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Eye-of-the-Tiger_Benoit-Mars

Uma amiga me conta que uma moça que trabalha com ela tinha grande admiração pela Madona em sua adolescência, mas que hoje a via como uma paródia de si mesma.
 
Adorei a expressão. Fala com exatidão sobre o estado atual da grande maioria de pseudos enxutos e enxutas dos dias de hoje.
 
É claro que há aqueles que são beneficiados por uma genética extremamente generosa. Demoram bem mais que os simples mortais para mostrarem no corpo e no rosto a passagem do tempo. Mas a grande maioria não escapa das rugas, gorduras localizadas, cabelos brancos.
 
E há as “Madonas” da vida que puxam aqui e ali, usam e abusam do botox, dos preenchimentos, dos apliques, e quando são entrevistadas dizem que são totalmente contra plásticas e que nunca fizeram uso dessas manobras rejuvenescedoras, a não ser “pequenas intervenções”.
 
Convido vocês a imaginarem uma mulher de meia idade, no sábado de manhã, deitada na cama, na grama de algum parque público ou sentada em algum café do bairro. Folheando revistas, ela passa a ter na frente de seus olhos a imagem de alguma dessas mulheres “naturalmente” jovens. É assim que se abre a porta do Inferno! Sim, porque é inevitável que essa mulher não sobreponha à imagem daquelas “beldades eternas” seu próprio corpo e rosto de mulher marcada pela vida. Comparação feita, resultado previsível: perde de goleada.
 
Nessas horas fico pensando que os adultos também precisam de lendas, de histórias fantásticas em que os heróis nunca adoecem, envelhecem ou morrem.
 
 Só pode ser por esse motivo que paralisam sua capacidade reflexiva e embarcam na magia das fotos e das faces retocadas.
 
Só pode ser por esse motivo que não se lembram de que mesmo aquelas “menos retocadas” têm em sua “eterna juventude” o seu ganha pão e que por isso despendem horas e horas em academias, clínicas estéticas, cabeleireiros, não tendo que conciliar agendas lotadas de trabalho onde outros atributos são os exigidos. Mas que, mesmo essas, um dia envelhecerão e seguirão o mesmo destino de todos nós mortais.
 
Se tem algo que alguém de 50, um pouco mais, um pouco menos, já pode ter certeza é sobre a sua própria mortalidade. Nada há a fazer a respeito, a não ser aceitar esta condição, sobre a qual certamente não nos consultaram.
Só assim o repudio às marcas do tempo em nossos corpos deixarão de nos assustar, obrigando-nos a querer apagá-los.
 
O preço que se paga para a manutenção dessa fantasia de eterna juventude é muito alto.
 
Quem ganha é todo aquele que vende a ilusão de que ela é possível.
Quem perde é aquele ou aquela que gasta o tempo que ainda resta correndo atrás dessa quimera.
 
Perde também aquele ou aquela que se despe do direito de se sentir bem com o rosto e o corpo esculpido pelo tempo e desce do “bonde chamado desejo” muito antes do ponto final.
 
Um corpo, um rosto, serão sempre a roupagem de uma alma que ama, que quer ser amada, que guarda histórias e quer passá-las adiante, que ainda vibra quando tocada, que ainda brilha quando bem acompanhada.
 
Nós de 50, um pouco mais, um pouco menos, precisamos estar atentos para  não permitir que nos roubem esse direito de ainda estarmos na vida, participando dela do começo ao fim, nos lambuzando de tudo o que ela nos oferece. Precisamos estar atentos para nos orgulharmos pelo fato de que por termos vivido mais, aprendemos a duras penas a amar de maneira mais generosa, mais livre, mais plena.
 
Faço uma aposta de que as mulheres que realmente se apropriarem de suas histórias, de seus sonhos, de seus desejos e levarem a vida de maneira apaixonada não se mostrarão mulheres tristes. Muito pelo contrário, ofuscarão com sua alegria desavergonhada qualquer rosto liso e impedido de rir.
 
Honremos a beleza de vivermos nosso presente.

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A foto, com o nome estranho, Eye of the tiger, o olho do tigre,  é de Benoît Mars

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3 pensamentos em “Cara a cara, sem retoques

  1. Pingback: A última graça de Jane Fonda | Fifties

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