Prazeres de Viagem I
Por Tanya Volpe
Hoje acordei e, como de hábito, fui caminhar.
O dia estava meio frio, o céu meio cinzento e me dei conta de uma nostalgia, um desejo de sei lá bem o quê. Uma vontade de mudar, de me encantar, de me enternecer…
Às vezes sinto isso que eu “entendo” como vontade de viajar, “tomar um trem para Paris” (no meu caso) como Adília nos contou em outro post.
Trocar a vida meio triste por aquele deslumbramento constante, estado permanente de alma encantada. De descobrimentos.
A certeza de um encontro marcado com a beleza.
O desejo foi parcialmente resolvido escolhendo fotos para um futuro post….
Exercício de tradução: Marché d’Aligre
De todas as inúmeras feiras e mercados de Paris, para mim o d’Aligre é especial.
Construído em 1779 para prover alimentos para o grande número de trabalhadores, marceneiros e artesões que se concentravam nessa região (ainda há muitos por lá), o mercado se divide em duas partes: uma feira ao ar livre que se espalha pela rua, como as nossas, e que funciona na parte da manhã. E um mercado coberto, também como os nossos, aberto durante todo o dia. Até aqui, fora a data em que o marché foi construído, 1779 (dez anos ANTES da Revolução Francesa!!??) nenhuma surpresa, tudo igual. Mas olhando mais de perto, as diferenças intrigam e encantam!
Adoro passear pelas bancas e descobrir ‘ao vivo’ o que conheço dos livros. No açougue, por exemplo: a que parte da vaca, do carneiro, do vitelo pertencem aqueles cortes cujos nomes não dão sequer uma pista, onglet , aiguillette, gite? E o que eles têm a ver com os nossos cortes de carne?
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Na barraca dos peixes as dificuldades de “tradução-adaptação” são ainda maiores. ‘Quem’ são aquelas conchas e mariscos todos, deitados nas algas e gelo picado, dos plateau de fruits de mer? Violet, bulots, pétoncle, bigorneaux, palourde, e o ‘mar’ de conchinhas, peixes e afins que ajudam a perfumar as bouillabaisses ?
Rascasse, merlan, limande, rouget, étrilles, tourteaux…..prazer em conhecê-los, hein?
Com os legumes e frutas, a relação é um pouco mais simples. Aqui dá para fazer a versão. Quiabos são okras! Couve é chou vert. Melancia, pastèque, e o maracujá, coisa mais linda, fruit de la passion!
Passo pelas barracas das aves, uma beleza vê-las todas arrumadas na vitrine, com seus colarzinhos de penas — muito chiques — identificação comprovada, de procedência e qualidade.
É no Aligre que compro os queijos que trago na volta para dividir com os amigos. Em duas barracas que existem ali, incluindo a de Cyril et Nathalie, nunca paro de aprender e conhecer mais. São mais de 1000 tipos de queijo que existem na França: queijo de leite de cabra, ovelha, ou vaca, fresco, curado, redondinho, quadradinho, em pirâmide, com cinzas… Adoro um tal de Banon, feito com leite de cabra, fresquíssimo e extremamente delicado. Um galhinho de pinheiro ao lado indica sutilmente o perfume do terroir de onde veio o queijo. E o Époisse afinado no marc de Bourgogne (uma aguardente destilada de resíduos de uvas) que tem cheiro forte, mas uma consistência cremosa e um gosto ‘amendoado’ delicioso. E mais outros tantos e tantos, cada um com suas especificidades. Ali tem também as manteigas, vendidas a peso. Montadas em grandes formas arredondadas, sedosas e branquinhas. Dá vontade de pedir uma colher e começar a comer assim mesmo, pura.
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As charcuteries são outra viagem: salsichões, salames, salsichas, presuntos rosados, crus e curados, comprados em tranches — sim, em fatias, não em gramas ou quilos — pelos freqüentadores, na sua imensa maioria, moradores da região e habituées. Assim como eles, não resisto e peço minhas 2 ou 3 tranches de presunto de Bayonne, label rouge, certificado que garante um produto de qualidade especial . Para comer, vou logo ali ao lado, comprar uma das melhores baguetes de Paris, a da Boulangerie Moisan, Le Pain au Naturel, uma das primeiras a resgatar, há uns 10 anos mais ou menos, quando a qualidade dos famosos pães franceses começou a ser questionada, a maneira tradicional de fazer pães a partir de fermentação natural. Seus pães são produzidos com farinhas especiais e assados corretamente, o que se percebe na ‘crocância’ perfeita da casca . A boulangerie fica quase em frente a uma das entradas do mercado na Place d’Aligre. E a produção diária e contínua de pães, assegura que você vai sempre encontrar um quentinho. Quer coisa melhor na vida?
O mercado abre pela manhã até 12 horas e depois a partir das 4 da tarde. Fecha às segundas. Também vende flores e algumas comidas semi prontas. Jornada cultural imperdível !!!!
Tanya Volpe é cozinheira. Já fui e fiz muitas coisas. Hoje leio, penso e escrevo sobre comida. Filosofia: Viver não é preciso, mas cozinhar e viajar…
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Marche d’Aligre
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Rue d’Aligre
12 eme
Moisan – Le Pain au Naturel
5, place d’Aligre 12 eme
Tél: 01 43 45 46 60








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