Prego novo, prego velho

Por_ Lélia Amaral
Aqui também é tempo de liquidação!
FIFTY % MENOS!!!
Diz o ditado num livro: Un clou chasse l’autre — um prego expulsa o outro.
Prego novo com cara de velho, prego velho com cara de novo…
Não tem opinião, pense num palpite…
Até a primavera chegar!
O dia em que a terra tremeu
Por Regina Amaral
A terra tremeu no Haiti. A terra tremeu no Chile. Ontem a terra tremeu na Turquia. Ondas gigantes salgaram e destruíram cidades. Chuvas torrenciais transformaram o dia a dia, feito da rotina de cada um, em desventura para muitos e encerraram o calendário para outros tantos.
As manchetes de jornal nos fizerem engolir, junto com nosso café da manhã, fotos onde barcos ocupavam ruas enquanto carros naufragavam. E nós, sobreviventes, tentamos administrar nosso atordoamento e o pavor que anda assombrando nossas almas. Afinal, a terra tremeu sob os pés de todos nós.
Nos reconhecemos, mais uma vez, impotentes diante de forças muito maiores que nós. Descobrimos, como dizia o filosofo, que não estamos tranquilamente assentados sobre terra firme, mas sentados sobre o dorso de um tigre, e em relação ao qual não temos nenhum controle.
Agora ninguém pode negar: viver é perigoso!
Não é fácil levarmos nossas vidas com a consciência de nossa finitude. Não o tempo todo. Sou psicanalista e minha profissão me permite ver as marcas destes últimos tempos na alma de cada um dos meus pacientes. E na minha, quando me percebo desassossegada a cada trovão, a cada novo anúncio de que a terra tremeu.
Já há algum tempo que um dos sintomas mais comuns em nossa clínica é a chamada “síndrome do pânico”. Seu aparecimento se deve ao surgimento da vivência de desamparo que acomete a cada um de nós, humanos, com maior ou menor intensidade, quando há ameaça real ou imaginaria de vermos romper o sentimento de continuidade da vida interna ou externa.
O aumento do aparecimento deste sintoma se deve ao fato de que o homem contemporâneo está, a cada dia, mais e mais exposto a experiências de ruptura. Ruptura com tradições, rupturas com convicções que o embalavam e lhe davam sensação de segurança, rupturas de laços afetivos que nos dia de hoje tem duração efêmera. Seja de que ordem for a ruptura ela nos lança numa vivência de caos, que nos aterroriza e nos desancora.
Nos dias de hoje a civilização vem sofrendo grandes abalos e evidenciando grandes fissuras, que servem de porta de entrada à barbárie. E aí, novamente o caos…Sabemos da impossibilidade de a vida prosseguir caso o niilismo se instale em nossa carne. E diante deste cenário onde o conhecido se desmancha, onde a terra escapa de nossos pés, é fácil nos vermos presa deste sentimento e não mais conseguirmos investir na vida, em projetos de futuro, em sonhos, no amanhã.
Diante disto, o que fazer? Comprometermo-nos ainda mais com a vida.
Mas como fazê-lo ao descobrirmos que a Natureza não é justa. Ou injusta. Justiça faz parte do mundo dos homens. É em virtude disto que vemos Zida Arns morrer no terremoto do Haiti, juntamente com aqueles a quem vinha dedicando sua vida. Ser uma mulher generosa não lhe garantiu a salvação.
É em episódios assim que compreendemos quão ilusória é a verdade apregoada mundo afora de que seremos “salvos” se formos bons. “Shit happens” a qualquer um, sem nenhuma discriminação.
Outra vez formulamos a pergunta: diante disto, o que fazer?
Comprometermo-nos ainda mais com a vida.
Estarmos comprometidas com a vida é fazer de cada segundo tempo suficiente para dele nos ocuparmos e nele investirmos. Não valorizamos o tempo porque tempo é dinheiro, mas sim porque amamos a vida e não queremos desperdiçá-la.
Estarmos comprometidas com a vida é executarmos com atenção qualquer gesto nosso. É através deles que expressamos nossa existência. É através deles que nossa vida acontece.
É nunca perdermos a alegria de soprarmos “bolas de sabão” mundo a fora, mesmo sabendo que elas estourarão no minuto seguinte. Afinal elas são belas e isto basta. Não precisam ser eternas para valerem a pena.
Estarmos comprometidas com a vida é levarmos a serio nossos desejos e correr atrás das condições necessárias para realizá-los, sabendo que, mesmo que isto não ocorra, valeu sonhá-los porque eles tambem fazem a vida valer a pena.
Estarmos comprometidas com a vida é aproveitarmos os grandes tremores de terra para reavaliarmos nossos rumos e traçá-los novamente, nos afastando daqueles caminhos que cumprimos por obrigação, sejam elas da ordem que for, e nos encaminharmos na direção daqueles onde a vida corre com mais força, trazendo brilho aos nossos olhos.
Estarmos comprometidas com a vida é sabermos que não importa o tempo de duração de nossos atos. É levá-los a sério enquanto deles nos ocupamos.
Estarmos comprometidas com a vida é pautarmos nossas ações buscando tornar nossa Terra um lugar melhor para todos, não porque este ato nos levaria ao Paraíso, um dia, mas porque este ato torna nossa vida aqui e agora bem mais fácil e rica.
É ver nossas ações brotarem de um código de ética pessoal que não leva em conta obrigações morais, mas sim que busca proporcionar mais espaço para o desenho da vida.
Estarmos comprometidas com a vida é suportarmos uma boa porção de caos em nosso dia a dia, que nos arranque da rotina segura e protetora nos oferecendo assim a grande chance de recriá-la inúmeras vezes.De nada adianta colocarmos a “velha senhora de preto” na frente de nosso caminho.Esta tentativa de mantê-la sob os nossos olhos só a antecipa e nos impede de estarmos plenamente vivos.
Viver é perigoso e o que nos resta é correr riscos. Então que esteja longe o dia em que um deles se revelará fatal!
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A foto é do porfólio de Pablo Trincado, sob licença de Creative Commons no Flickr
O plano B de Irina Palm
Maggie, uma viúva nos fifties, precisa encontrar uma saída para ajudar o neto a se recuperar de uma doença. Esse é o resumo do resumo de Irina Palm, filme do diretor alemão Sam Garsbarski (Inglaterra, 2007). Mais não conto para não estragar o prazer da descoberta de quem ainda não viu ou nada ouviu sobre a trama. A história oferece conteúdo para comentários variados, mas um aspecto cai muito bem a cinquentões: a busca de alternativas na profissão ou na vida – aquele conhecido plano B.
Com planos A já bem vividos, não há fifty que já não tenha sonhado “n” vezes com planos B. Eles ficam ali na manga, em stand by, e um dia podem mesmo nos fazer “largar o osso” para abraçar outras possibilidades.
Leio que um estudo, da H2R Pesquisas Avançadas, de São Paulo, ouviu 140 profissionais de todo o Brasil sobre o tema, homens e mulheres ocupando cargos de gerentes para cima, e 60% declararam pensar em rotas alternativas para suas carreiras.
Mas a carreira não precisa ser o foco da procura por rotas alternativas, muito menos crises vocacionais, especialmente aos 50. Nessa fase da vida, mesmo que não se tenha descoberto o gosto para determinada atuação profissional, já se revelaram ao menos incompatibilidades para muitas outras.
E aos 50, a gente percebe, ser inteligente, talentoso, descolado, esperto, bem apessoado e bem relacionado pode até garantir sucesso profissional, mas esse será outro plano A destinado a deixar na gaveta o plano B, aquele que pode ser a chave para o sucesso que interessa, o pessoal.
Tenha você exercido bem ou mal seu plano A como poeta, escritor, médico, músico, dentista, bailarina, advogado, engenheiro, cozinheiro, psicólogo, economista ou cientista, o que “pega” agora na fase fifties da vida e dá impulso aos planos B é a busca de prazer, de algo que “toca”, como descobriu literalmente a Irina Palm do filme. É a idéia ou o projeto que mobiliza por estar em sintonia com o desejo, com o coração, com a sua vitalidade, e por isso interessa e faz sentido.
Um plano B, às vezes, pode ser apenas a descoberta de um viés mais criativo e menos automático de continuar realizando o plano A. Porque rotinas e mesmices continuadas minam a energia vital e tiram o sentido de qualquer projeto, na vida pessoal ou profissional.
Eu sinto que o ponto chave de um verdadeiro plano B é demitir o patrão. Real ou imaginário, é aquele ou aquilo que tem o poder de nos manter em uma rota, enquanto vamos arquivando, sem dar muita atenção, desenhos e desenhos de planos B. Demitir o patrão seria se colocar num estado de prontidão para a vida, aberto e atento ao que vier, às sementes de possibilidades. Claro, num primeiro momento pode dar até um certo pânico viver sem essa chefia, mas é a chance de descobrir outra em novos termos ou de se ver como chefe-revelação do seu próprio nariz, seguindo seus poderes, ritmos e intuições.
IIrina Palm perambulou pelas ruas dos desesperados, suportou humilhações ao bater nas portas das seleções, e onde menos esperava (mas secretamente onde mais queria) encontrou a chefia capaz de revelar suas habilidades e seu capital pessoal para atuar com novo contrato na vida. Tudo por um pequeno buraco na parede…
Tremores, apetites e amores
Ainda não deu certo, mas uma amiga está para me levar à Casa dos Cariris, na capital paulista, onde diz que é feita a verdadeira comida mexicana. Não se trata de restaurante comum, mas a própria casa dos fifties Lourdes Hernández e seu marido Felipe, que recebem em dias previamente agendados. Lourdes envia e-mails especiais avisando sobre as datas. Especiais porque o cardápio oferecido vem com o tempero de histórias da anfitriã. Enquanto não degusto seus pratos, saboreio seus ótimos relatos. Num dos últimos, ela conta sobre tremores (temblores), a vida e seus amores.
Os tremores são terremotos que mandam para o espaço a vida segura e cheia de regras. Como diz Lourdes, que viveu a experiência no México em 1985, “…mudam o rosto da cidade e o espírito de seus cidadãos. Para mim, desvelaram a urgência da fome e da vida irreprimível”.
Poucas horas antes dos tremores, ela disse adeus a um namorado que já não “balançava” sua vida. Um apetite surgiu. “Não chorei, só comi, comi e comi.” Após os estragos feitos pelos abalos, deu-se conta também da fome dos sobreviventes, do apetite que os faz descobrir que ainda estão com vida, apesar do coração quebrado e vazio. Ao mesmo tempo, em outro canto da cidade, Felipe também desfazia um amor. Mais tarde acabaram se encontrando: “… mortos de fome. Vivos”.
É uma bela história. Se não fosse cozinheira das boas, Lourdes poderia estar na vida como escritora de romances ou roteirista de cinema. Aliás são eles, também os livros e filmes, que nos lembram do apetite pela vida nos momentos de coração quebrado. Ou perna quebrada, como aconteceu comigo.
No limbo que o acidente me colocou por longo período, fui mantendo a “fome” com A Louca da Casa, de Rosa Montero, conheci Mia Couto em Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, passei pelas fragilidades de espírito do beat generation John Fante com seu Espere a primavera, Bandini, viajei pela Beleza e Tristeza de Yasunari Kawabata, acompanhei o tenso jantar de gala num castelo húngaro nas Brasas de Sándor Márai, maravilhei-me com o jovem Jonathan, autor de Extremamente alto, incrivelmente perto.
Quanto aos filmes, tomo a liberdade de reproduzir o e-mail que enviei a uma amiga envolvida em tristezas: Ok, então fique quietinha, com um chocolate quente, uma mantinha no sofá e pegue um filme para secar lágrimas: não é comédia, ao contrário, daqueles de soluçar mesmo.Tem um que não resisto por causa de uma cena. Chama-se Regras da Vida, com aquele Michael Caine que eu adoro. Ele cuida de um orfanato e, na hora que põe as crianças para dormir, diz, solene, algo como: Goodnight, you princes of Maine. You kings of New England. E aquelas criaturinhas “abandonadas” viram reis e rainhas de respeito. É lindo de chorar… E pode fazer você virar “rainha” … E despertar o apetite.
Por fim fica aqui mais uma dica, esta dada por cientistas que também entendem de terremotos e sabem que eles são provocados pela Terra e não pela fúria de deuses gregos como Poseidon, que com seu tridente espalhava tempestades e turbulências.
Os cientistas da Terra conhecem como o planeta funcionou no passado e como poderá funcionar no futuro. Por isso afirmam, num informe recente, que convém a todos nós, que vivemos sobre placas que flutuam e que causam terremotos quando se mexem demais, ter alguns conhecimentos básicos para tomarmos decisões bem informadas — sobre qualquer coisa, como ir ou não à Casa dos Cariris encher a vida de apetites mexicanos…
E se pisamos na Lua há 40 anos, não é mesmo o caso de ficar um pouco por dentro do que rola na Terra?
Para saber mais:
Comidinhas na Casa dos Cariris
A Louca da Casa. Rosa Montero, Ediouro
Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra. Mia Couto, Companhia das Letras
Espere a primavera, Bandini. John Fante, José Olympio
Beleza e Tristeza. Yasunari Kawabata, Globo
As Brasas. Sándor Márai, Cia das Letras
Extremamente alto & incrivelmente perto. Jonathan Safran Foer, Rocco
Regras da Vida (The Cider House Rules), EUA, 1999, direção de Lasse Hallstrom, com Michael Caine, Tobey Maguire, Charlize Theron, entre outros.
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A foto é de um árabe, Hamed Saber, Happy Eid ul-Adha , e aparentemente, não poderia ser mais distante do post da Lélia e dos tremores da Cocinera Atrevida, Lourdes. Mas estava eu à caça da foto para ilustrar o post quando dei com esta e era perfeita porque fala desta “fome”…e, querem saber, Eid ul-ulAdha é uma celebração islâmica meio que aparentada com nosso Natal. Acontece depois do longo mês de jejum, o Ramadã. E é uma celebração da vida, com direito a trocas de presentes, muita comida e muitos doces distribuídos para as crianças. Ou seja, no final, aqui ou ali, tem tudo a ver…
Põe, tira, põe…
Fifties costumam ter com mais freqüência episódios de nostagia. Em geral positivos, eles produzem satisfação ao recuperar fragmentos do passado que ajudaram a constituir a pessoa do presente. E não é preciso de um momento especial para entrar nesse clima. Por vezes basta uma notícia, como a que encontrei num caderno recente do New York Times: “Eliminar sobrancelhas virou nova tendência”.
Uma sem-sobrancelhas entrevistada no artigo dizia: “… é uma coisa unificadora… assexual… nos faz parecer menos humanos, mais cerebrais… é um exercício de modernidade.”
Nos anos 60, minha irmã adolescente pintava as sobrancelhas com carvão para parecer mais madura e entrar no filme proibido para menores de 18. Um amigo, então criança, raspava as sobrancelhas dele e dos irmãos menores para fazer uma surpresa para a mãe que chegava do trabalho. Hoje, na sociedade do espetáculo em que vivemos, em vez da megabronca recebida poderia ganhar aplausos pela tresloucada vanguardice.
De minha parte, sinto certo conforto. Desta vez estou dentro do último modismo. Minhas sobrancelhas são praticamente invisíveis desde que me conheço por gente. E como adoro as “taturanas” das outras, vivo tentando dar um sombreado com lápis marrom. Dou, olho e tiro. Não reconheço a imagem no espelho, que passa a pedir um bigode e uma cirurgia para mudança de sexo. Agora não vou mais insistir. Em questão de exercício de modernidade, estou na linha de frente!
Põe, tira, põe, e essa dança que entrelaça passado e presente e dispara nostalgias também está num ótimo livro que começo a ler: “O tempo e o cão – a atualidade das depressões”, da psicanalista Maria Rita Kehl, recém-lançado pela Boitempo Editorial. Novamente sinto um certo conforto, embora a história nada tenha de confortável. Mas gostei é de encontrar reconhecimento de um jeito de estar no mundo, um jeito “pé no breque” como define uma amiga.
Rita Kehl fala sobre os “deprimidos” dos dias atuais e seus lamentos, porque vistos como sombras negativas “em uma sociedade que parece essencialmente antidepressiva, tanto no que se refere à promoção de estilos de vida e ideais ligados ao prazer, à alegria e ao cultivo da saúde quanto à oferta de novos medicamentos para o combate das depressões”.
Os “pé no breque”, apesar da crescente e diversificada oferta de “pílulas de bem-estar”, parecem se ressentir cada vez mais de uma falta de liga com o tempo em que vivem. Há um tremendo abismo entre eles e o contexto social contemporâneo que convida a estar em “um grau ótimo de eficiência existencial”, nas palavras de Rita Kehl.
Os “depressivos” não saem bem na fita da sociedade do espetáculo, simplesmente não estão no ritmo do tempo do mundo que não pode perder tempo. Sentem-se estranhos na festa, mais ou menos como se sentiam, lembra a psicanalista, os classificados de melancólicos uns dois séculos atrás. Naquela época, no entanto, a sociedade não pedia nem oferecia “conforto psíquico a qualquer preço”. Mudanças de humor, de apetite, de desejo sexual, inseguranças, irritabilidades, manias, tédios, dores e outras tantas oscilações do corpo e da mente humana não entravam tão facilmente como hoje na “cesta básica” médica que diagnostica e oferece tratamento às depressões.
Põe, tira, põe, e esse panorama descrito por Maria Rita Kehl produz, em lugar de menos, cada vez mais deprimidos (“No Brasil, são cerca de 17 milhões de depressivos diagnosticados nos primeiros anos do século XXI”). Questão de resistência, sobrevivência ou de uma nostalgia especial, mais profunda e inalcançável?
O poeta Charles Baudelaire é citado em “O tempo e o cão” como o grande símbolo da melancolia do passado, menção que me fez voltar a um verso aprendido e decorado nos bancos da escola: Les sanglots longs des violons de l’automne blessent mon coeur d’une langueur monotone (Estes lamentos dos violões lentos do outono enchem minha alma de uma onda calma de sono). Não é Baudelaire, mas Paul Verlaine, em Chanson d’automne, e tem bom sabor de nostalgia para o outono de fifties.
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Sim, é ela na foto, a Mona Lisa, de sorriso imperscrutável e, definitivamente, sem sobrancelhas…
A Partida, mais viva do que nunca
“… Que eu esteja vivo na hora da minha morte.” A frase é do pediatra e psicanalista britânico Donald Winnicott, com obra bem viva passados mais de 30 anos de sua morte. Consta que ele deixou o registro numa espécie de diário que se encaminhava para uma autobiografia, num momento de reconhecimento da proximidade da morte. Não conheço o texto e seu contexto, que podem ter querido expressar o desejo de não querer estar morto antes de morrer de verdade. Mas a frase tem serventia perfeita para resumir, a meu ver, um dos mais belos filmes dos últimos tempos: a produção japonesa Okuribito, em cartaz entre nós como “A Partida”.
A história do violoncelista desempregado que volta à cidade natal e começa a trabalhar como preparador de mortos para funerais é deslumbrante em todos os sentidos. Um filme completamente bonito — no visual, no roteiro, no conteúdo, na música… E justamente reconhecido – levou o Oscar de melhor filme estrangeiro em 2009.
Andei pensando no filme. O tema da morte, já disse por aqui, se impõe na vida de quem entra nos cinqüenta. Fica mais próxima a percepção de que você pode partir a qualquer momento, e mais próxima ainda se circunstâncias colocam a partida como parte do jogo — quando você ouve, por exemplo: “Então boa sorte, que tudo dê certo”. Se vai pegar um avião ou fazer uma cirurgia, são palavras de esfriar a espinha, soam mais “urubúticas” que acolhedoras. E mesmo assim vamos lá, dar a cara para o futuro…
Melhor é se voltar para “A Partida”, o filme, onde a morte é acolhedora porque tem vida, onde o corpo não é cadáver, mas uma pessoa em estado de passagem nas mãos delicadas de um violoncelista. Ele, aprendiz no ofício, comanda o delicado ritual na presença da família. A morte se expressa, solene. Não se cala, não se esconde. Aos familiares e amigos é dado espaço e tempo especiais para sentir a partida: com sofrimento, remorso, culpas, acertos de contas, preces, gestos, boas lembranças. Ali o morto está mais vivo do que nunca. A morte não é fim. Ao contrário, tem potencial para muito reencontro.
Quando acontecer, quero assim “passar meu ponto” no planeta. Como Winnicott, quero estar viva na hora da minha morte para instigar e renovar nas pessoas queridas o desejo de alcançarem seus próximos passos, de continuarem firmes e bem vivas no caminho. Mas aviso a esses peregrinos: prometo infernizar a vida de todos, se me deixarem trancada sozinha num velório para evitar assaltos.
A Partida (Okuribito). 2008. Japão. Direção: Yôjirô Takita. Elenco: Masahiro Motoki (Daigo Kobayashi), Tsutomu Yamazaki (Ikuei Sasaki), Ryoko Hirosue (Mika Kobayashi), Kazuko Yoshiyuki (Tsuyako Yamashita), Kimiko Yo (Yuriko Kamimura), Takashi Sasano (Shokichi Hirata). Gênero: Drama. Duração: 130 minutos.
Outras resenhas interessantes de “A Partida” nos blogs: Plano sequência / Cinema é minha praia / Crítica (non)sense da 7arte
Delícias da inutilidade
“Felicidade é a certeza de que a vida não está passando inutilmente”. Não sei de quem é a frase. Chegou assim, entre aspas, pelo e-mail. E já não houve paciência para ver a que ela servia de introdução na mensagem enviada. Parece boa a frase, não é? Solene e simples ao mesmo tempo, com um certo ar poético. Assim, soltinha, ela manda recado seguro e firme dos úteis aos inúteis — pelo visto, “novas” categorias humanas na maré existencialista que invade de lorotas o cotidiano dos cidadãos.
Em todo caso, inútil que estava enquanto a vida passava, fiquei pensando sobre as delícias da inutilidade, aqueles raros, raríssimos momentos em que alguém consegue não servir para absolutamente nada: sua sugestão não foi aceita no trabalho, e você não precisa correr atrás de providências imediatas; seus filhos marmanjos não têm de ser levados às pressas a algum lugar; o maridão não quer ajuda de qualquer natureza, sente-se plenamente útil; a empregada ponta firme nada pergunta; ninguém da família lhe pediu socorro para pagar uma conta, levar ao médico, comprar uma coisinha que faltou, trocar uma opinião; aos amigos, cuidando que estão de dar utilidade à própria vida, não sobrou tempo para partilhar algo com você; o cachorro, alimentado e estirado num canto, não demonstra carência alguma; o carteiro não pede sua assinatura para entregar a encomenda; os projetos de entidades sociais não precisam da sua colaboração; o sinal da TV está em ordem, a internet não caiu, o computador não deu pau, o telefone toca e não é pra você. O nada lhe solicita. O mundo passa bem sem você.
Oh, o que fazer? Oh…, bate aquela angústia de se ver largada às traças, totalmente inútil. Bate com certeza, oh…, a incerteza sobre ser ou não ser feliz. Você se sente uma minhoca indefinida. Por onde deslizar? Vai caminhar na rua, vai se estirar no sofá com o livro que está ótimo, vai tornar o ócio produtivo buscando novas idéias, ou apenas beliscar na geladeira, curtir um filme, tomar um belo banho, jogar conversa fora, saborear uma taça de vinho e escutar os silêncios? São tantas as alternativas, as possibilidades, a diversidade de opções em meio, oh…, ao problema crucial, que permanece: a vida está passando, rara e deliciosamente inútil!




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