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Ainda não deu certo, mas uma amiga está para me levar à Casa dos Cariris, na capital paulista, onde diz que é feita a verdadeira comida mexicana. Não se trata de restaurante comum, mas a própria casa dos fifties Lourdes Hernández e seu marido Felipe, que recebem em dias previamente agendados. Lourdes envia e-mails especiais avisando sobre as datas. Especiais porque o cardápio oferecido vem com o tempero de histórias da anfitriã. Enquanto não degusto seus pratos, saboreio seus ótimos relatos. Num dos últimos, ela conta sobre tremores (temblores), a vida e seus amores.

Os tremores são terremotos que mandam para o espaço a vida segura e cheia de regras. Como diz Lourdes, que viveu a experiência no México em 1985, “…mudam o rosto da cidade e o espírito de seus cidadãos. Para mim, desvelaram a urgência da fome e da vida irreprimível”.

Poucas horas antes dos tremores, ela disse adeus a um namorado que já não “balançava” sua vida. Um apetite surgiu. “Não chorei, só comi, comi e comi.” Após os estragos feitos pelos abalos, deu-se conta também da fome dos sobreviventes, do apetite que os faz descobrir que ainda estão com vida, apesar do coração quebrado e vazio. Ao mesmo tempo, em outro canto da cidade, Felipe também desfazia um amor. Mais tarde acabaram se encontrando: “… mortos de fome. Vivos”.

É uma bela história. Se não fosse cozinheira das boas, Lourdes poderia estar na vida como escritora de romances ou roteirista de cinema. Aliás são eles, também os livros e filmes, que nos lembram do apetite pela vida nos momentos de coração quebrado. Ou perna quebrada, como aconteceu comigo.

No limbo que o acidente me colocou por longo período, fui mantendo a “fome” com A Louca da Casa, de Rosa Montero, conheci Mia Couto em Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, passei pelas fragilidades de espírito do beat generation John Fante com seu Espere a primavera, Bandini, viajei pela Beleza e Tristeza de Yasunari Kawabata, acompanhei o tenso jantar de gala num castelo húngaro nas Brasas de Sándor Márai, maravilhei-me com o jovem Jonathan, autor de Extremamente alto, incrivelmente perto.

Quanto aos filmes, tomo a liberdade de reproduzir o e-mail que enviei a uma amiga envolvida em tristezas: Ok, então fique quietinha, com um chocolate quente, uma mantinha no sofá e pegue um filme para secar lágrimas: não é comédia, ao contrário, daqueles de soluçar mesmo.Tem um que não resisto por causa de uma cena. Chama-se Regras da Vida, com aquele Michael Caine que eu adoro. Ele cuida de um orfanato e, na hora que põe as crianças para dormir, diz, solene, algo como: Goodnight, you princes of Maine. You kings of New England. E aquelas criaturinhas “abandonadas” viram reis e rainhas de respeito. É lindo de chorar… E pode fazer você virar “rainha” … E despertar o apetite.

Por fim fica aqui mais uma dica, esta dada por cientistas que também entendem de terremotos e sabem que eles são provocados pela Terra e não pela fúria de deuses gregos como Poseidon, que com seu tridente espalhava tempestades e turbulências. 

Os cientistas da Terra conhecem como o planeta funcionou no passado e como poderá funcionar no futuro. Por isso afirmam, num informe recente, que convém a todos nós, que vivemos sobre placas que flutuam e que causam terremotos quando se mexem demais, ter alguns conhecimentos básicos para tomarmos decisões bem informadas — sobre qualquer coisa, como ir ou não à Casa dos Cariris encher a vida de apetites mexicanos…

E se pisamos na Lua há 40 anos, não é mesmo o caso de ficar um pouco por dentro do que rola na Terra?

Para saber mais:

Comidinhas na Casa dos Cariris

Informe da Fundação Nacional para a Ciência (NSF, na sigla em inglês) e outras instituições, de junho de 2009

A Louca da Casa. Rosa Montero, Ediouro

Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra. Mia Couto, Companhia das Letras

Espere a primavera, Bandini. John Fante, José Olympio

Beleza e Tristeza. Yasunari Kawabata, Globo

As Brasas. Sándor Márai, Cia das Letras  

Extremamente alto & incrivelmente perto. Jonathan Safran Foer, Rocco
Regras da Vida (The Cider House Rules), EUA, 1999, direção de Lasse Hallstrom, com Michael Caine, Tobey Maguire, Charlize Theron, entre outros. 

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A foto é de um árabe, Hamed Saber, Happy Eid ul-Adha , e aparentemente, não poderia ser mais distante do post da Lélia e dos tremores da Cocinera Atrevida, Lourdes. Mas estava eu à caça da foto para ilustrar o post quando dei com esta e era perfeita porque fala desta “fome”…e, querem saber, Eid ul-ulAdha é uma celebração islâmica meio que aparentada com nosso Natal. Acontece depois do longo mês de jejum, o Ramadã. E é uma celebração da vida, com direito a trocas de presentes, muita comida e muitos doces distribuídos para as crianças. Ou seja, no final, aqui ou ali, tem tudo a ver…

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4 pensamentos em “Tremores, apetites e amores

  1. Lélia,
    a unica crença que sempre me manteve “viva” foi exatamente esta: a fome sempre volta depois dos tremores.
    Mas talvez isto não seja verdade sempre…
    Ainda assim que que bom que possa ser assim para alguns e algumas vezes.

    Sabe, tem um filme lindo que fala exatamente sobre isto chamado : “A vida secreta das palavras”.
    É nele que se dá uma das cenas mais bonitas e absurdamente tristes que já vi e que pode se resumida na frase que a protagonista diz: “Não posso chorar porque tenho medo de que se começar a chorar não parar nunca mais.”
    Ela fala, chora, para de chorar e sente fome!

    Que texto lindo!

  2. dash hosein man mkvmerg gui estefade mikonam amma ghesmati peida nakardam ke beshe bit ratesho kam kard vase payin avordane hajm. dar zemn yek software ham age moarefi koni vase chasbundane subtitle be surate yek file chon tu mhamin mishe amma to information ke miri mibini ke subesh jodast mikham jozve tasvire film beshe chon tu tv encod nemishe thanx aziz

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