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mona-lisa_Leonardo da Vinci_Museu do Louvre_Paris

Fifties costumam ter com mais freqüência episódios de nostagia. Em geral positivos, eles produzem satisfação ao recuperar fragmentos do passado que ajudaram a constituir a pessoa do presente. E não é preciso de um momento especial para entrar nesse clima. Por vezes basta uma notícia, como a que encontrei num caderno recente do New York Times: “Eliminar sobrancelhas virou nova tendência”.

Uma sem-sobrancelhas entrevistada no artigo dizia: “… é uma coisa unificadora… assexual… nos faz parecer menos humanos, mais cerebrais… é um exercício de modernidade.” 

Nos anos 60, minha irmã adolescente pintava as sobrancelhas com carvão para parecer mais madura e entrar no filme proibido para menores de 18. Um amigo, então criança, raspava as sobrancelhas dele e dos irmãos menores para fazer uma surpresa para a mãe que chegava do trabalho. Hoje, na sociedade do espetáculo em que vivemos, em vez da megabronca recebida poderia ganhar aplausos pela tresloucada vanguardice.
De minha parte, sinto certo conforto. Desta vez estou dentro do último modismo. Minhas sobrancelhas são praticamente invisíveis desde que me conheço por gente. E como adoro as “taturanas” das outras, vivo tentando dar um sombreado com lápis marrom. Dou, olho e tiro. Não reconheço a imagem no espelho, que passa a pedir um bigode e uma cirurgia para mudança de sexo. Agora não vou mais insistir. Em questão de exercício de modernidade, estou na linha de frente!

Põe, tira, põe, e essa dança que entrelaça passado e presente e dispara nostalgias também está num ótimo livro que começo a ler: “O tempo e o cão – a atualidade das depressões”, da psicanalista Maria Rita Kehl, recém-lançado pela Boitempo Editorial. Novamente sinto um certo conforto, embora a história nada tenha de confortável. Mas gostei é de encontrar reconhecimento de um jeito de estar no mundo, um jeito “pé no breque” como define uma amiga.

Rita Kehl fala sobre os “deprimidos” dos dias atuais e seus lamentos, porque vistos como sombras negativas “em uma sociedade que parece essencialmente antidepressiva, tanto no que se refere à promoção de estilos de vida e ideais ligados ao prazer, à alegria e ao cultivo da saúde quanto à oferta de novos medicamentos para o combate das depressões”. 

Os “pé no breque”, apesar da crescente e diversificada oferta de “pílulas de bem-estar”, parecem se ressentir cada vez mais de uma falta de liga com o tempo em que vivem. Há um tremendo abismo entre eles e o contexto social contemporâneo que convida a estar em “um grau ótimo de eficiência existencial”, nas palavras de Rita Kehl.

Os “depressivos” não saem bem na fita da sociedade do espetáculo, simplesmente não estão no ritmo do tempo do mundo que não pode perder tempo. Sentem-se estranhos na festa, mais ou menos como se sentiam, lembra a psicanalista, os classificados de melancólicos uns dois séculos atrás. Naquela época, no entanto, a sociedade não pedia nem oferecia “conforto psíquico a qualquer preço”. Mudanças de humor, de apetite, de desejo sexual, inseguranças, irritabilidades, manias, tédios, dores e outras tantas oscilações do corpo e da mente humana não entravam tão facilmente como hoje na “cesta básica” médica que diagnostica e oferece tratamento às depressões.

Põe, tira, põe, e esse panorama descrito por Maria Rita Kehl produz, em lugar de menos, cada vez mais deprimidos (“No Brasil, são cerca de 17 milhões de depressivos diagnosticados nos primeiros anos do século XXI”). Questão de resistência, sobrevivência ou de uma nostalgia especial, mais profunda e inalcançável? 

O poeta Charles Baudelaire é citado em “O tempo e o cão” como o grande símbolo da melancolia do passado, menção que me fez voltar a um verso aprendido e decorado nos bancos da escola: Les sanglots longs des violons de l’automne blessent mon coeur d’une langueur monotone  (Estes lamentos dos violões lentos do outono enchem minha alma de uma onda calma de sono). Não é Baudelaire, mas Paul Verlaine, em Chanson d’automne, e tem bom sabor de nostalgia para o outono de fifties.

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Sim, é ela na foto, a Mona Lisa, de sorriso imperscrutável e, definitivamente, sem sobrancelhas…

 

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2 pensamentos em “Põe, tira, põe…

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