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 Após escrever “Aos 50, um pouco antes, um pouco depois”, recebi um comentário indignado. Li e reli e me solidarizei com Claudia, a autora. Afinal, eu também como ela, me sinto no desamparo ao me ver a céu aberto, sem nada que nos proteja. Mas infelizmente não há conforto a ser oferecido a quem procura posições simples e parciais.

 
Não é fácil entendermos que a vida é feita, de um lado por nossos impulsos e, de outro, por nosso lado racional, moral, que clama por segurança. Não podemos negar nem um nem outro, não podemos optar.
Para dar conta do que nos chega como impasse, criamos a ilusão de que este lado dionisíaco pode ser amordaçado e trancafiado em porões, onde reina a escuridão. Mas as noites chegam e libertam este ser sombrio que mostrará sua cara em nossos sonhos, em nossos gestos carregados de distração, em pensamentos aos quais renegamos a autoria.  Negamos a eles cidadania e exatamente por isto eles se impõem a nós como invasores. Terra de vencido e de vencedor.

 
Outras vezes, buscando ainda solução, imaginamos reconciliações possíveis entre o sombio e o luminoso. E numa certa medida alcançamos o desejado. Um certo equilíbrio é conquistado. Viver nos parece menos arriscado. A tragicidade da vida parece se dissipar com as manhãs. Mas ao longe, no horizonte que demarca mundos, a tempestade se prepara.

 
Acho que aos 50, um pouco antes, um pouco depois, já naufragramos inúmeras vezes. Aproveitando a imagem trazida por Claudia, caímos do cavalo inúmeras vezes. Sim, porque não se iluda, não há cavalo que se submeta. Por um tempo sim, mas nunca o tempo todo. Não há peão que não conte sobre o dia em que, “traído” por seu cavalo, foi por ele derrubado de sua posição de senhor e se esburrachou no chão. Mas também não há peão que não tenha montado novamente em seu cavalo, só que agora sabendo que a rédea é frágil para conter a força deste animal.

 
É aos 50, um pouco antes, um pouco depois, que entendemos que a vida se faz nos desequilíbrios destas duas porções. Não há final feliz. Mas também não há desespero diante disto.

 
É aos 50 que podemos rir nas manhãs em que o espelho nos mostra nossa cara coberta de poeira e lama, trazidas pelos tombos que levamos. É daí que vem um olhar muito mais compassivo diante de erros, desacertos, falhas. É daí que vem a capacidade de perdão, a aposta nas reparações.

 
É aos 50, um pouco antes, um pouco depois, que o homem forte, despido de suas ilusões onipotentes se reconcilia com sua humanidade e vê seu peito aquecido pela gratidão. É muito bom estar na vida!

 
Mas não é fácil.

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