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O dia em que a terra tremeu

Tsunami_ Pablo Trincado

Por Regina Amaral

A terra tremeu no Haiti. A terra tremeu no Chile. Ontem a terra tremeu na Turquia. Ondas gigantes salgaram e destruíram cidades. Chuvas torrenciais transformaram o dia a dia, feito da rotina de cada um, em desventura para muitos e encerraram o calendário para outros tantos.

As manchetes de jornal nos fizerem engolir, junto com nosso café da manhã, fotos onde barcos ocupavam ruas enquanto carros naufragavam. E nós, sobreviventes, tentamos administrar nosso atordoamento e o pavor que anda assombrando nossas almas. Afinal, a terra tremeu sob os pés de todos nós.

 Nos reconhecemos, mais uma vez, impotentes diante de forças muito maiores que nós. Descobrimos, como dizia o filosofo, que não estamos tranquilamente assentados sobre terra firme, mas sentados sobre o dorso de um tigre, e em relação ao qual não temos nenhum controle.

Agora ninguém pode negar: viver é perigoso!

Não é fácil levarmos nossas vidas com a consciência de nossa finitude. Não o tempo todo. Sou psicanalista e minha profissão me permite ver as marcas destes últimos tempos na alma de cada um dos meus pacientes. E na minha, quando me percebo desassossegada a cada trovão, a cada novo anúncio de que a terra tremeu.

 Já há algum tempo que um dos sintomas mais comuns em nossa clínica é a chamada “síndrome do pânico”. Seu aparecimento se deve ao surgimento da vivência de desamparo que acomete a cada um de nós, humanos, com maior ou menor intensidade, quando há ameaça real ou imaginaria de vermos romper o sentimento de continuidade da vida interna ou externa.

O aumento do aparecimento deste sintoma se deve ao fato de que o homem contemporâneo está, a cada dia, mais e mais exposto a experiências de ruptura. Ruptura com tradições, rupturas com convicções que o embalavam e lhe davam sensação de segurança, rupturas de laços afetivos que nos dia de hoje tem duração efêmera. Seja de que ordem for a ruptura ela nos lança numa vivência de caos, que nos aterroriza e nos desancora.

Nos dias de hoje a civilização vem sofrendo grandes abalos e evidenciando grandes fissuras, que servem de porta de entrada à barbárie. E aí, novamente o caos…Sabemos da impossibilidade de a vida prosseguir caso o niilismo se instale em nossa carne. E diante deste cenário onde o conhecido se desmancha, onde a terra escapa de nossos pés, é fácil nos vermos presa deste sentimento e não mais conseguirmos investir na vida, em projetos de futuro, em sonhos, no amanhã.

Diante disto, o que fazer? Comprometermo-nos ainda mais com a vida.

Mas como fazê-lo ao descobrirmos que a Natureza não é justa. Ou injusta. Justiça faz parte do mundo dos homens. É em virtude disto que vemos Zida Arns morrer no terremoto do Haiti, juntamente com aqueles a quem vinha dedicando sua vida. Ser uma mulher generosa não lhe garantiu a salvação. 

É em episódios assim que compreendemos quão ilusória é a verdade apregoada mundo afora de que seremos “salvos” se formos bons. “Shit happens” a qualquer um, sem nenhuma discriminação.

Outra vez formulamos a pergunta: diante disto, o que fazer?

Comprometermo-nos ainda mais com a vida.

Estarmos comprometidas com a vida é fazer de cada segundo tempo suficiente para dele nos ocuparmos e nele investirmos. Não valorizamos o tempo porque tempo é dinheiro, mas sim porque amamos a vida e não queremos desperdiçá-la.

Estarmos comprometidas com a vida é executarmos com atenção qualquer gesto nosso. É através deles que expressamos nossa existência. É através deles que nossa vida acontece.

É nunca perdermos a alegria de soprarmos “bolas de sabão” mundo a fora, mesmo sabendo que elas estourarão no minuto seguinte. Afinal elas são belas e isto basta. Não precisam ser eternas para valerem a pena.

Estarmos comprometidas com a vida é levarmos a serio nossos desejos e correr atrás das condições necessárias para realizá-los, sabendo que, mesmo que isto não ocorra, valeu sonhá-los porque eles tambem fazem a vida valer a pena.

Estarmos comprometidas com a vida é aproveitarmos os grandes tremores de terra para reavaliarmos nossos rumos e traçá-los novamente, nos afastando daqueles caminhos que cumprimos por obrigação, sejam elas da ordem que for, e nos encaminharmos na direção daqueles onde a vida corre com mais força, trazendo brilho aos nossos olhos.

Estarmos comprometidas com a vida é sabermos que não importa o tempo de duração de nossos atos. É levá-los a sério enquanto deles nos ocupamos.

Estarmos comprometidas com a vida é pautarmos nossas ações buscando tornar nossa Terra um lugar melhor para todos, não porque este ato nos levaria ao Paraíso, um dia, mas porque este ato torna nossa vida aqui e agora bem mais fácil e rica.

É ver nossas ações brotarem de um código de ética pessoal que não leva em conta obrigações morais, mas sim que busca proporcionar mais espaço para o desenho da vida.

Estarmos comprometidas com a vida é suportarmos uma boa porção de caos em nosso dia a dia, que nos arranque da rotina segura e protetora nos oferecendo assim a grande chance de recriá-la inúmeras vezes.De nada adianta colocarmos a “velha senhora de preto” na frente de nosso caminho.Esta tentativa de mantê-la sob os nossos olhos só a antecipa e nos impede de estarmos plenamente vivos.

Viver é perigoso e o que nos resta é correr riscos. Então que esteja longe o dia em que um deles se revelará fatal!

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A foto é do porfólio de Pablo Trincado, sob licença de Creative Commons no Flickr

Aos cinquenta

Aos cinquenta, um pouco mais, um pouco menos, temos com certeza rugas nos olhos. Mas em alguns afortunados, há mais. Muito mais que isto. Há um brilho intenso que não se apaga. São portadores de olhos que riem. E já que dizem que os olhos são o espelho da alma, podemos imaginar que alegres almas habitam estes seres.

O que sabem eles, o que garante a eles esta porção diária de alegria?

Acredito que a magia venha do fato de não darem guarida a ressentimentos. Isto mesmo. Não requentam sentimentos já vividos, impressos em papel amarelo e já sem bordas. Não choram por dores de anos atrás. Não pranteiam amores há muito esgotados. Não enterram os mesmos mortos todos os dias.

Ao acordarem lavam o rosto e o coração. Ao invés de ressentir (sentir novamente) o já vivido, preferem sentir, atualizando-o.

São aquelas pessoas que a gente encontra na rua e que estão sempre de braços abertos. Que nos abraçam forte, mas nos deixam ir quando chega nossa hora.

Braços abertos que se abrem na direção do que vem. Braços abertos para não reter o que vai.

Não antecipam, não recusam. Não recuam. Ao invés de ressentimento, aceitação.

Aprendizado que leva uma vida. Conquista. Aceitam que a vida corre por caminhos nem sempre escolhidos por nós. Aceitam que amores acabam. Que os filhos crescem e não gravitam mais em torno de nós. Que temos que andar para fazer baixar nosso colesterol. Que algumas dores no corpo vêm para ficar. Que os cabelos brancos crescem muito mais depressa que nossos cabelos antigos. Que amizades especiais e únicas se desfazem, deixando em nós o furo da saudade. Aceitam que já andamos mais da metade do caminho.

E por aceitarem a vida como ela é e por não se ressentirem pelo fato dela não ser como queriam que ela fosse é que seus olhos estão sempre rindo, escancarando a alegria dessa alma de ainda estar na vida.

A ela, dizem sempre: Que venha!

 

 The Gifted Photographer, Melissa Goodman

Quando vi esta foto pensei que nada podia expressar melhor a qualidade encantada do olhar. Minha amiga Re, autora do post, queria uma imagem de “olhos risonhos com rugas”. Não achei, mas achei Melissa Goodman, uma fiftie, professora aposentada e The Gifted Photographer, com um imenso portfolio no Flickr. O olhar risonho, multicolorido, afinal, é dela!

50, pouco antes, pouco depois

Quando nos encontramos em nossa rotina, nos afazeres habituais, somos levados a acreditar que a vida é sempre a mesma e que nós somos também sempre os mesmos. O calendário a cada mês ganha novas paisagens, os dias ganham novos números e nós olhamos a tudo isto como se as mudanças ficassem restritas ao papel.

Como é difícil alterarmos as imagens com as quais compomos o mundo e a nós mesmos. Do lado de fora, muitas e muitas vezes elas vão se tornando borrões, mas para nossos olhos cansados e medrosos, traços antigos e bem esmaecidos vão sendo conservados, mantendo a ilusão de que tudo está como sempre foi.

Feliz ou infelizmente esta cadeia do mesmo em alguns momentos se rompe e nos põe diante de mudanças impossíveis de serem barradas, contornadas ou evitadas. 
 
Ao completarmos cinqüenta, um pouco antes, um pouco depois, nos encontramos em um destes marcos onde começamos a fazer conta do tempo que já passou, do tempo que está por vir.

Tempo de refazer trajetos, abraçar e abandonar projetos, traçar novos rumos.

A imagem que vemos refletida no espelho não deixa que nos acomodemos na ilusão de permanência, mesmo quando, numa última tentativa, fazemos diante dele expressões familiares a fim de evocarmos nosso eu de sempre. Mas ele não vem. Não pode vir porque não existe mais.

E querem saber de uma coisa? Se conseguirmos passar os primeiros momentos de horror – sim, porque nos perdermos de nós mesmos é daquelas experiências aterrorizantes –, a sensação é de libertação!

É verdade, sim. Livramos-nos da roupa apertada que usamos ao longo de nossas vidas e passamos a poder usar uma outra, muito mais folgada e confortável.

E isto acontece assim, aos poucos.

A cada vez que traímos aqueles que amamos. A cada vez que os ferimos fundo, acertando em cheio o coração.

A cada vez que fazemos algo que na inocência de nossa juventude juramos nunca fazer.

A cada vez que não somos leais aos nossos sagrados princípios.

A cada vez que mentimos e não pudemos sustentar nossas verdades.

A cada vez que nos descobrimos em primeiro lugar, sem nos preocuparmos com quem vinha atrás.

A cada vez que odiamos, desdenhamos, invejamos, sacaneamos, desejamos acima de qualquer restrição.

A cada vez que nos flagramos assim, a voz que dizia em alto e bom som, cheia de orgulho, “Eu sou assim”, vai preferindo calar. E o silêncio passa a abrigar nosso espanto de nos vermos outro — aquele que se gestava nas sombras de nosso ser, que acreditávamos tão transparente.

É assim que a trama da vida ganha densidade. Mas paradoxalmente é assim que a trama da vida, com seus complexos desenhos, ganha a leveza que a liberdade traz. Ganhamos jogo de cintura, abandonamos o refúgio dos preconceitos. Corremos a céu aberto, temendo agora muito pouco.

Sabemos do que somos capazes, sabemos que temos limite.

Confiamos agora muito mais em nós. E somos também muito mais confiáveis para aqueles que convivem conosco. Afinal é a partir deste momento que podemos ser leais a nós e aos outros, porque sabemos que somos humanos e que, portanto, em algum momento podemos ser surpreendidos por situações que tripudiem nosso desejo de lealdade.

Sabemos que a verdade é inatingível, não porque não somos sinceros, mas porque sempre há o que dela escapa e não se revela. Até para nós mesmos.

Reter a vida, permitindo que ela se expressasse apenas parcialmente nos custava muito trabalho, demandava muita energia. Aos cinqüenta podemos acolher a vida por inteiro. Aos cinqüenta, os scripts foram com o vento e o que fica são rumos despretensiosos. Aos cinqüenta, nos tornamos humanos, mortais e livres para viver.   

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