Home

untitled_guadramil_portugal_2009_Rosino

Nem tudo que é fifty é bom. Os 50 anos de carreira política de Sarney, por exemplo, concentram tudo de ruim. Ruy Castro lembrou bem outro dia. Era 1990. Dia da transmissão da Presidência da República de José Sarney para Fernando Collor. No jornal, a charge do genial Millôr Fernandes trazia um bebê com a cara e o bigodaço do Sarney, sentado no penico, gritando “Mamãe, acabei!” Chorei uns bons minutos de tanto rir (que desgraça a gente rir da própria desgraça).

De lá prá cá, é difícil dizer o que melhorou na política. O que continua pior é fácil, como a perpetuação no poder daqueles que se “sacrificam” tanto em nome do povo. Nesse quesito, Sarney tornou-se um benchmark. Desde sempre colocou a família e os amigos ocupando posições estratégicas na administração pública. Ao ver endurecer a concorrência por cargos em seu próprio Estado, deu um jeito de “defender” os interesses dos cidadãos do Amapá, que nem limite faz com Maranhão. Reelegeu-se senador. Quanto desprendimento!

Para evitar outros sustos no Maranhão e até no Amapá, surgiram propostas no Senado de divisão de alguns dos estados brasileiros, entre eles … Maranhão. Imaginem, mais uma capital (talvez a construção de uma nova cidade), novos cargos de prefeito, vereadores, deputados estaduais e federais, ah, e claro, 3 novos senadores, pelo Maranhão do Sul.

Se dividir ao meio é bom para fomentar o desenvolvimento – base da justificativa das propostas separatistas –, é o caso de se perguntar por que não começar por estado mais necessitado, pelo Piauí, que sequer estava na relação dos tais projetos? Artimanhas da família Sarney, que só sarneysistas explicam. Se ocorressem no campo da medicina, o diagnóstico seria certeiro: câncer em fase de metástase.

E la nave va…, como diria Fellini. Vamos que vamos, com Sarney. Que currículo! Governador do Maranhão, sucedido, entre outros, pelo genro e pela filha (esta por 3 mandatos), tornou-se “o cara” da Arena, partido político que se fez e desfez com os governos militares. Depois pulou para a Frente Liberal, juntou-se ao MDB, virou vice-presidente de Tancredo Neves e acabou na presidência. Aí o currículo forte em bastidores não deu conta das exigências na frente executiva. Sarney sucumbiu às pressões e deu no desgoverno que deu: moratória brasileira, hiperinflação, corrupção de montão e uma Constituição que, de tão detalhista, está mais para paraíso de advogado que para defesa de cidadãos.

E aqui vale um parêntese para lembrar Thomas More, assessor e crítico de Henrique VIII e autor do livro sobre a ilha chamada Utopia. Ilha onde a razão guiava as decisões e as estruturas política e social. Em Utopia, as leis eram mínimas e simples, porque para serem obedecidas deviam ser entendidas por todos os seus cidadãos. Sendo simples, o próprio povo podia cobrar seus direitos e se defender por conta própria na Justiça — sem intermediários!

E la nave de Sarney va… Entre um marimbondo de fogo e outro, ele continuou e ainda mantém a saga de desgoverno, agora na presidência do Senado. Uma carreira e tanto! E no que toca o Maranhão, a competência da família mostrou-se esmerada: continua a ser o pior dos estados brasileiros, exceção feita ao Piauí.

2009. Tenho apenas uma sugestão a Millôr Fernandes: que atualize a charge com o mesmo desenho, mas com a mãe perguntando ao bebê “Acabou, filho?” “Ainda não, mamãe”, responderá o bigodudo sarneyzinho.

Alberto LyraNosso blogueiro convidado é Beto L, administrador de empresas, generalista sem ser superficial e objetivo sem ser detalhista. Filosofia: há muito humor no mau humor.

 

_________________________________________________________________________________________________

A foto de hoje vem de Portugal, o autor, Rosino, diz que o álbum no Flickr serve para mostrar suas fotos de viagem. O penico, portanto, o Rosino encontro jogado em Guadramil.

Anúncios

4 pensamentos em “O penico do Sarney

  1. Pois é… que tristeza.
    O pior é que não se ve esse tipo de politiqueiro somente no Maranhão, é em quase todo o norte e nordeste, vide Bahia(familia Magalhães), Alagoas(familia Collor), etc
    Isso faz parte do ranso coronelista do seculo passado, e a cultura minimalista favorece esse tipo de comportamento politico social.

  2. Pois é Walter, você tem toda a razão. Mas a longevidade torna o caso dos Sarney emblemático. Eles são mesmo um câncer. Bom ter sua opinião por aqui.

  3. Carruagem é muitissimo apropriado, pois eles se acham a realeza do país. Agora até vacinação contra gripe suína tem que ser especial para o Congresso. Não gostam de cheiro do povo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s