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Essas fifties tão comuns

broad-brim-with-lips_steve punter 

O comentário da Maria Silva em cima do post sobre as Mais Belas Damas do Huffington Post lança, ainda que sem querer, um desafio: beleza será que rima com pobreza? Essas fifties celebridades, milionárias ou, pelo menos, com acesso ilimitado a todos aqueles recursos de sonho, cremes e tecnologias capazes de tornar qualquer mulher linda, como podem ser referências para nós, fifties comuns?  Ou, refazendo a rima e abrindo o leque: o que é que torna uma mulher realmente bela em qualquer idade? Seriam só aqueles luxos que o dinheiro compra? Fiquei tentadíssima e comecei a procurar fotos de fifties comuns e que fossem belas…bom, ao menos quando vistas através desses meus óculos!

Maria diz (imagino que com ligeira irritação):

Olá! Acho que beleza não tem e nem nunca teve idade, entretanto, nessa galeria de belas damas, estão mulheres ricas e famosas. É fácil ser bonita aos 50 anos tendo dinheiro para inventir em toda a gama de opções para ficar bonita. Tenho certeza que dessa galeria poucas ou nenhuma estão contando apenas com um herança genética generosa. Essa galeria não reflete a realidade de uma população que consegue no máximo comprar uns creminhos no catálogo de produtos de beleza da vizinha (sabia que muitas fazem até consórcio para comprar um certo rejuvenecedor de uma marca famosa de produtos de beleza vendidos por catálago??). Definitivamente, pra mulher pobre, é difícil chegar nos 50 e entrar pra galeria das fifties…

Vamos lá Maria, primeira coisa que achei no Flickr, um fotógrafo e jornalista britânico, um fifty, apaixonado pelos humanos, Steve Punter: “eu realmente acredito que algumas imagens podem roubar almas”, ele diz. E sai pela rua capturando instantes mágicos, momentos em que os humanos se aproximam dos deuses, roubou algumas almas, sim…

Essa mulher, por exemplo, as rugas, o cabelo despenteado, a curva perfeita do nariz…e o entusiasmo com que ela está falando, seja lá do quê…

The Rt Hon Yvette Cooper MP_Steve Punter

O olhar altivo, preservado, inteiro nas memórias…

amothershistory_steve-punte

A alegria de brincar de menina…

ladies-of-logaston_steven-punter

Não são lindas as mulheres deste Steve Punter caçador de almas? 

Quando comecei a conversa com a Maria, meu medo era ter que concluir que não existe beleza possível de ser vivida a vida inteira, como queria Sharon Stone, naquela entrevista para a revista Paris Match .

Detesto quando sou obrigada a chegar perto demais das fronteiras humanas, minha amiga Re, já me alertou para essa deficiência da minha visão de mundo um sem número de vezes… e estou convencida de que o DNA não explica a maioria das coisas que chamamos “belas”. Cigarro, TV, baixa auto-estima e falta de alegria, sim, esses são cúmplices cínicos do rosto e da alma envelhecidos…
Gosto de imaginar que beleza rima mais com atitude do que com juventude e que Coco Chanel é que estava certa, “a natureza nos dá o rosto que temos aos 20 anos, mas temos que merecer o rosto que teremos aos 50″. Construir esse rosto de 50 não é tarefa fácil, mas tampouco é coisa que se compre no mercado. E suspeito que a gente só chega lá fazendo as pazes com a mulher que nos olha do espelho, essa que somos e seremos nós…

A fotógrafa, Dawn, nasceu no dia 7 de dezembro de 1958, tem 50 anos. Na legenda da foto, cujo título é “Cada mulher tem a idade que merece”, um manifesto pessoal: Eu mereço, Eu ganhei, Eu acolhi, Eu amei

 a-woman-has-the-age-she-deserves_Dawn

No dia da celebração de Porto Rico, o fotógrafo capturou o orgulho da cor, do jeito, das marcas no rosto, do lenço na cabeça…

national-puerto-rican-day-Kevin Tyson

 O que será que está ouvindo a mulher que olha para frente com tal determinação?

balzac-woman-hearing-bach_pedrosimoes

Belas essas fifties comuns, mas a última da nossa seleção, essa me fez rir e lembrar da “Mulher Fenomenal”, de de Maya Angelou (traduzo uma das estrofes para você Maria):

Os homens se perguntaram

O que eles viam em mim

Tentaram

Mas não conseguiram

Capturar meu mistério

(…) está no arco das minhas costas

Na curva dos meus seios

Na graça do meu estilo

Fenomenalmente

Mulher Fenomenal

Essa sou eu 

 

mulher-sp_authenticportrait

Essa somos nós…

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As fotos têm links que levam para os respectivos portfolios dos fotógrafos no Flickr.

Em todo caso, seguem os nomes:

Steve Punter’s photostream

Kevin Tyson’s photostream  

Dawn’s photostream

Pedro Simão’s photostream  

E o blog Authentic Portrait, da fotógrafa Bia Ferrer, autora da foto-delícia que encerra este post!

Retrato

//www.flickr.com/photos/goodsardine-clean/

Colorindo a imagem no espelho… A foto é de Mary Goldsardine.

Meu Deus do Céu ! Eu não tinha esse rosto que tenho hoje. Eu não tinha esses olhos ilhados por rugas, esse toldo de pálpebras caídas e essa opacidade  na pele.

 

Eu não acordava assim, descabelada, amarfanhada, plissada e com bafo de Tutancamon. Saía lépida da cama e corria para me arrumar, parecia um beija-flor. Hoje, me arrasto penosamente, tal qual um leão marinho. Não ficava horas com as marcas do travesseiro a tatuar minha carne, nem me doíam as juntas. Não precisava me alongar e nem pôr os óculos para me achar. Eu não tinha vista cansada! Isso é tão emblemático… Queria meus olhos incansáveis de volta. Olhos vorazes, atentos, corajosos.

 

Eu não tinha este rosto, nem esse corpo, nem esse espírito de porco que se apossou da minha alma intrépida, aventureira. Eu não tinha essas ausências, esses esquecimentos vexatórios e inclementes. Eu não esquecia o nome das coisas, das pessoas, nem o que eu acabava de ler, nem as minhas duzentas senhas. Eu ria das piadas na hora e não lia revista velha como se fosse nova, nem via filme já visto como se fosse inédito. Eu não tinha agenda, nem fazia check up, eu não tinha insônia. Eu tinha hormônios! (E eles pareciam amazônicos, inesgotáveis.) Não fazia terapia, nem RPG, nem gastava um centavo com cremes e tratamentos milagrosos.

 

Eu não tinha tantas contas para pagar, nem tantos problemas, nem tantos pecados, nem tinha deixado de fazer tanta coisa. Não tinha joanetes, nem colesterol alto, nem bursite, nem sabia que pimentão fazia mal. Não tinha diploma, nem certidões de estado civil, nem usava guarda-chuva. Não tinha renda para declarar. Fumava sem culpa, não rezava, torrava ao sol feito um lagarto, tinha opinião sobre tudo, e por pura  ignorância, me achava o máximo. Me lambuzava com a vida, ria dos outros e tinha tempo para jogar conversa fora, dar carona. Eu não tinha medo de gente! Não era cínica, nem cética, nem antisséptica. Eu não tinha esse rosto, nem tanto dinheiro, nem tinha lido tantos livros, nem feito tantas viagens. Era inocente e confiante. Era arrogante e displicente. Era jovem: tinha muitas certezas, muita pressa, muitas bandeiras.  Forte e voraz, como um furacão. 

 

Ah! Eu não tinha esse rosto que tenho hoje mas ele não poderia ser outro. Não o imaginava mas o escolhi.  Escolhi cada ruga, cada sarda, cada cicatriz. Escolhi até aquelas bolsas sob os olhos e os vincos na testa. Foi sendo moldado, esculpido, tatuado e hoje ele revela minha história, os traços da minha mãe, os traços das minhas filhas e das mil mulheres que tenho sido. Estou confortável com ele. Ele é a minha cara! Maduro e apaziguado, como uma árvore. 

 

Hilda Lucas Hilda Lucas é escritora de palavras quentes e generosas. Autora de Memórias líquidas, um livro sobre uma família assombrada pela morte, ela escreve também uma coluna semanal para o portal M de Mulher, da Abril. Esse artigo é de 7 de janeiro de 2009. A Hilda aí ao lado é obra à moda de Andy Warhol de Maria Cristaldi

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