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Menina-em-Honduras_Jonathan Assink

Final de tarde e eu ali, no meio de um trânsito maluco.

Nada a fazer a não ser espichar os olhos e fazê-los espiar os carros alheios. Afinal, a gente cansa de conversar com o próprio umbigo. Parece que ele fala sempre da mesma coisa, sustenta sempre o mesmo ponto de vista.

Suspendi o olhar para ver as pessoas dentro de um ônibus lotado. Em meio a rostos cinzas, uma carinha linda de menina exibia dois olhinhos brilhantes e curiosos. Muito do que via, via pela primeira vez. Descobria o mundo.

Atos inaugurais são carregados de emoção. Boas e ruins, de susto, de surpresas, de esforços de compreensão. Nos obriga a estar plenamente na situação vivida, impedindo que possamos recorrer ao velho truque do  “piloto automático”.

A vida não se repete. Nunca. A gente é que, numa tentativa de controle, ou por pura preguiça a toma por conhecida e vai enfiando as novidades em gavetas emboloradas, marcadas por etiquetas rígidas e já desbotadas.

Não nos damos conta de que, de gavetas passaram a lápides, onde enterramos a todo instante tudo aquilo que, se por um lado, causa desordem, por outro, é o que faz laço com a vida.

Com certeza, nós de cinqüenta, um pouco mais, um pouco menos, somos assim. Preguiçosos e medrosos, acomodados em nossas rotinas. E ironicamente nos assustamos quando vemos nossos olhos sem brilho no espelho.

Dispensamos muito esforço para que a vida se mantenha sempre a mesma. Vida que expressa uma dança pobre, monótona. Uma dança que reflete um corpo girando sobre si mesmo, sem deslocamento pelo espaço, onde os pés plantados no chão nele fincam seus dedos, como raízes, retirando do corpo ao qual sustenta, toda e qualquer mobilidade.

Lembrei-me de uma passagem de um livro de Rilke onde descreve Rodin em seus momentos de criação. Diz ele que “Rodin suspeitava que os movimentos discretos feitos pelo modelo, quando este acredita não estar sendo observado, poderiam rapidamente concentrar uma força expressiva que nós não pressentíamos existir, pois não estamos acostumados a acompanhar tais movimentos com uma atenção ativa e interessada.”

Olharmos a tudo com olhos atentos e interessados torna inaugural o instante vivido. Nos devolve o brilho dos olhos. Nos devolve ao momento da vida ainda sem nome.

Acho que agora entendo melhor porque sempre sou assaltada por forte emoção quando me vejo na frente da escultura feita por Rodin, cujo titulo é “A mão de Deus”. É uma das melhores expressões feitas pelo humano deste ato inaugural onde a vida é embrião, onde é pura promessa. Não de felicidade suprema, não de ordem eterna. E sim, de sangue correndo nas veias, de coração batendo acelerado porque ouve que algo se anuncia, mas ainda em língua estrangeira. E para decifrá-la precisamos ter a coragem de entrarmos em contato com aquilo que nos é estranho e que nós disfarçamos de familiar. Fazemos isto com a intenção de domarmos a exuberância da vida.

Compartilho com vocês uma frase de Nietzsche que diz:

“Eu vos digo: é preciso ter ainda caos dentro de si, para poder dar à luz uma estrela dançarina.”

Nós de cinqüenta, um pouco mais ou pouco menos, podemos ainda ver na vida um convite para dançar.  Só precisamos um pouco de coragem e muito menos preguiça.

Que tal abrir as gavetas e deixá-las um pouco ao sabor dos ventos?

Deixo vocês cantarolando baixinho aquele verso lindo da musica de Miguel Serrat que diz:  De vez em quando a vida toma comigo café…

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A foto da garotinha descobrindo o mundo através da janela de um ônibus, em Honduras,  é do fotógrafo americano, Jonathan Assink, o Flying Dutch, do Flickr.

 A-mão-de-Deus_Auguste-Rodin

A aqui você conhece a obra de Rodin, A Mão de Deus, conforme o site do Musée Rodin, da França.

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2 pensamentos em “Uma estrela dançarina

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