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Cabelos brancos rebeldes

Pixie Geldof no British Award 2009/Catwalk Queen

 

Tinha 45 quando decidi deixar meus cabelos brancos, isso exatamente há 11 anos! O cúmulo da ‘coisa feia’, os cabelos brancos estavam associados às  mulheres mal-amadas, velhas, bruxas e outros seres femininos medonhos. Escrevi um dos meus primeiros posts no Toques de Alma, o blog que ainda hoje tenho no iG, sobre esse súbito mergulho na transgressão capilar e os meses de perplexidades que se seguiram: minha mãe deixou de falar comigo (ela tem quase 90 anos de uma vaidade feminina feita de elegância rigorosa e cheia de compostura, o que inclui pintar religiosamente os cabelos todos os meses!), precisei mudar de cabeleireiro, queria cabelos brancos ‘maluquinhos’, eu dizia, ‘credo, vai parecer uma velha’, era o que eu ouvia, ou ‘vão achar que você é a avó do seu marido’… passei a máquina 4 no velho acaju, me olhei no espelho e, pela primeira vez na vida, me achei bonita!

Percebi que tinha entrado numa espécie de ‘fraternidade’, mulheres me paravam na rua ‘queria tanto ter coragem de fazer isso’, ‘onde você corta seu cabelo?’, ‘como você fez para deixar sem pintar?’ e, eventualmente, se cruzava com alguma ‘companheira’ de cabelos “pimenta e sal”, havia uma troca de olhares, um reconhecimento, um fundinho de sorriso, fifties de um pouco antes ou um pouco depois, irmãs na rebeldia…

Por isso, hoje estou achando graça de ver tantas meninas muito muito jovens exibindo suas cabeleiras muito muito brancas, à custo e à força.

“Cabelos brancos são o novo preto”, diz a reportagem no site Stylelist, a propósito dos desfiles de primavera de estilistas como Proenza Schouler, Giles Deacon e, pelo lado mais bem-humorado, Chanel , que trouxe para as passarelas modelos com rabos de cavalo de duas cores, impensáveis para mulheres comuns, talvez, mas divertidos.
Isso sem falar de celebridades precoces, que de repente, resolvem assumir  um estilo que de ‘avó’ talvez só tenha mesmo a cor. É o caso de Pixie Geldof , it girl britânica, filha do cantor e ativista político Bob Geldof, da cantora Pink que arrumou os cabelos num coque branco cor de neve para comparecer à entrega do Grammy e de uma gracinha de blogueira fashion de 13 anos, Tavi Gevinson, que posou para um foto com Karl Lagerfeld, ele de cabelos branco- prateado, ela de branco-azulado!!! (Aliás, vale a pena dar uma olhada no blog da menina, Style Rockie).

E, claro, Kate Moss, que foi ao lançamento de sua coleção de acessórios Longchamps, exibindo mechas acinzentadas, que fariam um estilo beeeemmmm ‘bruxa desgrenhada’ de histórias de fada, não fosse ela tão linda!

Kate-Moss no lançamento de sua coleção para a Longchamps

Modinha, é certo! E deve durar o tempo de uma primavera. Mas não faz um bem danado poder brincar de arco-íris na cabeça?

OK, nós fifties temos que tomar alguns cuidados:

- mulheres de pele mais azeitonada precisam tomar cuidado, se o cabelo não estiver mais para sal do que para pimenta elas podem ficar abatidas:

- o corte é fundamental, tem que aprender a jogar com a alegria e a descontração, cortes ‘caretas’ vão deixar você com cara de bisavó;

- cuidados adicionais também fazem diferença, já que os cabelos brancos, apesar de muitíssimo mais brilhantes do que os cabelos tingidos, podem ressecar, hidratação e banhos de creme só fazem bem;

- contrastes, quanto mais dramáticos melhor, se você for a dona de uma cabeleira grisalha com mechas bem brancas perto da testa num fundo mais cinzento, que sorte! Brinque com as franjas…

- por outro lado, seguindo a tendência inaugurada pelas meninas pinks e pixies, se seu cabelo for bem branquinho, dá até para pensar em deixá-lo longo e selvagem, como os da cantora country americana Emmylou Harris;

- tornar-se grisalha é adotar um jeito novo de ser: mudam os cabelos, muda a maquiagem, as roupas, vale experimentar até encontrar as cores e o estilo que vão combinar melhor com os tons de cinza do seu cabelo.

Cabelos brancos e histórias da Velha

Não que tenha sido uma decisão fácil. Não foi não. Mas ia virando uma urgência assim, aos pouquinhos. E então, num dia 31 de dezembro tornou-se minha mais importante resolução de Ano-Novo: deixar os cabelos brancos. E deixei.

Achei que era uma coisa minha, mas aqui e ali fui encontrando companheiras de ousadia. E percebi que, no fundo, os cabelos brancos eram uma provocação. E são, até hoje. Tive certeza disso no outro dia, quando encontrei no cabeleireiro uma “colega” que, ainda mais ousada, tinha deixado crescer seus cabelos à moda de Gisele Bündchen e me dizia: “não tem um lugar aonde eu vá que as mulheres não discutam se eu devia ou não ter parado de pintar os cabelos, se eu parecia ou não envelhecida, se estava ou não mais bonita ou mais feia. É engraçado, faz as pessoas se refletirem, como se estivessem diante de um espelho, mas eu adoro”, ela ria balançando suas madeixas cor de pérola.

Como foi que uma coisa aparentemente tão simples como pintar os cabelos ficou tão complicada, tão cheia de significados mais ou menos explícitos?

A forma como vemos nosso corpo está impregnada de fantasias, de desejos, de sonhos. E o corpo das mulheres desde sempre foi vestido de tabus e de preconceitos, talvez refletindo o mistério que se encenava em seu interior. O fato é que hoje, talvez até mais do que em qualquer outro momento, mulher é igual a mulher jovem, e ponto. Estamos tão acostumados a rimar mulher com juventude que é quase impossível imaginar outras belezas, outros jeitos.

O que será que assusta tanto na imagem da mulher velha? A resposta mais óbvia seria: o medo da morte. Por trás do cabelo branco, das rugas, das marcas da vida, se esconde o pavor do final. Parece lógico. Mas, homens de cabelo branco — e se tiverem barbas brancas ainda melhor – evocam imagens de sábios. Que imagens estão por trás da figura da Anciã, da Velha? Era uma vez uma época em que as mulheres velhas eram poderosas. Quer ouvir essa história?

Então vou pegar o livro A Velha, de Bárbara G. Walker e contar para você. A Velha era parte de uma trindade feminina que incluía a Virgem, a Mãe e a Anciã. Ou, nas palavras de Bárbara Walker: a Criadora, a Preservadora e a Destruidora. Para nossos longínquos antepassados o universo era o filhote sempre renovado de uma superdivindade feminina primordial, a Grande-Mãe, ao mesmo tempo senhora da vida e da morte. Todas as intuições primitivas sobre o ser feminino estavam contidas dentro dela. Com o tempo, essas imagens foram ganhando autonomia, dividindo-se ou desdobrando-se. As deusas Hebe, Hera e Hecate, da Grécia, por exemplo, eram, provavelmente, rostos diferentes de uma só divindade, que explodiu em algum momento da história em milhares de fragmentos. Hebe seria lembrada como a personificação da juventude e Hera, permaneceria para sempre a esposa de Zeus e senhora do Olimpo. Mas Hécate continuaria a personificar o desconhecido, eternamente ligada ao mundo das sombras, tão poderosa que o próprio Zeus não mexia com ela.

Tão antiga é a figura de Hécate que em outras versões do seu mito ela aparece associada com Ártemis, a deusa-donzela que domestica as forças selvagens da natureza e com Selene, a deusa-mulher da Lua. Os homens recorriam à Hécate para pedir graças, como riquezas e vitórias. Dizia-se que era ela que tornava os peixes abundantes ou fazia o gado definhar e morrer. Hécate é a senhora das artes mágicas e aparece aos magos e feiticeiras com um archote na mão ou como animal. Ainda mais interessante: seu reino é nas encruzilhadas, os lugares onde os mundos se encontram e onde se abrem os portais que permitem aos seres humanos passar de um lado para outro. Hécate guarda em si mesma a antiga trindade feminina e surge como uma mulher com três cabeças ou três corpos.

Talvez a Velha seja uma filha natural de Hécate, incrustada na nossa memória. Lembrança de um tempo em que vivíamos em maior harmonia com os ciclos da Natureza e a morte era uma aventura, cheia de mistérios. A Anciã traz a morte dentro de si e é a rainha absoluta da escuridão e do mistério. É ela que espera, no final da linha, para acolher tudo que vive em seu útero. E nessa escuridão úmida, ela recicla sem descanso nem tristeza o Universo.

Segundo Bárbara Walker, a Velha era o mais temido aspecto da trindade feminina e o mais poderoso. Nas sociedades pré-cristãs, as mulheres velhas eram encarregadas de infindáveis rituais religiosos, eram parteiras, médicas, curandeiras e possuíam o conhecimento acumulado que as tornava mestras em assuntos tão variados como o cuidado dos bebês e a forma correta de preparar os que iam morrer. De fato, ao longo da história, se a medicina era assunto dos homens, o cuidado dos doentes, das mulheres que iam dar a luz e das crianças, tradicionalmente era uma tarefa feminina, mais ainda, tarefa das “mulheres mais velhas”, coisa de avó. E é a Avó que nos pega pela mão e nos faz ver um outro lado da Velha terrível, amiga da morte: a Velha sábia e grande contadora de histórias. Bárbara Walker conta que a palavra “saga”, que originalmente se referia às canções nórdicas que relatavam assuntos lendários, literalmente quer dizer “aquela que fala” ou “a sábia”. As sagas da Escandinávia eram histórias sagradas que foram preservadas porque as sagas ou velhas sábias sabiam escrever em runas. Os homens nórdicos, aparentemente, estavam sempre tão ocupados com as guerras que, em geral, eram analfabetos. Curiosamente, em latim, a palavra “saga”, acabou virando sinônimo de bruxa ou feiticeira.

Criadora, destruidora, sábia, bruxa, as histórias da Velha são incontáveis e, você sabe, não precisam ter acontecido “de verdade” para “ser verdade”. Como outros tantos símbolos, imagens assim moram dentro de nós. Resta descobri-las e, quem sabe, conversar com elas de vez em quando.

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