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Aos cinquenta

Aos cinquenta, um pouco mais, um pouco menos, temos com certeza rugas nos olhos. Mas em alguns afortunados, há mais. Muito mais que isto. Há um brilho intenso que não se apaga. São portadores de olhos que riem. E já que dizem que os olhos são o espelho da alma, podemos imaginar que alegres almas habitam estes seres.

O que sabem eles, o que garante a eles esta porção diária de alegria?

Acredito que a magia venha do fato de não darem guarida a ressentimentos. Isto mesmo. Não requentam sentimentos já vividos, impressos em papel amarelo e já sem bordas. Não choram por dores de anos atrás. Não pranteiam amores há muito esgotados. Não enterram os mesmos mortos todos os dias.

Ao acordarem lavam o rosto e o coração. Ao invés de ressentir (sentir novamente) o já vivido, preferem sentir, atualizando-o.

São aquelas pessoas que a gente encontra na rua e que estão sempre de braços abertos. Que nos abraçam forte, mas nos deixam ir quando chega nossa hora.

Braços abertos que se abrem na direção do que vem. Braços abertos para não reter o que vai.

Não antecipam, não recusam. Não recuam. Ao invés de ressentimento, aceitação.

Aprendizado que leva uma vida. Conquista. Aceitam que a vida corre por caminhos nem sempre escolhidos por nós. Aceitam que amores acabam. Que os filhos crescem e não gravitam mais em torno de nós. Que temos que andar para fazer baixar nosso colesterol. Que algumas dores no corpo vêm para ficar. Que os cabelos brancos crescem muito mais depressa que nossos cabelos antigos. Que amizades especiais e únicas se desfazem, deixando em nós o furo da saudade. Aceitam que já andamos mais da metade do caminho.

E por aceitarem a vida como ela é e por não se ressentirem pelo fato dela não ser como queriam que ela fosse é que seus olhos estão sempre rindo, escancarando a alegria dessa alma de ainda estar na vida.

A ela, dizem sempre: Que venha!

 

 The Gifted Photographer, Melissa Goodman

Quando vi esta foto pensei que nada podia expressar melhor a qualidade encantada do olhar. Minha amiga Re, autora do post, queria uma imagem de “olhos risonhos com rugas”. Não achei, mas achei Melissa Goodman, uma fiftie, professora aposentada e The Gifted Photographer, com um imenso portfolio no Flickr. O olhar risonho, multicolorido, afinal, é dela!

Bocas barulhentas demais?

blah blah blah & blah, tirada do nalilo's photostream, no flickr
O nome da foto do álbum do nalilo, no flickr, acreditem é “blá,blá,blá”. E não parece mesmo?

Na cena final de um ótimo filme (Revolution Road, com Leonardo DiCaprio e Kate Winslet), um casal pra lá dos cinqüenta vê TV. Ele nota que ela está falando, então tira um protetor de ouvido para ouvi-la. Depois de observá-la por alguns poucos segundos, recoloca o protetor e volta o olhar para a TV. Ela segue falando…

A cena tem humor, mas é também tristinha. Lembrei-me de cenas reais de casais na meia idade em que presenciei o mesmo fenômeno: elas falando, eles meio que fingindo ouvi-las, por vezes até com carinho. Outro dia aconteceu comigo. Acordei com um sonho cheio de penduricalhos interessantes. No café da manhã, comecei a comentar animada. O retorno: “Ah, é?…hã…ah, é?”. Não dei bola, ele não é muito chegado mesmo a esse terreno dos sonhos. Na hora do jantar, no mesmo dia, estava lá eu entabulando outra conversa. O retorno: “Sei… Já acabou ou vai comer salada?… Jan, por favor, pode encerrar aqui…” E lá veio a empregada rapidinho tirar a mesa, sorriso maroto de cumplicidade na cara – ela também já entrou nos cinqüenta.

Antes que eu perceba algum protetor nos ouvidos dele, resolvi pesquisar informalmente o assunto. E achei coisas incríveis!

- Um estudo feito em 2005 na universidade britânica de Sheffield diz que o homem é incapaz de ficar escutando uma mulher falar por muito tempo. Ele fica esgotado por razões fisiológicas, desliga e não escuta mais. As mulheres teriam uma voz com sons mais complexos, em função de diferenças no tamanho e forma de suas cordas vocais e laringe, “e um esforço em atender durante muito tempo a conversa feminina poderia afetar a zona cerebral masculina”. Que me perdoe o pesquisador, mas isso não seria indício mais evidente de alguma deficiência, talvez falta de exercício, no cérebro masculino?

 
- Outra pesquisa de 2005, esta nacional, da USP, analisa a voz da mulher na menopausa,  apontando especificidades sob a influência de hormônios na laringe. Cita estudos clássicos que já constataram “rouquidão, compressão de registro, menor flexibilidade das pregas vocais, estabilidade vocal reduzida, perda de certas freqüências, rebaixamento da vibração intraglótica …”. O estudo não faz afirmações sobre o que me interessava mais: a voz da mulher dos cinqüentas fica pior ou melhor? Bom, cara fifty, faça uso de sua já comprovada maior habilidade verbal e aplique a informação da forma que lhe for mais conveniente.

 

- Notícia divulgada pela BBC : Na Universidade McMaster, do Canadá, foram realizadas gravações de falas de mulheres em períodos diferentes do mês. Ouvidas por homens e mulheres, as vozes avaliadas como mais atraentes eram de mulheres no pico do período fértil. Duas lições a tirar a respeito: as vozes masculinas nem foram consideradas atraentes; se você, fifty, ainda tem esses picos férteis, não desperdice conversando com o companheiro…

 

Anotem aí: aos 50, silêncio pode ser mais do que nunca a alma do negócio!

Delícias da inutilidade

“Felicidade é a certeza de que a vida não está passando inutilmente”. Não sei de quem é a frase. Chegou assim, entre aspas, pelo e-mail. E já não houve paciência para ver a que ela servia de introdução na mensagem enviada. Parece boa a frase, não é? Solene e simples ao mesmo tempo, com um certo ar poético. Assim, soltinha, ela manda recado seguro e firme dos úteis aos inúteis — pelo visto, “novas” categorias humanas na maré existencialista que invade de lorotas o cotidiano dos cidadãos.  

Em todo caso, inútil que estava enquanto a vida passava, fiquei pensando sobre as delícias da inutilidade, aqueles raros, raríssimos momentos em que alguém consegue não servir para absolutamente nada: sua sugestão não foi aceita no trabalho, e você não precisa correr atrás de providências imediatas; seus filhos marmanjos não têm de ser levados às pressas a algum lugar; o maridão não quer ajuda de qualquer natureza, sente-se plenamente útil; a empregada ponta firme nada pergunta; ninguém da família lhe pediu socorro para pagar uma conta, levar ao médico, comprar uma coisinha que faltou, trocar uma opinião; aos amigos, cuidando que estão de dar utilidade à própria vida, não sobrou tempo para partilhar algo com você; o cachorro, alimentado e estirado num canto, não demonstra carência alguma; o carteiro não pede sua assinatura para entregar a encomenda; os projetos de entidades sociais não precisam da sua colaboração; o sinal da TV está em ordem, a internet não caiu, o computador não deu pau, o telefone toca e não é pra você. O nada lhe solicita. O mundo passa bem sem você. 

Oh, o que fazer? Oh…, bate aquela angústia de se ver largada às traças, totalmente inútil. Bate com certeza, oh…, a incerteza sobre ser ou não ser feliz. Você se sente uma minhoca indefinida. Por onde deslizar? Vai caminhar na rua, vai se estirar no sofá com o livro que está ótimo, vai tornar o ócio produtivo buscando novas idéias, ou apenas beliscar na geladeira, curtir um filme, tomar um belo banho, jogar conversa fora, saborear uma taça de vinho e escutar os silêncios? São tantas as alternativas, as possibilidades, a diversidade de opções em meio, oh…, ao problema crucial, que permanece: a vida está passando, rara e deliciosamente inútil!

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