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Vitus: o salto pelo avesso

vitus

Aos 50, vejo mais filmes e leio mais livros do que antes. Mais tempo, mais organização ou mais interesse? Um pouco de tudo, talvez. Os focos também são outros, o que me faz aproveitar os filmes e livros de maneira diferente.

Como em Vitus, filme de 2006, que passou por mim somente agora. Classificado de comédia dramática, foi diagnosticado como filme-família perfeito. Acho que é mesmo. Simples, engraçado, inspirado, dramático, meloso como qualquer família. Gostei e recomendo porque “pegou”. A mim, porque é uma ótima história sobre dar um vôo pelo avesso, terreno das minhas preferências.

Começo a história pelo fim, mas sem entregar o ouro. Antes de morrer, um avô que todos gostaríamos de ter deixa uma carta à família. Depois de contar um segredo a respeito do neto, afirma: “O que fazer para fugir do mundo, senão usar a inteligência”.

Quem se vale da inteligência para não ser “engolido” pelo mundo é Vitus, o neto, um pequeno Mozart. Garoto superdotado, ele recusa ser vitrine das vaidades alheias. O menino gênio quer ser tratado como normal, com direitos, deveres e vontades próprios da infância. E é aí que o filme vai pelo avesso das histórias tradicionais de heróis que superam suas limitações para vencer.

Vitus não renega o talento especial, mas quer estar no comando desse talento, decidindo como usá-lo na medida das suas necessidades e interesses e não na hora em que os outros querem. O garoto mostra a força que tem para tomar essa decisão e é por isso bem-sucedido na sua estratégia para driblar a situação.

Esse ponto, de conseguir fazer valer um querer, é sério. Freud e seus discípulos devem explicar com mais propriedade por que muitos de nós escolhem, ao longo da vida, continuar atendendo “o que mamãe/papai mandou”. Por que pode ser difícil seguir por um caminho próprio e apenas tomar os pais e as referências que os vão substituindo como modelos a recriar, desafiar ou mesmo afastar?

Antes de tudo, é bom ressaltar que de certa maneira não se escolhe atuar no mundo desse jeito. A questão vem do berço como uma espécie de marca forjada por uma articulação complexa de elementos que dão partida à formação de nossa estrutura psíquica. Estrutura que é instalada pelo modo de o mundo nos apreender e nós apreendermos o mundo.

Numa tradução e entendimento leigos do assunto, a coisa tem início naquela fase em que mãe e bebê se misturam tanto, que ninguém sabe quem (de)manda quem. Aí o pai entra no jogo e clareia o meio de campo colocando também suas demandas. Elas obrigam a “escolhas” e por isso geram conflitos. É a hora em que o indivíduo topa entrar na “briga” ou, de antemão, dá a batalha por perdida.

As ações, é importante frisar, não se dão no plano consciente e, evidentemente, carregam complicadas nuances. Mas na essência é o que está presente para dar formatos mais para um lado ou mais para o outro aos jeitos de cada um de nós. Nessa hora não há regras a indicar certo ou errado, por aqui ou por ali. Aliás, entendo que o processo está mais para aquele “se ficar, o bicho come; se correr, o bicho pega”. 

A melhor decisão? Aposto que é “correr”. Quer dizer, peitar o conflito. Pelo menos parece óbvio que assim se tem mais chance de continuar fazendo escolhas. Se, no entanto, nos deixamos comer pelo bicho, engolidos estaremos. A vontade dos outros, em vez da sua, estará no comando. Para sempre? Dizem que não, mas deve dar um trabalho danado mudar esse script. Menos complicado será fazer ajustes no outro.

Trata-se de uma “saia-justa” e, simbolicamente, os primeiros a passar por ela foram Adão e Eva. Decidiram desobedecer, desafiar a lei do “Pai”. Caíram no mundo. Talvez tenham tido a intuição de que mais dia menos dia aquele paraíso já estava mesmo perdido, eram favas contadas. Mas não se acovardaram. Apostaram no prazer de conhecer, arriscar, errar, acertar, gostar, não gostar e principalmente escolher o que estava por vir.

Mas tudo isso não livra ninguém de ter suas escolhas sempre submetidas a algo: às demandas públicas e/ou privadas da família, da sociedade, da cultura, das crenças. É por isso que Vitus, o garoto do filme, acaba fazendo o que “papai-e-mamãe” esperavam e queriam. Mas faz diferença atender a uma demanda no seu tempo e do seu jeito, e não nos moldes do outro. Acho que significa deixar o “paraíso” numa boa!

E os últimos detalhes: Vitus é interpretado por dois atores mirins. Frabrizio Borsani, que o faz aos seis anos, dono de lindos e curiosos olhos. E Teo Gheorghiu, aos 12, que é uma criança prodígio de verdade, talentoso pianista. O avô é o ator Bruno Ganz, veterano das telas que já viveu Hitler no filme “A Queda”.

Vitus, Suíça, 2006, diretor Fredi M. Murer

 

Entre amigos

Memphis Belle 

Existe coisa melhor do que ter amigos? Pra mim, não há. Não tenho ainda amigos há 50 anos, mas são muitos com mais de 50 anos. Às vezes mais distante, outras mais próximo, amigo é coisa pra se guardar no lado esquerdo do peito, como diz Milton Nascimento.

Embora muitas vezes não demonstre, gosto demais dos amigos que tenho, das amizades que algumas vezes nem busco, mas que afortunadamente para mim são cultivadas pelo meu verdadeiro amigo.

Outro dia, olhando a pequena coleção de DVDs em casa, entre eles, Antes de Partir (Bucket List), Perfume de Mulher, O Grande Lebowski, Memphis Belle, Os Intocáveis, as séries Boston Legal e Cheers, caiu a ficha: a amizade é o traço em comum da maioria dos filmes que possuo.

Ao mesmo tempo, me vieram à mente algumas das expressões sobre amizade. Algumas tradicionalíssimas como: “Amigo do peito”, “Amigo é pra essas coisas” e “Amigo das horas incertas”. Outra, muito em voga em Brasília, “Aos amigos tudo, aos inimigos a lei”. Ou, ainda, uma quase celibatária, “Mulher de amigo meu, pra mim, usa calça”. E, por fim, uma expressão bem do dia-a-dia, “Amigos, amigos, negócios à parte”.

Sobre esta última, reconheço que não é qualquer um que consegue separar claramente a amizade de negócios. É preciso ter coragem e habilidade para dizer não, e se safar de inesperadas saias-justas.

Imagine, por exemplo, aquela colega do escritório que começa a contar coisas pessoais, dificuldades familiares, forçando uma aproximação maior, vá lá, uma amizade mesmo. A partir daí, tenta usar essa aproximação para sair mais cedo, entregar trabalho atrasado ou incompleto e faz cara de sofrimento para fugir das críticas. Para evitar essas artimanhas, o melhor é ser direto, sem rodeios. Diga logo no início “Pela demora, este relatório deve ter ficado excelente”… Para, poucos minutos depois, acrescentar: “Pensei que fosse impossível, mas ficou uma m…!”

E tem aquele amigo meio distante, apresentado em algum fim de semana no clube e encontrado eventualmente. Mas aí você vai trabalhar numa empresa grande, melhor ainda, em um alto cargo. Pronto, o cara se aproxima tão rapidamente que você pensa até que vai haver uma colisão, um abalroamento. Começam os convites de almoços, cinemas e jantares com respectivas acompanhantes e você fica em dúvida se não é melhor mudar de clube (pedir demissão do emprego não vale a pena) para evitar tanto assédio.

Ou tem o tipo que passa a impressão de que os amigos estão virando, sempre que possível, um negócio a fazer, um target. Trata-se de um profissional 24/7, sempre em busca de business. Chega em happy hours e acha que continua no office ainda em um meeting com clientes. Em volta da mesa do bar, todos para ele são painelistas, o que em si não é ruim, exceto pelo fato de que todos receberão comentários do tipo: “isso que v. está falando é bullshit” ou “muito bem, welcome to the game”. É o coordenador em tempo integral.

Um quarto tipo, o negociador em pessoa, não só não separa amizade de negócios como, na verdade, mistura tudo completamente e, pior, envolve a família. Assim, não perde oportunidade para ensinar negociação para filhos e mulher. Tanto, que não há mais conversa mole nos jantares em casa. A todo comentário ou assunto levantado, coloca sempre como provocação se haveria uma alternativa melhor, ou então consulta a todos se o que um dos filhos está fazendo é ou não a melhor maneira de lidar com determinada questão. A família vira um curso de extensão universitária.

Mas amigo, quando é amigo mesmo, pode ser de qualquer tipo. No meu caso, não tenho muitos, mas também não são poucos. E, se pudesse escolher de novo, seriam os mesmos. Pra eles posso dizer, parafraseando o grande Vinicius de Moraes, em Samba da Bênção: “é melhor ter amigos que ser triste, a amizade é a melhor coisa que existe…”.

Alberto Lyra                         

Nosso blogueiro convidado é Beto L, administrador de empresas, generalista sem ser superficial e objetivo sem ser detalhista. Filosofia: há muito humor no mau humor.

Mulheres de 50

Estávamos cansadas de não ter o que ler na web! Nada parecia ter muito a ver conosco: pílula e infertilidade? Medo da maternidade? Qual é o meu estilo? Como escolher a babá? O eixo das nossas perguntas vem se deslocando há alguns anos: nossos filhos ou já saíram ou estão saindo de casa. Não temos mais dúvidas vocacionais e já conciliamos, do jeito que deu, família e trabalho. E agora, Maria? Agora, meu bem, é daqui prá frente! Pode vir conosco se quiser…

Imagem do dia: na lama, ou as coisas que você só vê quando olha bem de perto!

Down on the ground, focusing on dirt and dust, I think that maybe we should all lie down and see things a little differently.

Mishelle Lane é fotógrafa, apaixonada por aquelas coisas miúdas do cotidiano que tantas e tantas vezes a gente nem vê. Nesta foto, ela estava agachada no chão, com a lente focada na terra, tentando ver as coisas de um jeito diferente. Seu blog, Secret Agent Mama – não é um nome sensacional? — ganhou vários prêmios de melhor blog de fotos da web, incluindo o Ninth Weblog Award, em 2009. Pode se deliciar!

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