Home

Clitoris_Antonio Carlos Castejón, da série Dimensões e Abstrações

Pela terceira vez em pouco tempo, ouço uma mulher madura pronunciando de maneira errada a palavra clitóris, de propriedade tão feminina. Era um papo sobre o horror de certas práticas culturais. Ela se referia à extirpação do “CLÍTORES” – dito assim, com acento no “í” e “e” no fim –, que é um costume muçulmano praticado em alguns lugares da África e do Oriente Médio, destinado a impedir a mulher de experimentar o prazer sexual.

Por solidariedade de gênero, fiquei constrangida com o erro e preferi não corrigir a moça no meio da conversa para também não a constranger. Se tivesse oportunidade, daria um toque mais tarde. Mas outro integrante do grupo, um homem, tomou a iniciativa, fingindo delicadamente uma certa insegurança: “Acho que se fala clitóris, não é gente?” E todos concordaram rapidinho, querendo passar adiante a conversa. A moça só olhou, não sei o que pensava.

Eu fiquei imaginando como era possível uma mulher madura, informada a ponto de conhecer costumes muçulmanos, ter passado uma vida sexual distraidamente falando clítores em vez de clitóris. Já que claramente ela repudiava a barbárie contra ele, o clitóris, por  que o mutilava na mente?

Por que pronunciar o Ó, aberto, daquele “coisiquinha” seria complicado, um desafio?

Talvez não tenha nada a ver — continuei comigo mesma. Já ouvi tanta gente sabida falando em “boxer” do banheiro, em “domara” que dê certo, no “pombo” da discórdia…

Lembrei-me de que eu mesma descobri, depois de bem crescida, que tinha ralas sobrancelhas e não sombrancelhas! E foi aí que, numa associação repentina, o “clítores” da moça me pegou novamente.

Alguém que nomeia errado algo também pode se confundir com a funcionalidade desse algo. Talvez a moça tenha feito isso por décadas e, chegada a maturidade, o “coisiquinha” dela ficou tão “ralo” quanto minhas sobrancelhas.

Aí ela se decepcionou, deixou de dar atenção, mutilou, e agora agarra-se à força proparoxítona e impetuosa de um Í, fechado, trancado,  para se defender da sensação de queda de um Ó no meio do caminho…E o ES? Talvez uma aposta no plural, quantidade, continuidade?

Sem botar fé nas minhas especulações esdrúxulas, resolvi pesquisar o assunto. Quase dei razão à moça com seu CLÍTORES, impetuoso e plural. Por que ele não tem nada de “coisiquinha”. Vejam que incrível:

– o clitóris parece uma estrutura pequena porque o que se vê dele é só, como dizem, a “ponta do iceberg”, com uns 2 centímetros de comprimento em média e de 3 a 8 milímetros de diâmetro;

– o “iceberg” inteiro, parte externa e interna, pode atingir até 9 centímetros. É grande, cheio de vasos sangüíneos e fibras nervosas;

– São cerca de 6.000 ou 8.000 ramificações nervosas, mais concentradas na parte externa. Encontrei os dois números, mas o que ultrapassa mil, seja em dólar, euro ou nervo, não é mais do que suficiente como noção de grandeza?

Diante desse “polvo pélvico”, tão poderoso e complexo quanto a internet em termos de ramificações, só podia mesmo me “dar nos nervos” ouvir um CLÍTORES!

Gente, é CLITÓRIS! Mesmo que seja difícil largar o vício, o de linguagem, vale o esforço ao menos para evitar o vexame de ser corrigida por um homem.

E homem por homem, pensei em finalizar, fiquem com o Aurélio. Mas vejam o que ele me apronta, bem agora no fim do texto:

Clítoris. Do latim clitoris, derivado do grego kleitorís.
Clitóris. Variação de clítoris, ver clitóride.
Clitóride. Do grego kleitorís. Pequeno órgão alongado, erétil, situado na parte superior da vulva; sinônimo popular no Amazonas: tamatiá.

Então existe o clítoris e o clitóris… E a gente sai no lucro, porque se um é bom, imagine dois!!!

Em todo caso, como o risco de correções indevidas eventualmente permanece, proponho o seguinte:

ESQUEÇAMOS DOS Ó, Í,  ES…
CHEGA DE NHÁ, NHÁ, NHÁ…
VAMOS DE TAMATIÁ!!!

_______________________________________________________________________

A foto, cujo título é mesmo “Clitóris”, é de um brasileiro, Antonio Carlos Castejón, de uma série de imagens criadas com efeitos e que ampliam as possibilidades do olhar, chamada “Dimensões e Abstrações“.

Anúncios

3 pensamentos em “Sexo: vamos de tamatiá!

  1. Clitóris é tudo de bom para o orgasmo.O Clitóris bem estimulado numa relação sexual ou sózinha é bom demais.Para os homens o sexo é mais fácil, o prazer também acho.Mas no clitóris está o gozo gostoso da mulher e aí segue para o gozo vaginal com espasmos deliciosos.Adorei a foto!

  2. P’ra falar a verdade, Lélia, por aí a fora o povo diz é “clítores” ou clítoris”.
    Há muito tempo já nem me dou ao trabalho de tentar corrigir.
    É que é assim que evoluem as línguas: na basa do Vox populi, vox Dei.
    Aliás, pensando nisso agorinha mesmo, levantei e fui consultar o Dicionário Houaiss da Língua portuguesa..e… adivinhe! “clítoris” está lá, escritinho assim mesmo!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s