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Outro dia uma cena me levou à Louise Brown, o primeiro bebê gerado por reprodução assistida, na Inglaterra, em 1978. Era um casal maduro com um filho pequeno, não sei se a criança fabricada por um encontro natural de óvulo e espermatozóides no corpo da mãe ou produto de um arranjo tecnológico, cujos avanços, em 30 anos, já ajudaram casais a produzir cerca de 3,5 milhões de criaturinhas nascidas saudáveis em todo o mundo. No Brasil, considerado um dos centros de excelência na área, são cerca de 4 mil nascimentos ao ano. E o número só cresce.

 

O noticiário da época do nascimento de Louise diz que seus pais esperaram nove anos por uma concepção natural até buscar a ajuda da ciência. Uma espera impensável para quem enfrenta hoje dificuldades para engravidar (de 10% a 15% dos casais). E nem precisa haver dificuldades, problemas de infertilidade. Em muitos casos, é a praticidade no planejamento da vida, a ansiedade, a insanidade ou as onipotências mil que levam casais saudáveis às clínicas de fertilização assistida. O desejo de um filho parece ter saído do plano dos sonhos para entrar no de planejamento de metas. Quando surge, vira ordem imperiosa com pouco espaço para tentativas, falhas e frustrações.  A ciência comparece e resolve a questão. Como tudo, tem lado bom e ruim.

 

O fato é que as técnicas de reprodução assistida mudaram a paisagem da maternidade, permitindo apreciar uma combinação que pode ser hilária: a da mãe madura com o filho pequeno. Dizem que, por serem mais velhas, elas tendem a ser excessivamente protetoras, criando filhos medrosos e exageradamente manhosos. Minha experiência de observadora diz o contrário. Mães maduras, quarentonas até bem passadas, me parecem saudavelmente desencanadas.

 

Volto à cena que me chamou a atenção outro dia. Na praia, a poucos metros da minha cadeira, uma dessas mães tentava tirar o filho, de uns 4, 5 anos, do mar. “Tá cheio de siri aí, vão morder o teu pé, venha agora, Francisco”, arriscava ela. “Onde, mãe, onde você viu?”, respondia o garoto se aproximando para, em seguida, mergulhar e se afastar novamente, talvez atrás dos siris.

 

O pai maduro, reunido com amigos em sua barraca, só ria. Mais ainda quando ouviu o aviso gritado da mulher: “Se eu não conseguir tirar o cara da água em 5 minutos, vou sentar aí e o problema é seu.”

 

Terrésssa, como o marido pronunciava num sotaque espanhol o nome da esposa, continuou com as tentativas: “Franciiiisco, agora chega, sai já, não agüento mais ficar aqui nessa água gelada”. “Mãe, a pessoa mais corajosa dessa praia é a Nanda, ela entra na água gelada”. “Mas a Nanda foi passear e eu não entro. Você é que sai. Frannncissscô, já!” Mais aproximações, fugas, mergulhos.

 

“Francisco, agora é sério. Tô vendo um tubarão vindo, vai te pegar, é perigosíssimo!! Sai, rápido, rápido…” “Onde mãe, quero ver, quero ver…” “Corra já pra cá, ele tem uma barbatana enorme pra fora, e deve ter uma boca enorme pra te engolir num segundo…” “Onde, onde mãe?” Tchibum, tchibum…

 

Pausa para um foco no marido. Um olhar furioso? Não, um olhar matreiro, zombeteiro. “Vou simular um afogamento e você chama o salva-vidas, tá?”, propôs ela ao parceiro. “Terrésssa, vê se ele não quer sorvétes, milho, una empadita…”

 

“Francisco, vem cá no rasinho, quero te contar uma coisa”, chamou Terrréssa. “Você sabia que uma onda pode ficar gigante e invadir toda a praia, e com uma força gigante que pode até levar a gente pra cima daquelas árvores lá?” Tchibum, tchibum… “Vem Francisco, já cansei, tô com frio…”

 

Tchibum, tchibum… “Mããe, olha a Nanda!” “Oi, mãe, quer que eu olhe o Francisco um pouco?” “Ah, é tudo o que eu quero, tô gelada, tudo bem mesmo?” “Deixa comigo.” Tchibum, tchibum… “Nanda, vai ter uma onda gigante até o céu e tem um tubarão grande, mas não vi.” “E você acredita seu bobão, o tubarão grande sou eu que vou te pegar, já!!” Tchibum, tchibum… “Mããnhêê, olha a Nanda!” 

 

Foi o espetáculo mais engraçado do politicamente incorreto que já vi. Saboreado de camarote. Maravilha! Essas Teréssas maduras podem levar a maternidade assim: amam, reclamam, inventam, divertem-se, simplesmente desencanam.

 

A foto não é o máximo? É do photostream de Morgana Meggie no Flickr. Ela é uma  campineira, que, pelo visto adora bichos porque também assina o site: Anjos abandonados, central de adoção de animais abandonados em Campinas. O nome da foto é Maternidade. 

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