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“Felicidade é a certeza de que a vida não está passando inutilmente”. Não sei de quem é a frase. Chegou assim, entre aspas, pelo e-mail. E já não houve paciência para ver a que ela servia de introdução na mensagem enviada. Parece boa a frase, não é? Solene e simples ao mesmo tempo, com um certo ar poético. Assim, soltinha, ela manda recado seguro e firme dos úteis aos inúteis — pelo visto, “novas” categorias humanas na maré existencialista que invade de lorotas o cotidiano dos cidadãos.  

Em todo caso, inútil que estava enquanto a vida passava, fiquei pensando sobre as delícias da inutilidade, aqueles raros, raríssimos momentos em que alguém consegue não servir para absolutamente nada: sua sugestão não foi aceita no trabalho, e você não precisa correr atrás de providências imediatas; seus filhos marmanjos não têm de ser levados às pressas a algum lugar; o maridão não quer ajuda de qualquer natureza, sente-se plenamente útil; a empregada ponta firme nada pergunta; ninguém da família lhe pediu socorro para pagar uma conta, levar ao médico, comprar uma coisinha que faltou, trocar uma opinião; aos amigos, cuidando que estão de dar utilidade à própria vida, não sobrou tempo para partilhar algo com você; o cachorro, alimentado e estirado num canto, não demonstra carência alguma; o carteiro não pede sua assinatura para entregar a encomenda; os projetos de entidades sociais não precisam da sua colaboração; o sinal da TV está em ordem, a internet não caiu, o computador não deu pau, o telefone toca e não é pra você. O nada lhe solicita. O mundo passa bem sem você. 

Oh, o que fazer? Oh…, bate aquela angústia de se ver largada às traças, totalmente inútil. Bate com certeza, oh…, a incerteza sobre ser ou não ser feliz. Você se sente uma minhoca indefinida. Por onde deslizar? Vai caminhar na rua, vai se estirar no sofá com o livro que está ótimo, vai tornar o ócio produtivo buscando novas idéias, ou apenas beliscar na geladeira, curtir um filme, tomar um belo banho, jogar conversa fora, saborear uma taça de vinho e escutar os silêncios? São tantas as alternativas, as possibilidades, a diversidade de opções em meio, oh…, ao problema crucial, que permanece: a vida está passando, rara e deliciosamente inútil!

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Um pensamento em “Delícias da inutilidade

  1. Ai que bom! É exatamente que estou me sentindo em férias, em casa: a vida passando gostosamente – na Internet, mas lendo crônicas da amiga…

    bj
    marilia

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