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As noivas de Cordeiro

Noivas de Cordeiro

Por_ Lélia A.

Peguei esta história emprestada de uma amiga jornalista, a repórter especial Fernanda Cirenza, que fez bela reportagem em Marie Claire. Quem perdeu o original saboroso pode ter aqui um gostinho resumido da curiosa saga que tem como centro um excêntrico casarão, instalado no fim do município de Belo Vale, em Minas Gerais. Cercado de poucas dezenas de casas, dali se origina Noiva de Cordeiro, uma comunidade rural formada por cerca de 300 mulheres, que brotou de falação, preconceito e difamação. No lugarejo, são elas que pegam no cabo da enxada para arar a terra, ordenham as vacas, alimentam os porcos, tecem tapetes, costuram colchas, desenham lingeries e ainda cuidam das crianças.

Elas se juntaram para não morrer de fome e solidão. Seus homens partiram para Belo Horizonte, distante 100 km, em busca de trabalho e renda. Todo final de semana, eles voltam para rever as famílias. Entre chegadas e despedidas, o casarão, que já era mal falado, acumulou a reputação de reduto de prostitutas. As “noivas” de Cordeiro dizem já ter sido desprezadas até em velório. Pura inveja, outros comentam, porque elas são bonitas e jovens. A maioria tem entre 20 e 35 anos.

Os comentários maldosos seriam herança de um passado conturbado, marcado por um adultério cometido por amor e, mais tarde, pelo rompimento definitivo com os dogmas de doutrinas religiosas. Na comunidade, a maior fé está no crescimento do povoado para, um dia, os homens não precisarem mais sair do casarão.

Sexta-feira, Noiva de Cordeiro é só euforia. A qualquer momento os homens chegam. Num quarto do casarão, as mulheres disputam secador, cremes, maquiagens. Umas se ressentem da pouca convivência com os maridos. Acham que falta aquela coisa do dia-a-dia que outras chamam de problema: homem dentro de casa.

Elas dividem tudo, se ajudam. É uma vantagem da vida em Noiva de Cordeiro. Se um não tem, alguém empresta, dá, faz alguma coisa. Mas tem desvantagens. Dormir no mesmo quarto que o filho. Esperar a criança dormir para namorar. Os 14 quartos do casarão acomodam 46 pessoas. Os dois únicos banheiros, que ficam lado a lado, são coletivos.

Não fosse uma TV adquirida coletivamente e um orelhão comunitário, Noiva do Cordeiro estaria quase totalmente isolada do mundo. No lugarejo, não tem como comprar jornais ou revistas, não existe internet e os celulares não pegam. São outras as emoções que marcam o cotidiano das mulheres: acolhimento, solidariedade, orgulho e até lágrimas compartilhadas na hora colheita.

Delina Fernandes Pereira, 65 anos, viúva e mãe de 15 filhos, é a matriarca da comunidade, rege o comportamento dos moradores com sua filosofia: todos são por um, e um é por todos. Dona do casarão, é a herdeira da história do povoado. Conta que o lugar começou a ser caluniado por causa de um romance. Sua avó largou o marido para viver com outro.

No final do século 19, o amor foi duramente reprovado. A vizinhança pressionou a igreja, que excomungou o casal e toda a família que estava por vir por quatro gerações. Mesmo diante da condenação, o casal construiu o casarão, onde criou doze filhos. Um deles, Delina, se casou décadas depois com um pastor evangélico que pregava o amor e a união entre as pessoas. Movida por esse ensinamento, ela continuou, depois da morte do marido, a reunir as pessoas em torno do casarão, mas sem dogmas e sacramentos.

A sociedade de Noiva do Cordeiro vem crescendo. Além da lavoura, as mulheres montaram uma fábrica de lingeries, colchas e tapetes, vendidos em uma loja alugada em Belo Horizonte. Quando chega o momento de colher as plantações, elas param as máquinas e vão para a roça. Querem aumentar a lavoura para vender os alimentos excedentes e fazer da pequena fábrica de tecidos uma grande oficina rentável. O casarão vai continuar lá e, se depender do sonho das noivas do Cordeiro, um dia ele vai virar um hotel cheio de histórias.

Para saber mais sobre a comunidade: www.noivadocordeiro.com.br

Para visitar o local:

Rua Maria Senhorinha de Lima, n° 5
Caixa Postal 18, Noiva do Cordeiro
Belo Vale – MG
CEP: 35473-000.
Telefone: +55 31 3734-1550
E-mail: atendimento@noivadocordeiro.com.br

Tolices da sedução

Woman with Gray Eyes and Red Lipstick_Pink Sherbet

A que tipo de homem as mulheres entregam seu coração: ao tolo ou ao homem de espírito? Em uma crítica de costumes de 1861, nosso Machado de Assis diz que elas preferem os homens tolos. Seu texto – “A queda que as mulheres têm para os tolos” — tem como base um panfleto de 1859, de autor francês. A amiga que me passou a dica fez o achado no site da Brasiliana USP, um projeto que permite acesso a coleção de livros e documentos do Brasil. Aguço a curiosidade das fifties com alguns trechos, aqui em português atual. Na escrita original, que você pode acessar no site da Brasiliana, tem muito mais sabor.

 

“Passa em julgado que as mulheres lêem de cadeira em matéria de fazendas, pérolas e rendas… entraram os filósofos a indagar se elas mantinham o mesmo cuidado na escolha de um amante, ou de um marido.”

 

“… a verdade se descobriu: … escolhem com pleno conhecimento… depois de verificar nele a preciosa qualidade que procuram … a toleima.”

 

“Desde a mais remota antiguidade, sempre as mulheres tiveram a sua queda para os tolos… Alcibiades, Sócrates e Molière e Platão foram sacrificados por elas …. Turenne, La Rochefoucauld, Racine foram traídos por suas amantes, que se entregaram a basbaques notórios. … as nossas contemporâneas continuam a idolatrar os descendentes dos ídolos das suas avós.”
 

“… Mulher alguma resistiu nunca a um tolo. Nenhum homem de espírito teve ainda impunemente um parvo como rival.”

 

“ … o homem de espírito… imagina que para agradá-las é preciso ter qualidades acima do vulgar. … Respeitoso até a timidez, não ousa exprimir o seu amor em palavras; exala-o por meio de meigos cuidados… não a fatiga com a sua presença.”

 

“O tolo, porém, não tem desses escrúpulos… diz-lhe dez vezes ao ouvido: Como é bela!, porquanto revela-lhe o instinto que pela adulação é que se alcançam as mulheres…”

 

“… Elas querem amor, qualquer que seja a sua natureza, e o que o tolo lhes oferece é-lhes bastante, por mais insípido que seja…”

 

“… o homem de espírito quando chega a fazer-se amar não goza de uma felicidade completa. … Pergunta por que e como é amado… em compensação desses tormentos, há no seu amor tanto encanto e delicias!… sabe descobrir o encanto das criancices frívolas, dos invisíveis atrativos, dos nadas adoráveis!”

 

O tolo é um amante sempre contente e tranquilo. Tem tão robusta confiança nos seus predicados, que antes de ter provas, já mostra a certeza de ser amado… faz uma grande honra à mulher a quem dedica os seus eflúvios.”

 

“O homem de espírito é o menos hábil para escrever a uma mulher… Quer ser reservado e parece frio… Comete o crime de não ser comum ou vulgar… São cartas decentes, quando as pedem estúpidas.”

 

O tolo é fortíssimo em correspondência amorosa… Tem uma coleção de cartas prontas para todos os grãos de paixão… nelas em linguagem brusca o ardor de sua chama; a cada palavra repete: meu anjo, eu vos adoro…”

 

“Compreende-se, por este curto esboço, como e quanto diferem os tolos e os homens de espírito nos seus meios de sedução. A conclusão final é que os tolos triunfam, e os homens de espírito falham, resultado importante e deplorável, nesta matéria sobretudo.”

 

“… as mulheres não são senhoras de si próprias; que nelas tudo é instinto ou temperamento, e que portanto elas não podem ser culpadas de suas preferências. …nenhuma é cúmplice do mal que causa; … Elas se apresentam belas, apetitosas e cegas: não vos basta isto? Querê-las com juízo, penetrantes e sensíveis é não conhecê-las. Procurai as mulheres nas mulheres…”

Para ler tudo, visite o site da Brasiliana  A foto, Mulher de Olhos Cinzentos e Batom Vermelho, é do portfolio de Peter Sherbet, no Flickr. Todas as fotos dele você conhece clicando aqui

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