reservado e parece frio… Comete o crime de não ser comum ou vulgar… São cartas decentes, quando as pedem estúpidas.”

 

O tolo é fortíssimo em correspondência amorosa… Tem uma coleção de cartas prontas para todos os grãos de paixão… nelas em linguagem brusca o ardor de sua chama; a cada palavra repete: meu anjo, eu vos adoro…”

 

“Compreende-se, por este curto esboço, como e quanto diferem os tolos e os homens de espírito nos seus meios de sedução. A conclusão final é que os tolos triunfam, e os homens de espírito falham, resultado importante e deplorável, nesta matéria sobretudo.”

 

“… as mulheres não são senhoras de si próprias; que nelas tudo é instinto ou temperamento, e que portanto elas não podem ser culpadas de suas preferências. …nenhuma é cúmplice do mal que causa; … Elas se apresentam belas, apetitosas e cegas: não vos basta isto? Querê-las com juízo, penetrantes e sensíveis é não conhecê-las. Procurai as mulheres nas mulheres…”

Para ler tudo, visite o site da Brasiliana  A foto, Mulher de Olhos Cinzentos e Batom Vermelho, é do portfolio de Peter Sherbet, no Flickr. Todas as fotos dele você conhece clicando aqui

Amor bem brega

//www.flickr.com/photos/raftwetjewell/3025997748/

Parece piada, soa piegas, mas é isso que eu quero: aos cinqüenta e dois anos, ainda quero um amor, mais um.

Não um amorzinho qualquer, nem caso, nem casamento, nem paixonite. Nem precisa ser para sempre. Mas não vale amor comprado. Nem quero nada escondido, furtivo, apressado. Não me convêm as sombras, nem o outro lado da história.

Um amor para amar, já sem filhos para criar, sem casas para construir, sem dinheiro para juntar. Um amor de só viver. Feito de aconchego e tesão e distâncias que não sejam abismos, intimidade que não seja diluição, afinidade que não seja anulação. Um amor de mistérios sutis, fantasias libertas e silêncios solenes, comoventes. Ah!, precisa ser amor de espaços preservados.

Não quero ser dona nem serva. Muito menos cara-metade: quero inteiro, de igual para igual, lado a lado, olho no olho. Amor de compartilhar, sem compartimentos. Só não pode invasão. Não quero clandestinidade, nem mesquinhez, não quero as sobras, quero o banquete. Quero plenitude nesse amor maduro e bem-vindo.

Quero viagens, tardes chuvosas, estradas, hotéis. Quero soltura. Beijo na praça, no cinema,na sala, no beco. Público e privado. Às claras.  Deve ser, um amor ousado e cheio de besteiras íntimas.

Aos cinqüenta e dois anos me surpreendo, me pego sonhando, ainda querendo. Que mania, meu Deus! Que nem menina, que nem mocinha, que nem qualquer mulher, (duvido que todas não queiram…), ainda desejo aquelas velhas sensações risíveis: perna bamba, coração aos pulos, beatitude, frio na barriga, sexo molhado. Sossega, mãe! – posso ouvir filha dizer. Desculpa, filha, não dá.

Não tenho o menor pudor em rimar paixão com coração, amor com dor, sonho com Tonho, se esse for o nome amado, porque o amor é brega e quase ridículo, é lindo e quase impossível, é fugaz e quase sempre atroz. E ainda assim, eu quero. 

Sei que o amor é exibido, gosta de se pavonear, se estampa na cara da gente, muda nosso olhar, sobe em palanques, púlpitos; é tão eloqüente esse tal de amor que nos deixa gagos, atônicos. Às vezes, fica de longe, tímido e platônico. O amor nos faz de bobos, zomba de nós para depois nos fazer sentir heróis. O amor é complexo na sua gramática: para alguns é verbo intransitivo, tem sujeito composto de outrem, é adverbial nos modos e tempos e também muito sintático. Prolixo, profético, profilático, pródigo. Às vezes, promíscuo. Adora ser um paradoxo e, apesar de gostar das proparoxítonas, pois é trágico, patético, democrático e poético, o amor é também gutural, ditongal, cheio de ais e uis, repleto de mins e tus.

Muito cortês e fidalgo, coisa de fino trato é também hormonal, cheio de humores, temperamental. Pode ser casca grossa, desastrado, bruto até, um coitado. Matreiro e engenhoso, o amor é safado, malandro, desabusado. Se mal criado, fica vulgar, violento. Se bem tratado, é meloso e delicado, vem com flores e fala mansa. O amor é dengoso, sorrateiro. Esgueira-se sem cerimônia nas alcovas, sob as saias, nos banhos, debaixo da pele, atrás dos sonhos. Pode ser distraído e isso às vezes é fatal porque irrita. É guloso, come chocolate. Quando selvagem, arranca pedaço. Quando domesticado, enjoa. É maroto, o famigerado, é astuto, o danado. Não dá trégua, é teimoso, não sossega enquanto não nos faz arquejar, arfar, arder. Ah, como eu quero, um amor assanhado, descarado, louco para ser feliz e rir alto! Daqueles feitos de valsa e tango. De príncipe e de raptor. Estado de graça e cio. Verbo e carne. Amor explícito, melado. Xodó.

E por não parar de pensar no maldito bendito, eu digo rendida e inconformada, que aos cinqüenta e dois anos, ainda quero um amor feito de tudo e de nada, de fogo e de paz.

Anacrônica e bobinha lá vou eu, sem medo de ser nem ridícula nem feliz. Não abro mão. Insisto, sigo querendo, totalmente apaixonada pela idéia de amar.

 

 A foto lá em cima vem do portfolio de Rafeejewell, que se apresenta como o avatar Raftwet no Second Life, o mundo virtual onde todos são personagens de si mesmos. Surreal, certo? Mas a imagem é de um amor brega que nasce num ambiente de fantasia e floresce nos nossos sonhos… Para conhecer um pouco mais destas estranhesas virtuais, pode visitar Raftwet in Second Life

Hilda Lucas Hilda Lucas é escritora de palavras quentes e generosas. Autora de Memórias líquidas, um livro sobre uma família assombrada pela morte, ela escreve também uma coluna semanal para o portal M de Mulher, da Abril. Esse artigo é de 7 de janeiro de 2009. A Hilda aí ao lado é obra à moda de Andy Warhol de Maria Cristaldi

 

 

Anatomia da paixão

http://www.flickr.com/photos/_zahira_/2481399866/
Esta é “A gota”, foto de Zahira, uma espanhola, de Madrid, orgulhosa no Flickr de sua primeira foto de movimento.

 

“Da vida, eu quero tudo!”, ela diz, num desafio. “Tudo?” Ela ri, como se adivinhando… “Bom, só os melhores momentos”. Eu afasto o cabelo que cisma em esconder o olhar despudorado dela, e tento lembrar em que momento da vida a gente realmente descobre que a paixão tem esse rosto inocente, selvagem, amoral…

“Essa coisa morna de melhores momentos, não tem nada a ver com o ‘tudo da vida’, você sabe”. Eu digo. Sabe?  Há que se tirar o ponto final da frase, substituir por uma pausa-vírgula-respira-engole e acrescentar o fundamental ao desejo da menina. “Da vida, eu quero tudo, até a última lágrima, até o último riso”.  Ouse imaginar isso, ouse dizer em voz alta, ouse, ainda, repetir: “Da vida, eu quero tudo, até a última lágrima, até o último riso”. E você vai saber o que é ‘paixão’…

Os gregos costumavam transformar nossas humanidades em abstrações visuais, e dotá-las de carne, sangue e suor. Abstrações vivas e cheias de cores, deuses, daimons, seres feitos de insights e de sonhos. Por isso, sempre é tão fascinante começar qualquer reflexão sobre nós com um mergulho na mitologia grega.

E contam os mitos que quando Afrodite, a deusa da Beleza, filha de Uranos, o senhor do Tempo, nasceu na espuma do mar, um cortejo de criaturas aladas veio recebê-la. Eros, o deus do Amor, e seus irmãos, os jovens filhos do Vento: Anteros, Himeros e Pothos …

Eros, o Amor, a gente já conhece porque é dele o grande impulso inicial e foram suas as flechas que fertilizaram o universo. Mas junto com ele, nas cerâmicas e na imaginação, surgem outras faces do amor: Anteros, o amor compartilhado, Himeros, o desejo físico, e Pothos, a paixão ou aquele tipo de amor que jamais se realiza completamente.

Filho de Zéfiro, o vento, e de Iris, o arco colorido que enfeita os céus de chuva, Pothos era puro desejo. Os gregos falavam de “anseio por aquilo que nunca está lá”,  impulso em direção ao que está sempre nos escapando, saudade de um “não sei o quê” que nos falta…

ISSO seria a paixão… Apaixonados nós estamos quando o horizonte lá longe faz a gente sonhar com mundos extraordinários, quando as nuvens escrevem versos de amor no céu, quando somos tocados pela beleza de todas as formas, quando acreditamos em impossíveis, quando, de repente, do nada, um dia assim de manhãzinha, a gente consegue enxergar pela fresta do universo a dança das possibilidades infinitas…..

Apaixonada é a bailarina que sempre dança sua última dança, o artista que pinta para não morrer, o atleta que se equilibra no abismo, o músico à caça de harmonias, o sonhador que persegue a paz…

O caminho dos apaixonados, como os gregos sabiam e nós já começávamos a suspeitar, está longe de ser fácil ou “bonitinho”. A paixão tem cores fortes, e cheira a sangue. Não é morna. Ao contrário, ensinaria Garcia Lorca, falando do “duende”, a paixão com as cores da Espanha: “Só se sabe que queima no sangue, feito ácido, que esgota, que recusa toda a doce geometria aprendida, que rompe com os estilos”.

Ou seja, apaixonados, então, somos nós, quando dizemos: da vida, eu quero tudo, mesmo sabendo que esse tudo é pura saudade!

Esses gregos eram ou não eram grandes anatomistas da alma?

 

Este artigo foi publicado originalmente na revista Top Magazine

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