Se eu for antes de você…
O papo é filme, outra vez. Já viram P.S. Eu te amo? Uma delícia de história e, o melhor, com sugestão de final feliz. A protagonista é interpretada por Hilary Swank, lindíssima no papel de Holly. Outra maravilhosa, Kathy Bates, faz a mãe Patrícia. Entre as paisagens, campos da Irlanda.
“Eu te amo” é o final de cada carta recebida por Holly após a morte do marido. Ele sabia que iria sair de cena antes dela e prepara um plano para ajudá-la a tocar e recriar a vida sem ele. Arrogante? Não, um homem apaixonado. A última carta é entregue a Holly pela mãe e é ela que mostra à filha o essencial para que ela possa suportar o sofrimento e seguir em frente: “Ele não te abandonou por opção”.
A vida fica mesmo difícil quando os amores se interrompem, seja por morte ou escolha própria. Nenhuma das situações bate com a minha no momento, mas acho atraente a idéia do filme de deixar um “manual de sobrevivência” para quem fica de lado. É o que segue para a hipótese de eu sair de cena antes dele:
1-Mesmo que você esteja aliviado de alguma forma, deixe transparecer muita tristeza no meu enterro. Nada de piadinhas com os amigos nessa hora. Para o bem da minha imagem, a sua tem de transmitir esta mensagem: “Ele gostava mesmo muito dela”.
2-Será inevitável minha ausência fazer presença. Não vale a pena ficar com raiva, já que não estarei presente para pagar esse mico.
3-Use outro ou construa um banheiro novo para você. Pode ser um bom jeito de driblar muitas das marcas da vida a dois, como aquelas não-conversas com a boca cheia de pasta de dente.
4-Porque se amam, casais se ferem. Danem-se as culpas. Pense no melhor, por exemplo, o sofá só para você na hora do filme ou do futebol; ou o café da manhã tranqüilo, atenção concentrada apenas no jornal. Claro que vai fazer falta a xícara de café com leite que transborda e derrama na toalha todos os dias, mas aí você vai se divertir inventando outra coisa para implicar.
5-Para variar, aceite fazer todos os programas. Caia no agito e aproveite tudo com moderação, inclusive a moderação.
6-Cultive a assertividade, a independência, o humor no mau-humor. Serão sempre sedutores, mas sedução também escorrega do cavalo. Então jamais esqueça de ser romântico, atencioso, cordato, interessado – a eterna estratégia capaz de proporcionar prazeres. Se é que estará ainda interessado…he, he, he… ai, ai, ai…
7-Simplesmente pare de guardar coisas. Descartar também é bom, e não vale apenas mudar de lugar.
8-Não tenho dúvida de que você cuidará bem dos meninos, mas cuide bem, também, das futuras noras. Seja cordial, delicado, amoroso e encorajador com elas. Desde que sinta que elas são assim com eles, os meninos.
9-Para um dos meninos, você sabe quem, compre cuecas de montão para evitar aquele uso criativo do avesso. Para o outro, quando ele arrumar a malinha, dê um jeito de tirar todas as cuecas e deixá-lo na mão. Sei que os dois vão responder de forma original ao desafio.
10-Haverá muitas saudades um do outro, uns dos outros. Que bom! Só isso é muito, muito bom!
11-Se o saldo da vida comigo foi ruim, “semmigo” será pior. Não é sempre tempo de valorizar?
P.S. Não te abandonei por opção, sempre te vi, sempre te amei.
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Para saber mais
Título no Brasil: P.S. Eu Te Amo
Título Original: P.S., I Love You
País de Origem: EUA, 2007
Gênero: Comédia / Drama
Estúdio/Distrib.: Paris Filmes
Direção: Richard LaGravenese
Elenco: Hilary Swank (Holly), Gerard Butller (Gerry), Kathy Bates (Patricia)
A Partida, mais viva do que nunca
“… Que eu esteja vivo na hora da minha morte.” A frase é do pediatra e psicanalista britânico Donald Winnicott, com obra bem viva passados mais de 30 anos de sua morte. Consta que ele deixou o registro numa espécie de diário que se encaminhava para uma autobiografia, num momento de reconhecimento da proximidade da morte. Não conheço o texto e seu contexto, que podem ter querido expressar o desejo de não querer estar morto antes de morrer de verdade. Mas a frase tem serventia perfeita para resumir, a meu ver, um dos mais belos filmes dos últimos tempos: a produção japonesa Okuribito, em cartaz entre nós como “A Partida”.
A história do violoncelista desempregado que volta à cidade natal e começa a trabalhar como preparador de mortos para funerais é deslumbrante em todos os sentidos. Um filme completamente bonito — no visual, no roteiro, no conteúdo, na música… E justamente reconhecido – levou o Oscar de melhor filme estrangeiro em 2009.
Andei pensando no filme. O tema da morte, já disse por aqui, se impõe na vida de quem entra nos cinqüenta. Fica mais próxima a percepção de que você pode partir a qualquer momento, e mais próxima ainda se circunstâncias colocam a partida como parte do jogo — quando você ouve, por exemplo: “Então boa sorte, que tudo dê certo”. Se vai pegar um avião ou fazer uma cirurgia, são palavras de esfriar a espinha, soam mais “urubúticas” que acolhedoras. E mesmo assim vamos lá, dar a cara para o futuro…
Melhor é se voltar para “A Partida”, o filme, onde a morte é acolhedora porque tem vida, onde o corpo não é cadáver, mas uma pessoa em estado de passagem nas mãos delicadas de um violoncelista. Ele, aprendiz no ofício, comanda o delicado ritual na presença da família. A morte se expressa, solene. Não se cala, não se esconde. Aos familiares e amigos é dado espaço e tempo especiais para sentir a partida: com sofrimento, remorso, culpas, acertos de contas, preces, gestos, boas lembranças. Ali o morto está mais vivo do que nunca. A morte não é fim. Ao contrário, tem potencial para muito reencontro.
Quando acontecer, quero assim “passar meu ponto” no planeta. Como Winnicott, quero estar viva na hora da minha morte para instigar e renovar nas pessoas queridas o desejo de alcançarem seus próximos passos, de continuarem firmes e bem vivas no caminho. Mas aviso a esses peregrinos: prometo infernizar a vida de todos, se me deixarem trancada sozinha num velório para evitar assaltos.
A Partida (Okuribito). 2008. Japão. Direção: Yôjirô Takita. Elenco: Masahiro Motoki (Daigo Kobayashi), Tsutomu Yamazaki (Ikuei Sasaki), Ryoko Hirosue (Mika Kobayashi), Kazuko Yoshiyuki (Tsuyako Yamashita), Kimiko Yo (Yuriko Kamimura), Takashi Sasano (Shokichi Hirata). Gênero: Drama. Duração: 130 minutos.
Outras resenhas interessantes de “A Partida” nos blogs: Plano sequência / Cinema é minha praia / Crítica (non)sense da 7arte

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