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Fotos, fotos e o que tem todas essas coisas a ver com Gramsci

Chongqing-IVSunday-Picnic-Nadav Kander Prix Pictet 2009

Ando fascinada pelas imagens. Justo eu, uma total dummie visual, criatura verbodependente, de repente me pego olhando, olhando, buscando para além das palavras, as estranhezas do mundo…

O olhar transforma aquilo que vê, não como mero argumento, teoria ou dilema filosófico, mas de um jeito real, quente, vivo. E o que a fotografia tem de mágico é justamente revelar num clique essas vidas múltiplas e entrelaçadas que habitam todas as coisas e seres do mundo.

De certa forma, é esse “dar vida” que está por trás do Pictet Prix. Criado há apenas dois anos, patrocinado pelo banco suíço Pictet & Cie e com o apoio do jornal Financial Times, de Londres, o Pictet Prix premia anualmente os melhores trabalhos fotográficos sobre meio ambiente. Em 2008, o tema foi “Água” e o ganhador foi Benoit Aquin, fotógrafo canadense, pelas suas imagens sobre a desertificação da China. Este ano, o tema era “Terra” e foi Kofi Annan, prêmio Nobel. ex-secretário geral da ONU e presidente honorário do Pictet Prix que entregou o prêmio para o israelense, Nadav Kander.

É mesmo impossível permanecer indiferente, tamanho é o poder destas imagens. Nadav Kander pegou as comunidades ao longo do rio Yangtze, na China, como personagens de cenas quase irreais, etéreas, permanentemente envoltas em névoa. Talvez por isso sejam tão contundentes. Não sabia, mas existem mais chineses vivendo às margens do Yangtze do que nos EUA! E, apesar dos programas do governo chinês o ritmo voraz dessa ocupação marca a paisagem. “A China muda todos os dias, tanto econômica quanto fisicamente”, diz um morador para o fotógrafo, “essas fotos que você está tirando nunca mais poderão ser repetidas”.

Quase todas as imagens dos indicados ao prêmio deste ano possuem essa qualidade de sonho. É assim com as fotos de aquarela dos incêndios florestais em Portugal, tiradas por Edgar Martins e com as “luas cheias” do inglês Darren Almond. Não, talvez sonho não seja a melhor palavra, são imagens fantasmagóricas de um mundo em agonia.

Porque sabem, aos 50, um pouco antes, um pouco depois, você se vê diante de uma questão incômoda: e a herança? O que vc vai deixar para seus filhos e netos, como legado?

E a resposta nem sempre nos agrada ou, como diria o filósofo italiano, Gramsci, “odeio os indiferentes, viver é tomar partido”…qual é o nosso?

A exposição com todas as fotos está em Paris, na Passage de Retz e deve caminhar um pouco pelo mundo.

Até lá, você pode passear pelas imagens-terra clicando aqui

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A foto é do Prix Pictet 2009, Nadav Kander, Chongqing-IVSunday-Picnic

Prazeres: o Louvre e seus visitantes

alecio-de-andrade2_o-louvre e seus visitantes

Você já teve o prazer de visitar o museu do Louvre, em Paris? Eu tive, mas um prazer muito, muito especial. Por intermédio de amigos, fiz parte de um grupo privilegiado convidado para uma visita ao museu no dia em que ele fica fechado ao público, às terças-feiras. Coloco a experiência entre as coisas mais emocionantes da minha vida!

Nosso guia, com grande conhecimento do acervo, escolhia algumas peças que considerava marcos fundamentais da arte para conduzir a visita — que não foi longa, mas de uma beleza e densidade infinitas.

Passávamos de uma pequena máscara grega, que talvez sozinha eu jamais tivesse prestado atenção, para uma escultura romana e depois uma pintura do século 16. As pontuações se sucediam, enquanto caminhávamos pelos prédios e alas, acompanhando a história das obras e também do museu. Claro que pedimos para ver a Mona Lisa, e a sensação de estar na frente daquele ícone, no silêncio das galerias vazias foi uma emoção inesquecível, que beira o sublime.

A lembrança dessa visita veio à tona recentemente em outra visita, desta vez à exposição O Louvre e seus Visitantes, que se encontra no Museu Nacional de Belas Artes no Rio de Janeiro e exibe coleção de fotos de Alécio de Andrade (1938-2003), carioca, poeta, músico e fotógrafo profissional, que viveu em Paris.

Na capital francesa, Alécio trabalhou para diversos veículos nacionais e internacionais, foi correspondente da revista Manchete e também associado por um tempo à agência Magnum-Photos, fundada em 1947 por um grupo integrado por Henri Cartier-Bresson. A agência abrigou, e abriga, grandes fotógrafos do mundo.

A exposição O Louvre e seus Visitantes, e o livro que a acompanha, foram idealizados pela viúva de Alécio, Patrícia Newcomer, com base em mais de 12 000 fotos feitas, apaixonadamente, ao longo de quase 40 anos de visitas do fotógrafo ao museu.

“O traço comum das fotografias que apresento talvez seja devolver a esse lugar tão visitado a presença e a intimidade do olhar daquele ou daqueles que, tendo vindo admirar quadros ou esculturas, muitas vezes só enxergam pouca coisa mas, de um momento para o outro, podem viver o encontro com uma obra ou mesmo um detalhe que irá comovê-los mais que qualquer coisa”, escreve Alécio de Andrade na apresentação do livro.

 alecio-de-andrade_o-louvre e seus visitantes

 

 alecio-de-andrade_o-louvre e seus visitantes

O acervo de 88 fotografias pertence ao Instituto Moreira Salles, doado por Patricia Newcomer, Florencio e Balthazar de Andrade, com a curadoria de Hélène Lassalle e Jean Marchetti.
Alécio foi amigo de vários intelectuais, como o poeta Drummond, que lhe dedicou este poema:

O que Alécio vê

A voz lhe disse (uma secreta voz):
- Vai, Alécio, ver.
Vê e reflete o visto, e todos captem
por seu olhar o sentimento das formas
que é o sentimento primeiro – e último – da vida.

(Carlos Drummond de Andrade inAmar se Aprende Amando”)

Exposição: O Louvre e seus Visitantes
Museu Nacional de Belas Artes, Av. Rio Branco, 199
Tel: (21) 2240-0068
de 10 de julho a 13 de setembro de 2009
de terça a sexta-feira, das 10h às 18h
Sábados, domingos e feriados, das 12h às 17h

Para saber mais sobre a exposição, navegue pelo site da Confoto

E para comprar o livro O Louvre e seus Visitantes, de Alécio de Andrade, Edgar Morin e Adrian Harding

No blog da fotógrafa Luciaadverse’s você passeia por algumas da fotos da exposição 

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