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Colorindo a imagem no espelho… A foto é de Mary Goldsardine.

Meu Deus do Céu ! Eu não tinha esse rosto que tenho hoje. Eu não tinha esses olhos ilhados por rugas, esse toldo de pálpebras caídas e essa opacidade  na pele.

 

Eu não acordava assim, descabelada, amarfanhada, plissada e com bafo de Tutancamon. Saía lépida da cama e corria para me arrumar, parecia um beija-flor. Hoje, me arrasto penosamente, tal qual um leão marinho. Não ficava horas com as marcas do travesseiro a tatuar minha carne, nem me doíam as juntas. Não precisava me alongar e nem pôr os óculos para me achar. Eu não tinha vista cansada! Isso é tão emblemático… Queria meus olhos incansáveis de volta. Olhos vorazes, atentos, corajosos.

 

Eu não tinha este rosto, nem esse corpo, nem esse espírito de porco que se apossou da minha alma intrépida, aventureira. Eu não tinha essas ausências, esses esquecimentos vexatórios e inclementes. Eu não esquecia o nome das coisas, das pessoas, nem o que eu acabava de ler, nem as minhas duzentas senhas. Eu ria das piadas na hora e não lia revista velha como se fosse nova, nem via filme já visto como se fosse inédito. Eu não tinha agenda, nem fazia check up, eu não tinha insônia. Eu tinha hormônios! (E eles pareciam amazônicos, inesgotáveis.) Não fazia terapia, nem RPG, nem gastava um centavo com cremes e tratamentos milagrosos.

 

Eu não tinha tantas contas para pagar, nem tantos problemas, nem tantos pecados, nem tinha deixado de fazer tanta coisa. Não tinha joanetes, nem colesterol alto, nem bursite, nem sabia que pimentão fazia mal. Não tinha diploma, nem certidões de estado civil, nem usava guarda-chuva. Não tinha renda para declarar. Fumava sem culpa, não rezava, torrava ao sol feito um lagarto, tinha opinião sobre tudo, e por pura  ignorância, me achava o máximo. Me lambuzava com a vida, ria dos outros e tinha tempo para jogar conversa fora, dar carona. Eu não tinha medo de gente! Não era cínica, nem cética, nem antisséptica. Eu não tinha esse rosto, nem tanto dinheiro, nem tinha lido tantos livros, nem feito tantas viagens. Era inocente e confiante. Era arrogante e displicente. Era jovem: tinha muitas certezas, muita pressa, muitas bandeiras.  Forte e voraz, como um furacão. 

 

Ah! Eu não tinha esse rosto que tenho hoje mas ele não poderia ser outro. Não o imaginava mas o escolhi.  Escolhi cada ruga, cada sarda, cada cicatriz. Escolhi até aquelas bolsas sob os olhos e os vincos na testa. Foi sendo moldado, esculpido, tatuado e hoje ele revela minha história, os traços da minha mãe, os traços das minhas filhas e das mil mulheres que tenho sido. Estou confortável com ele. Ele é a minha cara! Maduro e apaziguado, como uma árvore. 

 

Hilda Lucas Hilda Lucas é escritora de palavras quentes e generosas. Autora de Memórias líquidas, um livro sobre uma família assombrada pela morte, ela escreve também uma coluna semanal para o portal M de Mulher, da Abril. Esse artigo é de 7 de janeiro de 2009. A Hilda aí ao lado é obra à moda de Andy Warhol de Maria Cristaldi

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Um pensamento em “Retrato

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