Fifties em histórias (muito) breves
Por Adília Belotti
Devia fazer uns 5 minutos que ela girava na porta, entrando e saindo, sem conseguir decidir-se: ficar ou ir? O que é que tinha vindo fazer ali afinal? Era um batom que vinha comprar? Ou um perfume? Tentou lembrar: precisava mesmo de um batom? De perfumes ela sempre precisava, costumava dizer que não tinha sofisticações, apenas o gosto (que estranha misturança de sentidos!) pelos bons perfumes…
OK, a situação começava a ficar horrível! Uma parte do cérebro colava na sensação de que alguém com certeza viria reclamar ‘isto não é um lugar para brincadeiras’, ‘você está atrapalhando o bom andamento da porta giratória’, ‘é maluca, hein?” Ela odiava a possibilidade de ser abordada em geral, de ser pega fazendo alguma coisa errada em particular. Vai saber por que: nada era pior do que o olhar duro ‘dos outros’, a avó sempre dizia. Tinha uma história: o avô fazendeiro falira. A avó, de repente, assumira o serviço pesado da casa. As mãos de menina custaram a se acostumar, sangravam às vezes. Mas todos os dias, quando chegava perto da hora do trem passar, ela corria para o alpendre e sentava-se na cadeira de balanço, um livro no colo. A própria imagem da mais elegante compostura. Sobretudo não perder jamais a tal compostura. Ainda mais ali, numa terra que nem era a sua. Ridícula a última frase, aquilo era Londres, aquela era a porta giratória da Harrods e ela era ou costumava ser uma mulher perfeitamente adequada para ambientes assim. A não ser pelo fato de que hoje não conseguia parar de girar.
Com certeza iam pensar que ela tinha algum problema, ia acabar numa camisa de força, se não conseguisse decidir-se: entrar ou sair? Pensou no espanto do marido: ‘sim, sim, sua mulher foi trazida hoje à tarde, não, não, é do tipo manso, biruta total, mas mansa, ah, sim, obrigado, vou já…mansa o senhor disse?’
Vagara pelas ruas geladas desde de manhã. Nada de galerias hoje, nada de museus, apenas andar, sentir o vento congelar a ponta do nariz. Sempre gostara das margens dos rios, ‘go with the flow’, dizia a placa anunciando os passeios de barco pelo Tâmisa. Fluir, só na primavera e olhe lá. O filho sempre reclamava do tempo. Onde ela tinha lido isso, que falar do tempo era coisa tão inglesa?…sim, na palestra da escritora africana, que dizia: ‘ninguém fala do tempo na África porque não há necessidade’. No Brasil também não se fala do tempo, só das tragédias que o tempo traz…
Era um batom ou um perfume que tinha vindo comprar? Podia aproveitar, ver se achava uma sapatilha para levar para a filha. E girou na porta, mais uma vez. Caramba, começava a se preocupar, e se fosse um sintoma exótico de alguma doença neurológica? ‘Doutor, não consigo parar de girar!’
Viajava de férias com o marido para visitar o filho e a nora, férias modo de dizer que ela vivia de férias, mas, sim, sobrava tempo, muito tempo… por que não conseguia parar de entrar e sair da bendita porta giratória da Harrods?
Agora tinha certeza, já via o reflexo do terno preto do segurança no vidro. Ai, Meu Deus, ele vai me prender…’I beg your pardom, madam, posso ajudá-la?’ e sem esperar uma resposta, pegou gentilmente no seu braço e resgatou-a enfim da vertigem do carrossel.
Devidamente depositada na calçada que o gelo cinzento fazia brilhar, uma parte dela se indignava. O moço alto olhou para ela ou através dela: ‘não se preocupe, senhora, muitas pessoas de idade tem medo dessas portas’, e ela viu atônita seu reflexo nas pupilas escuras: a cara simpática de turista, cabelos brancos, óculos modernos, rechonchuda, sim, ombros tímidos, sorriso afável. ‘Posso ajudá-la a chamar um taxi?’ Ela sentiu ganas de chutá-lo, ‘idosa????! medo da porta????????’, justo naquele momento travesso em que flertara com a loucura? Ela, uma mulher sempre tão civilizada?
Chutou a neve com a ponta da bota e virou-se. Não responder, tinha sido uma vitória afinal!
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A foto da Harrods é de Drewleavy, sob licença de Creative Commons do Flickr
Aos encontros, vamos?
Por Adília Belotti e Lélia A.
‘Os homens, a gente sabe que eles se encontram entre um copo e outro de cerveja, mas as mulheres, onde se encontram as mulheres?’, perguntava a Re hoje de manhã.
Onde, de fato. Já tive encontros memoráveis com amigas queridas, encontros de chorar e se comover entre a gôndola dos laticínios e a dos ‘matinais’ no supermercado perto de casa. Sem falar nos encontros para jantar, celebrar aniversários, fazer cookies de Natal, caminhar…a gente se encontra nos fazeres da vida.
Tradicionalmente tem sido assim. Em tempos de muito mais controle sobre os corpos e as almas femininas, as mulheres eram autorizadas a se encontrar para bordar, tecer, costurar, sim, mas sobretudo para falar. Trocar idéias, consolar, aconselhar, acolher, desabafar, falar mal, ajudar a nascer e a morrer. Esse era o espírito dos encontros.
Descubro no dicionário etimológico (tem coisa mais divertida do que dicionários etimológicos?) que ‘gossip’, a palavra inglesa para fofoca, utilizada sobretudo em relação às mulheres, vinha de ‘god-relative’, alguma coisa como ‘parente de Deus’. A expressão veio do saxão, claro, e era usada para indicar a mulher que anunciava os nascimentos. A fala que anuncia acabou virando a fala que acusa, sabe-se lá como, que as línguas às vezes são assim, ferinas…
Hoje nos encontramos na web!
Uma pesquisa do BlogHer, a maior comunidade de blogs de mulheres, junto com o IVillage e a Compass Partners, revelou que as mulheres americanas que utilizam a web já somam mais de 79 milhões. Mulheres de 17 a 77 anos! Dessas, mais da metade usam os espaços de interação da internet, como blogs, comunidades, redes sociais. Ou seja, algo em trono de 40 milhões de mulheres. 90% leem blogs e 51% escrevem neles.
Por quê? Das que escrevem, 76% buscam diversão, 73% querem expressar ideias e pontos de vista, 59% querem se conectar com os outros, 54% usam o blog como diário.
É, as mulheres estão na web. Postando, comentando, lendo, compartilhando favoritos, adicionando amigos…
Por isso, esse post torna-se um convite, uma convocação, uma provocação!
Por que não aproveitar um espaço para encontrar outras mulheres, iguais, diferentes, mas vivendo este mesmo tempo estranho de mudanças, checklist da bagagem da alma em direção ao ‘daqui para frente’?
A sua vida, a nossa vida, não seria tão diferente se nos soubéssemos tão irmãs?
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Para ler o estudo na íntegra (pdf em inglês), clique aqui
A foto lindíssima lá em cima de de Lucas Jan. Chama-se ‘Encontro no mercado de manhã’ e foi tirada em Phan Thiet, no Vietnã. No mercado de peixes de Phan Thiet são as mulheres que cuidam das barracas enquanto os homens estão pescando no mar. Os chapéus ou non la, protegem do sol escaldante que ainda está nascendo. E é nessa hora, antes do amanhecer, que elas se encontram…
Delícias da inutilidade
“Felicidade é a certeza de que a vida não está passando inutilmente”. Não sei de quem é a frase. Chegou assim, entre aspas, pelo e-mail. E já não houve paciência para ver a que ela servia de introdução na mensagem enviada. Parece boa a frase, não é? Solene e simples ao mesmo tempo, com um certo ar poético. Assim, soltinha, ela manda recado seguro e firme dos úteis aos inúteis — pelo visto, “novas” categorias humanas na maré existencialista que invade de lorotas o cotidiano dos cidadãos.
Em todo caso, inútil que estava enquanto a vida passava, fiquei pensando sobre as delícias da inutilidade, aqueles raros, raríssimos momentos em que alguém consegue não servir para absolutamente nada: sua sugestão não foi aceita no trabalho, e você não precisa correr atrás de providências imediatas; seus filhos marmanjos não têm de ser levados às pressas a algum lugar; o maridão não quer ajuda de qualquer natureza, sente-se plenamente útil; a empregada ponta firme nada pergunta; ninguém da família lhe pediu socorro para pagar uma conta, levar ao médico, comprar uma coisinha que faltou, trocar uma opinião; aos amigos, cuidando que estão de dar utilidade à própria vida, não sobrou tempo para partilhar algo com você; o cachorro, alimentado e estirado num canto, não demonstra carência alguma; o carteiro não pede sua assinatura para entregar a encomenda; os projetos de entidades sociais não precisam da sua colaboração; o sinal da TV está em ordem, a internet não caiu, o computador não deu pau, o telefone toca e não é pra você. O nada lhe solicita. O mundo passa bem sem você.
Oh, o que fazer? Oh…, bate aquela angústia de se ver largada às traças, totalmente inútil. Bate com certeza, oh…, a incerteza sobre ser ou não ser feliz. Você se sente uma minhoca indefinida. Por onde deslizar? Vai caminhar na rua, vai se estirar no sofá com o livro que está ótimo, vai tornar o ócio produtivo buscando novas idéias, ou apenas beliscar na geladeira, curtir um filme, tomar um belo banho, jogar conversa fora, saborear uma taça de vinho e escutar os silêncios? São tantas as alternativas, as possibilidades, a diversidade de opções em meio, oh…, ao problema crucial, que permanece: a vida está passando, rara e deliciosamente inútil!
Mulheres de 50
Estávamos cansadas de não ter o que ler na web! Nada parecia ter muito a ver conosco: pílula e infertilidade? Medo da maternidade? Qual é o meu estilo? Como escolher a babá? O eixo das nossas perguntas vem se deslocando há alguns anos: nossos filhos ou já saíram ou estão saindo de casa. Não temos mais dúvidas vocacionais e já conciliamos, do jeito que deu, família e trabalho. E agora, Maria? Agora, meu bem, é daqui prá frente! Pode vir conosco se quiser…
Imagem do dia: na lama, ou as coisas que você só vê quando olha bem de perto!
Mishelle Lane é fotógrafa, apaixonada por aquelas coisas miúdas do cotidiano que tantas e tantas vezes a gente nem vê. Nesta foto, ela estava agachada no chão, com a lente focada na terra, tentando ver as coisas de um jeito diferente. Seu blog, Secret Agent Mama – não é um nome sensacional? — ganhou vários prêmios de melhor blog de fotos da web, incluindo o Ninth Weblog Award, em 2009. Pode se deliciar!



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