Lá vai minha filha!
Por Hilda Lucas
Lá vai minha filha. Minha menina. O tempo voou.
Lá vai minha filha quase voando no seu vestido etéreo.
Lá vai minha filha do olho grande, da pele morena e do cheiro de feijão. A menina que estreou a mãe em mim. A menina que chegou trazendo todo um universo de novidades: emoções, medos, encantamentos, aprendizados. Crescemos juntas: eu aprendendo a ser mãe e ela aprendendo a ser ela mesma. Descobrimos duas palavras mágicas: ela me chamou mãe e eu a chamei filha. Palavras novas e tão viscerais que pacientes esperavam para se cumprir. Éramos duas sendo uma em muitos sentidos. Carne da minha carne, fruto do meu amor, sonho dos meus sonhos. Ela me expandia e eu a protegia. Ela me dava a mão e eu todos os sumos. Ela me dava a eternidade e eu lhe dava asas. Ela me alargava o coração e eu lhe ensinava a caminhar sozinha. Ela me cobria de beijos e eu a cobria de bênçãos. Ela me pedia colo e eu lhe pedia sorrisos. Ela me traduzia e eu a decifrava. Ela me ensinava e eu lhe descortinava o mundo. Ela me apontava o novo e eu lhe ensinava lições aprendidas no passado. Ela me falava de fadas e princesas e eu lhe falava de avós e gentes. Ela me emprestava seus olhos encantados e eu rezava por um mundo melhor. Ela me tirava o sono e eu cantava para ela dormir. Ela me alegrava a vida e eu vivia para ela.
Quando um filho nasce começamos a nos despedir dele no mesmo instante. Nosso ele só é quando no ventre. Depois somos seus abrigos, seus condutores, seus provedores sem nunca esquecer que eles começam a ir embora no dia que nascem. No começo o tempo parece parar. A plenitude da maternidade e a dependência dos pequenos criam uma ilusão de que será assim para sempre. Mas não, eles crescem inexoravelmente em direção à independência. Cumpre-se o ciclo da vida e é melhor que seja assim, caso contrário, significa que algo de muito triste, inverso ou perverso aconteceu.
Lá vai minha filha. Assim seja.
Olho seus olhos enormes e profundos e vejo os mesmos olhos que ainda na sala de parto me olharam intrigados, solenes, como que me reconhecendo, me convocando. Eu disse sim à minha filha, imediatamente, a segui desde aquele instante, entregue, eleita. O amor que eu senti foi tão avassalador e instantâneo que eu cheguei a ter medo. Sim, na hora que nasce o primeiro filho, a gente compreende a fragilidade da vida, a fugacidade das coisas e a passa a ter medo de morrer. O fato dela precisar de mim me tornava única, imprescindível. Eu não podia falhar, eu não podia morrer, afinal foi ela quem me escolheu. A partir dali, tudo mudou, meu espaço, meu papel, minha relação com o mundo adquiriu outra dimensão: eu era sua mãe!
Crescemos juntas. Somos amigas. Mãe e filha. Ao longo desses anos rimos, choramos, brigamos, resolvemos impasses, estreitamos laços, vencemos batalhas, enfrentamos noites escuras. Contamos uma com a outra, sempre. Às vezes era eu quem a socorria outras vezes era ela quem me amparava. Não foram poucas as vezes em que os papéis se inverteram e ela foi minha mãe. Às vezes me pergunto se eu dei a ela tanto quanto recebi. Sinceramente, acho que não. Desde o momento zero ela transformou minha vida e, num movimento contínuo, faz de mim uma pessoa melhor.
Lá vai minha filha. Apaixonada e confiante. Ensaiando vôos, escolhendo caminhos, encerrando ciclos.
Eu feliz, penso: cumpra-se!
Hilda Lucas, Lá vai minha filha São Paulo, 19 de outubro de 2009.
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A foto é do portfolio de Allerina e Glen MacLarty no Creative Commons do Flickr
Hilda Lucas é escritora de palavras quentes e generosas. Autora de Memórias líquidas, um livro sobre uma família assombrada pela morte, ela escreve também uma coluna semanal para o portal M de Mulher, da Abril. Esse artigo é de 7 de janeiro de 2009. A Hilda aí ao lado é obra à moda de Andy Warhol de Maria Cristaldi
Amor bem brega
Parece piada, soa piegas, mas é isso que eu quero: aos cinqüenta e dois anos, ainda quero um amor, mais um.
Não um amorzinho qualquer, nem caso, nem casamento, nem paixonite. Nem precisa ser para sempre. Mas não vale amor comprado. Nem quero nada escondido, furtivo, apressado. Não me convêm as sombras, nem o outro lado da história.
Um amor para amar, já sem filhos para criar, sem casas para construir, sem dinheiro para juntar. Um amor de só viver. Feito de aconchego e tesão e distâncias que não sejam abismos, intimidade que não seja diluição, afinidade que não seja anulação. Um amor de mistérios sutis, fantasias libertas e silêncios solenes, comoventes. Ah!, precisa ser amor de espaços preservados.
Não quero ser dona nem serva. Muito menos cara-metade: quero inteiro, de igual para igual, lado a lado, olho no olho. Amor de compartilhar, sem compartimentos. Só não pode invasão. Não quero clandestinidade, nem mesquinhez, não quero as sobras, quero o banquete. Quero plenitude nesse amor maduro e bem-vindo.
Quero viagens, tardes chuvosas, estradas, hotéis. Quero soltura. Beijo na praça, no cinema,na sala, no beco. Público e privado. Às claras. Deve ser, um amor ousado e cheio de besteiras íntimas.
Aos cinqüenta e dois anos me surpreendo, me pego sonhando, ainda querendo. Que mania, meu Deus! Que nem menina, que nem mocinha, que nem qualquer mulher, (duvido que todas não queiram…), ainda desejo aquelas velhas sensações risíveis: perna bamba, coração aos pulos, beatitude, frio na barriga, sexo molhado. Sossega, mãe! – posso ouvir filha dizer. Desculpa, filha, não dá.
Não tenho o menor pudor em rimar paixão com coração, amor com dor, sonho com Tonho, se esse for o nome amado, porque o amor é brega e quase ridículo, é lindo e quase impossível, é fugaz e quase sempre atroz. E ainda assim, eu quero.
Sei que o amor é exibido, gosta de se pavonear, se estampa na cara da gente, muda nosso olhar, sobe em palanques, púlpitos; é tão eloqüente esse tal de amor que nos deixa gagos, atônicos. Às vezes, fica de longe, tímido e platônico. O amor nos faz de bobos, zomba de nós para depois nos fazer sentir heróis. O amor é complexo na sua gramática: para alguns é verbo intransitivo, tem sujeito composto de outrem, é adverbial nos modos e tempos e também muito sintático. Prolixo, profético, profilático, pródigo. Às vezes, promíscuo. Adora ser um paradoxo e, apesar de gostar das proparoxítonas, pois é trágico, patético, democrático e poético, o amor é também gutural, ditongal, cheio de ais e uis, repleto de mins e tus.
Muito cortês e fidalgo, coisa de fino trato é também hormonal, cheio de humores, temperamental. Pode ser casca grossa, desastrado, bruto até, um coitado. Matreiro e engenhoso, o amor é safado, malandro, desabusado. Se mal criado, fica vulgar, violento. Se bem tratado, é meloso e delicado, vem com flores e fala mansa. O amor é dengoso, sorrateiro. Esgueira-se sem cerimônia nas alcovas, sob as saias, nos banhos, debaixo da pele, atrás dos sonhos. Pode ser distraído e isso às vezes é fatal porque irrita. É guloso, come chocolate. Quando selvagem, arranca pedaço. Quando domesticado, enjoa. É maroto, o famigerado, é astuto, o danado. Não dá trégua, é teimoso, não sossega enquanto não nos faz arquejar, arfar, arder. Ah, como eu quero, um amor assanhado, descarado, louco para ser feliz e rir alto! Daqueles feitos de valsa e tango. De príncipe e de raptor. Estado de graça e cio. Verbo e carne. Amor explícito, melado. Xodó.
E por não parar de pensar no maldito bendito, eu digo rendida e inconformada, que aos cinqüenta e dois anos, ainda quero um amor feito de tudo e de nada, de fogo e de paz.
Anacrônica e bobinha lá vou eu, sem medo de ser nem ridícula nem feliz. Não abro mão. Insisto, sigo querendo, totalmente apaixonada pela idéia de amar.
A foto lá em cima vem do portfolio de Rafeejewell, que se apresenta como o avatar Raftwet no Second Life, o mundo virtual onde todos são personagens de si mesmos. Surreal, certo? Mas a imagem é de um amor brega que nasce num ambiente de fantasia e floresce nos nossos sonhos… Para conhecer um pouco mais destas estranhesas virtuais, pode visitar Raftwet in Second Life
Hilda Lucas é escritora de palavras quentes e generosas. Autora de Memórias líquidas, um livro sobre uma família assombrada pela morte, ela escreve também uma coluna semanal para o portal M de Mulher, da Abril. Esse artigo é de 7 de janeiro de 2009. A Hilda aí ao lado é obra à moda de Andy Warhol de Maria Cristaldi


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