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Unauthorized Growth, foto de Giuliano Maiolini, cujo álbum você encontra no Flickr

Meu marido comprou um GPS, aquela engenhoca que você põe no carro e orienta teu caminho pela Terra via satélite. Deu pau. Não, não com o GPS. Deu pau entre mim e ele. Resolvemos testar a máquina para chegar a uma ruazinha de um bairro em que não costumamos transitar em São Paulo. Em menos de dois minutos ou duas orientações da máquina depois, ele começou a discordar e escolher o próprio caminho.

 

Se a voz GPS fosse masculina, talvez ele desse mais crédito. Mas é uma mulher que dá as dicas do roteiro a seguir, com uma voz meio metálica, impassível, e que acentua de modo errado a maioria dos nomes de ruas. Só que, ao contrário de mim, ela não se altera, não perde a paciência. A cada vez que ele contradizia o caminho indicado, ela entrava em cena:

“Recalculando, a 200 metros vire à direita, depois à esquerda na rua tal…”. Ela queria porque queria e tentou por todos os meios nos jogar na avenida Faria Lima. E ele retrucando “n” vezes: “Não, idiota, pra quê? Vai ter de recalcular de novo aí…por aqui é melhor…”. E de minha parte: “Pra quê, pergunto eu! Por que ter um GPS se você absolutamente não precisa?”

 

Sem resposta. Recalculando, recalculando, recalculando… E comecei a assumir o papel da moça GPS, imaginando orientações perfeitas para patos selvagens como o meu marido. Sim, porque patos selvagens sabem sempre, onde estiverem, para que lado é o norte ou o sul. Já nasceram com GPS.

 

Não fiquei só imaginando, fui dizendo: “Sr. de Araque, se me fizer recalcular mais uma vez, vire à direita, depois à esquerda, mantenha-se no centro, dê um cavalo de pau, faça a próxima curva, siga mais 500 metros, peque o raio que o parta, dirija-se àquela parte, não me torre e a 100 metros jogue-se no rio Pinheiros…”. 

 

Ele até acabou rindo, mas a provocação estimulava ainda mais sua competitividade: “Quer apostar que ela vai me mandar pra rua tal? Ela devia era gravar o meu caminho e ensinar para os outros, é ou não é? E agora você vai ver, vou entrar no túnel e ela vai me perder, vai pirar…”

 

E quem não pira com uma criatura dessas? Por que não usar o GPS para não pensar, cantar, conversar, até se distrair no trânsito — sim, você pode errar o percurso à vontade porque a mocinha vai recalculando…

 

GPSs são para patos não-selvagens, sem boa orientação espacial, como a maioria das mulheres. Pelo menos a maioria das que conheço, que não vêem tanta utilidade num mapa quanto naquele frentista do posto para fazer as “perguntas estratégicas”.

 

Que desperdício aquela maquininha nas mãos da criatura! Não sei quanto custou, mas com certeza valeria dois jantares dos bons, um par de sapatos maravilhosos, aqueeele vestido!, meu creme que está acabando, uns 10 livros, 20 ingredientes inusitados para pratos diferentes e até, quem sabe, uma viagem sem qualquer tipo de guia para um belo canto do planeta.

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Um pensamento em “GPS: Guia para Patos (Não) Selvagens

  1. Adorei! depois de tanto tempo divorciada, muitas vezes me pego imaginando com os casais – de nossa idade- se comportam frente às engenhocas modernas..

    quero mais crônicas, têm?

    bj
    marilia

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