Cabeça vazia, oficina do Diabo!
Anda triste, de baixo-astral? Então arrume as gavetas, lave um cesto de roupas, passe um pano no chão, vá dar uma poda nas plantas…
Ao captarem um espírito entediado, preguiçoso, nossas mães e avós viviam tendo idéias para nos ocupar sem saber o santo remédio que estavam prescrevendo contra tristezas e até a depressão.
O jeito antigo e espontâneo de espantar minhocas da cabeça, sem enfiar nela substâncias químicas, foi agora atualizado pela neurociência, noticiou a Folha de S. Paulo. Pesquisas sobre o tema defendem trabalhos ou atividades simples do cotidiano como forma de resistência a desânimos em geral.
O principal dessa história está no nosso sistema de recompensa, um grupo de estruturas cerebrais responsáveis por recompensar atitudes úteis, creio que especialmente aquelas importantes para nossa sobrevivência.
Então temos de “agradar” esse sistema quando ele está meio para baixo. Talvez um elogio, um beijo, abraço, cafuné resolvam. Mas se a ansiedade estiver em alta, é melhor optar por estímulos mais intensos. Por isso é que esfregar roupas no tanque poderá fazer você se sentir muito bem.
A pesquisadora e neurocientista entrevistada no artigo, a americana Kelly Lambert, chefe do departamento de psicologia de uma faculdade na Virgínia e autora de livro sobre o assunto, define a questão como um “circuito de recompensa adquirida pelo esforço”, envolvendo prazer, movimento e solução de um problema.
A explicação: “A sensação de sucesso ao tricotar, montar um quebra-cabeça ou apenas limpar o chão, dependendo do gosto, é acompanhada de substâncias que deixam a pessoa mais persistente. Ou menos depressiva…”
Foi outro estudo americano que motivou a atenção da cientista. Apontava que pessoas nascidas até 1940 eram dez vezes menos propensas à depressão do que quem nasceu depois. Na ausência de uma mutação biológica importante no funcionamento cerebral, Kelly Lambert credita a mudança de estilo de vida dos dias de hoje ao fenômeno.
As pessoas ficaram menos ativas, com trabalhos mais sedentários, usando muito mais a mente do que o corpo. A mente cansada fica vazia e, como diz a sabedoria popular, cabeça vazia é oficina do Diabo!
Cheia de caraminholas na mente, seu espírito só pode azedar. Siga a recomendação da ciência: adoçá-lo com movimento, prazer e esforço que levem a uma doce e recompensável solução.
É bom lembrar, no entanto, que o cérebro tem também um setor, bem atrás da testa, responsável pela nossa capacidade de prever as consequências de um ato. Em outras palavras, ter juízo. Então você precisa conciliar a avidez por recompensas fortes com seus limites.
Se uma parte do seu cérebro requer aventura para apaziguar o espírito e a outra é incapaz de lhe avisar dos perigos, você pode dançar: corre o risco de se machucar e não concluir a tarefa. Talvez com um pé quebrado porque subiu no banquinho para fazer faxina, vai ficar mais sedentária e acabar deprimida… Daí o Diabo, em vez de você, venceu a parada!
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Você pode saber mais sobre esse assunto
A entrevista da neurocientista Kelly Lambert saiu na edição de domingo da FSP, 11 de outubro, no caderno Mais!
O livro da cientista: “Lifting Depression” (Suspendendo a Depressão, Basic Books, 288 pgs)
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A foto chama-se I’m Starting to Crack que seria algo como “estou começando a ter uma crise”, é de uma australiana, Nina, a 1Happysnapper do Flickr.
Mães maduras, filhos imaturos
Outro dia uma cena me levou à Louise Brown, o primeiro bebê gerado por reprodução assistida, na Inglaterra, em 1978. Era um casal maduro com um filho pequeno, não sei se a criança fabricada por um encontro natural de óvulo e espermatozóides no corpo da mãe ou produto de um arranjo tecnológico, cujos avanços, em 30 anos, já ajudaram casais a produzir cerca de 3,5 milhões de criaturinhas nascidas saudáveis em todo o mundo. No Brasil, considerado um dos centros de excelência na área, são cerca de 4 mil nascimentos ao ano. E o número só cresce.
O noticiário da época do nascimento de Louise diz que seus pais esperaram nove anos por uma concepção natural até buscar a ajuda da ciência. Uma espera impensável para quem enfrenta hoje dificuldades para engravidar (de 10% a 15% dos casais). E nem precisa haver dificuldades, problemas de infertilidade. Em muitos casos, é a praticidade no planejamento da vida, a ansiedade, a insanidade ou as onipotências mil que levam casais saudáveis às clínicas de fertilização assistida. O desejo de um filho parece ter saído do plano dos sonhos para entrar no de planejamento de metas. Quando surge, vira ordem imperiosa com pouco espaço para tentativas, falhas e frustrações. A ciência comparece e resolve a questão. Como tudo, tem lado bom e ruim.
O fato é que as técnicas de reprodução assistida mudaram a paisagem da maternidade, permitindo apreciar uma combinação que pode ser hilária: a da mãe madura com o filho pequeno. Dizem que, por serem mais velhas, elas tendem a ser excessivamente protetoras, criando filhos medrosos e exageradamente manhosos. Minha experiência de observadora diz o contrário. Mães maduras, quarentonas até bem passadas, me parecem saudavelmente desencanadas.
Volto à cena que me chamou a atenção outro dia. Na praia, a poucos metros da minha cadeira, uma dessas mães tentava tirar o filho, de uns 4, 5 anos, do mar. “Tá cheio de siri aí, vão morder o teu pé, venha agora, Francisco”, arriscava ela. “Onde, mãe, onde você viu?”, respondia o garoto se aproximando para, em seguida, mergulhar e se afastar novamente, talvez atrás dos siris.
O pai maduro, reunido com amigos em sua barraca, só ria. Mais ainda quando ouviu o aviso gritado da mulher: “Se eu não conseguir tirar o cara da água em 5 minutos, vou sentar aí e o problema é seu.”
Terrésssa, como o marido pronunciava num sotaque espanhol o nome da esposa, continuou com as tentativas: “Franciiiisco, agora chega, sai já, não agüento mais ficar aqui nessa água gelada”. “Mãe, a pessoa mais corajosa dessa praia é a Nanda, ela entra na água gelada”. “Mas a Nanda foi passear e eu não entro. Você é que sai. Frannncissscô, já!” Mais aproximações, fugas, mergulhos.
“Francisco, agora é sério. Tô vendo um tubarão vindo, vai te pegar, é perigosíssimo!! Sai, rápido, rápido…” “Onde mãe, quero ver, quero ver…” “Corra já pra cá, ele tem uma barbatana enorme pra fora, e deve ter uma boca enorme pra te engolir num segundo…” “Onde, onde mãe?” Tchibum, tchibum…
Pausa para um foco no marido. Um olhar furioso? Não, um olhar matreiro, zombeteiro. “Vou simular um afogamento e você chama o salva-vidas, tá?”, propôs ela ao parceiro. “Terrésssa, vê se ele não quer sorvétes, milho, una empadita…”
“Francisco, vem cá no rasinho, quero te contar uma coisa”, chamou Terrréssa. “Você sabia que uma onda pode ficar gigante e invadir toda a praia, e com uma força gigante que pode até levar a gente pra cima daquelas árvores lá?” Tchibum, tchibum… “Vem Francisco, já cansei, tô com frio…”
Tchibum, tchibum… “Mããe, olha a Nanda!” “Oi, mãe, quer que eu olhe o Francisco um pouco?” “Ah, é tudo o que eu quero, tô gelada, tudo bem mesmo?” “Deixa comigo.” Tchibum, tchibum… “Nanda, vai ter uma onda gigante até o céu e tem um tubarão grande, mas não vi.” “E você acredita seu bobão, o tubarão grande sou eu que vou te pegar, já!!” Tchibum, tchibum… “Mããnhêê, olha a Nanda!”
Foi o espetáculo mais engraçado do politicamente incorreto que já vi. Saboreado de camarote. Maravilha! Essas Teréssas maduras podem levar a maternidade assim: amam, reclamam, inventam, divertem-se, simplesmente desencanam.
A foto não é o máximo? É do photostream de Morgana Meggie no Flickr. Ela é uma campineira, que, pelo visto adora bichos porque também assina o site: Anjos abandonados, central de adoção de animais abandonados em Campinas. O nome da foto é Maternidade.


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