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Quando nos encontramos em nossa rotina, nos afazeres habituais, somos levados a acreditar que a vida é sempre a mesma e que nós somos também sempre os mesmos. O calendário a cada mês ganha novas paisagens, os dias ganham novos números e nós olhamos a tudo isto como se as mudanças ficassem restritas ao papel.

Como é difícil alterarmos as imagens com as quais compomos o mundo e a nós mesmos. Do lado de fora, muitas e muitas vezes elas vão se tornando borrões, mas para nossos olhos cansados e medrosos, traços antigos e bem esmaecidos vão sendo conservados, mantendo a ilusão de que tudo está como sempre foi.

Feliz ou infelizmente esta cadeia do mesmo em alguns momentos se rompe e nos põe diante de mudanças impossíveis de serem barradas, contornadas ou evitadas. 
 
Ao completarmos cinqüenta, um pouco antes, um pouco depois, nos encontramos em um destes marcos onde começamos a fazer conta do tempo que já passou, do tempo que está por vir.

Tempo de refazer trajetos, abraçar e abandonar projetos, traçar novos rumos.

A imagem que vemos refletida no espelho não deixa que nos acomodemos na ilusão de permanência, mesmo quando, numa última tentativa, fazemos diante dele expressões familiares a fim de evocarmos nosso eu de sempre. Mas ele não vem. Não pode vir porque não existe mais.

E querem saber de uma coisa? Se conseguirmos passar os primeiros momentos de horror – sim, porque nos perdermos de nós mesmos é daquelas experiências aterrorizantes –, a sensação é de libertação!

É verdade, sim. Livramos-nos da roupa apertada que usamos ao longo de nossas vidas e passamos a poder usar uma outra, muito mais folgada e confortável.

E isto acontece assim, aos poucos.

A cada vez que traímos aqueles que amamos. A cada vez que os ferimos fundo, acertando em cheio o coração.

A cada vez que fazemos algo que na inocência de nossa juventude juramos nunca fazer.

A cada vez que não somos leais aos nossos sagrados princípios.

A cada vez que mentimos e não pudemos sustentar nossas verdades.

A cada vez que nos descobrimos em primeiro lugar, sem nos preocuparmos com quem vinha atrás.

A cada vez que odiamos, desdenhamos, invejamos, sacaneamos, desejamos acima de qualquer restrição.

A cada vez que nos flagramos assim, a voz que dizia em alto e bom som, cheia de orgulho, “Eu sou assim”, vai preferindo calar. E o silêncio passa a abrigar nosso espanto de nos vermos outro — aquele que se gestava nas sombras de nosso ser, que acreditávamos tão transparente.

É assim que a trama da vida ganha densidade. Mas paradoxalmente é assim que a trama da vida, com seus complexos desenhos, ganha a leveza que a liberdade traz. Ganhamos jogo de cintura, abandonamos o refúgio dos preconceitos. Corremos a céu aberto, temendo agora muito pouco.

Sabemos do que somos capazes, sabemos que temos limite.

Confiamos agora muito mais em nós. E somos também muito mais confiáveis para aqueles que convivem conosco. Afinal é a partir deste momento que podemos ser leais a nós e aos outros, porque sabemos que somos humanos e que, portanto, em algum momento podemos ser surpreendidos por situações que tripudiem nosso desejo de lealdade.

Sabemos que a verdade é inatingível, não porque não somos sinceros, mas porque sempre há o que dela escapa e não se revela. Até para nós mesmos.

Reter a vida, permitindo que ela se expressasse apenas parcialmente nos custava muito trabalho, demandava muita energia. Aos cinqüenta podemos acolher a vida por inteiro. Aos cinqüenta, os scripts foram com o vento e o que fica são rumos despretensiosos. Aos cinqüenta, nos tornamos humanos, mortais e livres para viver.   

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3 pensamentos em “50, pouco antes, pouco depois

  1. Até os 50 ainda temos desculpas esfarrapadas para as atitudes que não aprovamos mas fazemos mesmo assim: não tive culpa, não resisti, não sabia o que fazia… Depois da chegada deles, há uma última chance de revalidar os nossos sagrados princípios, de chorar sobre a bandeira rasgada da lealdade,de parar de fingir que as loucuras se estabelecem sem nenhuma luta da nossa parte… Um ser humano fraco é alguém que, montado num cavalo fogoso, deixa-se levar por um galope descontrolado para onde o cavalo quiser ir.
    Um ser humano forte é alguém que, montado nesse mesmo cavalo, dirige-o com mão firme e faz com que ele galope na direção estabelecida pelo cavaleiro, na velocidade mais adequada para alcançar a liberdade que se propõe.
    O cavaleiro somos nós e o cavalo é o conjunto de nossos pensamentos, desejos e de nossas emoções, mesmo as supostamente desconhecidas.
    Quem manda em nossa vida, o cavaleiro ou o cavalo? Será que para cada mentira sincera não existe um preço, para cada vida “por inteiro” para nós não há uma morte para outros?

  2. Pingback: Música, muito prazer e mais saúde | Fifties

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