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Os adolescentes andam em várias cenas no cinema. Um jovem cineasta paulistano trata dos sentimentos intensos dessa fase da vida no filme Os Famosos, parte da 33ª Mostra Internacional de Cinema na capital paulistana. Os mesmos sentimentos estão na base de A Onda, filme alemão de 2008 em exibição agora, apoiado em livro do mesmo nome.

Consta que o livro, sucesso há 20 anos, tem fonte em uma história real ocorrida em 1967, na Califórnia, quando um professor de história tentava explicar o nazismo a alunos de ensino médio. Na vida real e no filme, uma experiência pedagógica criativa ganhou dimensões de arrepiar por conta de vaidades, carências e buscas de sentido para a vida — o que ronda a existência de todos não apenas na fase em que se é jovem.

A atualidade de A Onda é que incomoda, ao partir de um sentimento que parece natural e global. Um certo tédio que leva as pessoas a topar qualquer coisa para escapar das mesmices da vida. Bons exemplos estão em vídeos que circulam pela rede mostrando, em uma estação de trem e em uma praça, gente dançando e cantando em resposta a um estímulo bem armado. É realmente animador. No meio do rush, uma música começa a tocar, um grupo começa a dançar e, em minutos, as pessoas largam suas bolsas, casacos, sacolas e se entregam ao momento de união e diversão.

O mundo só precisa mesmo de uma boa desculpa para se encontrar – para o bem que acaba mal ou para o mal que pode acabar bem.

A questão está na facilidade de se entrar em uma onda, principalmente quando se é um estudante ávido por compreender o mundo, como no filme. Nessa fase, ideologias de todas as direções podem entrar na cabeça sem ponderações ou nuances. O que atrai é a possibilidade de se engajar, pertencer a algo, ganhar uma identidade. E bastam desculpas ou propósitos bem fundamentados, como contribuir para um mundo melhor, eliminar as injustiças e desigualdades, para a maioria dos jovens em cena caírem feito patos na história.

Inocentes, coitadinhos? Nada disso. Tudo é devidamente dito, combinado, proposto, aceito. Responsabilidades compartilhadas. Ninguém conta, no entanto, com as motivações subjetivas, às vezes inconscientes, das pessoas. É nesse ponto que as causas podem desandar. No filme, a Onda desanda por conta, principalmente, de um jovenzinho que tem grande necessidade de agradar para ser aceito. À medida que os agrados compensam, ele experimenta a sensação de poder, e não quer mais nada da vida. É o boi cego e doente de uma manada míope, sem crítica.

Há outros aspectos no filme e na vida a considerar, mas a questão do poder é fatal. Sobre o tema, lembro de um vídeo que mostra uma aula sobre religiões. Um aluno pergunta ao professor se existe algum povo que não acredita em Deus. “É impossível”, diz o mestre. Como assim? Qualquer criança, em qualquer cultura, brinca com essa idéia sem que ninguém precise lhe ensinar. A idéia de Deus se expressa desde cedo no garotinho ou garotinha que usa seu brinquedo para criar um todo-poderoso-salvador-da-pátria. Está dentro de nós. Dependendo da onda, é só voltar a brincar…

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11 pensamentos em “A onda que causa arrepios

  1. Gostei muito de A Onda e do seu post, mas tenho algumas considerações a fazer.
    A primeira delas, é que quase todo mundo se emociona com as demonstrações coletivas, como as citadas na estação de trem e na praça. Na maioria das vezes chegam a ser confundidas com atos de solidariedade, mas serão mesmo?
    Tudo me faz lembrar de que há pouca diferença entre o animal-homem e os demais animais, quase nenhuma com os macacos. Isso explica as reações a que vc se refere nos eventos coletivos. Isto é, basta um macaco fazer micagem que os demais correm a imitá-lo.
    Não concorda? Então por que o animal-homem gosta de viver em bandos, persegue e ataca os mais fracos para se dar bem nos negócios (luta pela sobrevivência), se empavona e desafia iguais para conquistar o sexo oposto (luta pela perpetuação da espécie) e assim por diante? Poderia ficar descrevendo várias características do animal-homem que o identificam como um animal comum, mas vamos ao filme.
    A questão central tanto do livro como do filme é a facilidade com que os alunos da escola se envolvem, se motivam e ultrapassam os limites sociais a partir de umas regras básicas animais, como por exemplo, “juntos somos fortes” e “quem não é igual a mim, é uma ameaça”.
    Vc tem razão dizendo “tudo isso está dentro de nós”, só que não é, nem nunca foi, um brinquedo. É nosso instinto animal, que tentamos controlar com leis, divinas ou simplesmente humanas, mas que volta e meia perdemos o controle. Quanto maior o controle, maior o risco de perdê-lo, e aí a irracionalidade toma conta, a onda cresce e pode virar tsunami.

  2. Embora tenha interesse teórico pelo nazismo e suas expressões políticas, confesso que o Nazismo, em si, me dá arrepios.
    Provavelmente por meu pai – então liderança estudantil contra a Ditadura Vargas nas Arcadas, ter sido convocado “de castigo” (tinha 22 anos e não tinha prestado serviço militar) para a Guerra (como sew servir a seu país em estado de Guerra pudesse ser castigo), tendo partido para a Itália no primeiro navio noramericano, o Gal. Mann, e lá, operado como desarmador de minas no front do teatro de guerra.
    Caso alguém se interesse, um brasilianista escreveu sobre o assunto, colocando meu pai com a dúbia honra de ser um dos protagonistas centrais de alguns capítulos: “A Faculdade de Direito de São Paulo: a Resistência Anti-Vargas”, de John W. Foster Dulles, Ed. Nova Fronteira e Edusp, 1984.

    Não me é muito agradável a idéia de Nazismo, conquanto eu goste de estudar teorias políticas em geral, de forma que acho eu não irei ver esse filme, não.

    Mas é admirável o quanto a Lélia escreve bem!

    A respeito da “resposta a um estímulo”, certa vez, ainda estudante, o trânsito parou na Augusta, entre Paulista e a Al. Santos, nos dois sentidos.
    Em pouco tempo, um monte de aml-humorados buzinavam disparatada e irracionalmente.
    Comecei a buzinar em rítmo de samba e, para minha surpresa, em minutos a rua inteira buzinava e batucava nos tetos dos carros, seguindo-se uma saída á rua para sambar, todo mundo rindo feito idiotas.
    Uma situação de reação coletiva inesperada das, senão ‘a”, mais gratificantes.

  3. Beto, essas manifestações que aparecem em videos na internet, em estação de trem e na rua, não são atos de solideriedade, mas de marketing mesmo. Mas salta aos olhos a vontade das pessoas por um coletivo, por uma causa comum. Pode ser ótimo, mas aí também pode morar a onda que dá arrepios… Quanto aos macacos, no meu caso macacas, fica aqui registrado que não tenho semelhança alguma com elas a não ser gostar de bananas.

  4. Geraldo, gostei dos comentários e, claro, do elogio, obrigada. Adoro filmes de guerra, mas acho que é castigo, sim, ter de cair no meio desse “fogo”. Em defesa da pátria, me vejo entrando numa dessas se for para cuidar de feridos como Hemingway… E apareça mais vezes aqui no Fifties.

  5. Acho que, especialmente, o ambiente universitário americano é bastante propício a este tipo de manifestação coletiva, como a do filme.
    São inúmeros os outros filmes que mostram como os jovens americanos perseguem (ou são perseguidos) os (por) estereótipos, que podem gerar afirmação, autoestima e aceitação, de um lado, ou grandes aborrecimentos, do outro.
    Papéis como o capitão do time, a “cheerleader”, os “nerds”, a gostosa, a gorda e tantos outros ou são buscados com afinco ou são imputados à revelia.
    Em ambos os casos, o que está por trás é a necessidade de aprovação do grupo que cada um deles escolheu, sem a qual não se tem uma identidade e, exagerando, uma razão para seguir vivendo.
    Creio que uma experiência deste tipo teria desdobramentos muito diferentes em uma universidade brasileira, o que, talvez, deixe um pouco mais longe esta nossa herança primata e nos faça pensar no padrão que as culturas de cada país imprimem em seus cidadãos.
    Parece que o nazismo na Alemanha foi um modelo muito real do ponto a que isto pode chegar.

  6. Um exemplo dessa Onda me parece essa história que aconteceu, nestes dias, numa faculdade de são paulo, onde uma menina que foi de mini saia na aula, precisou sair escoltada para não ser linchada. Concordo com o Beto quando ele diz que quanto maior o controle, maior o risco de perde-lo. Hoje em dia os jóvens estão sendo muito controlados pelos pais, e seus celulares, pela escola e pela sociedade que deseja que eles amadureçam rapidamente para não perder o pé na correria do progresso.

  7. E vocês viram o tamanho da minissaia dela? Nada de tão mini, até bem compridinha… O que a turma não estava aguentando mesmo era postura mais independente da moça.

  8. Lélia, Teremos, por coincidência, uma semana “Fascista”! Aguarde meu post.
    Ainda não vi o filme, mas vou ver, pela sua visão e descrição. Concordo com o Bo. Por razões culturais, a Onda aqui não pegaria. Não temos ideologia… mas temos instintos (de bicho preguiça)!

  9. Pingback: Fio Do Bigode - Opiniões livres, honestas, mas não isentas. » Fascista, eu? Ou tu?

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