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Na série “Joga-Pedra-Na-Geni”, sempre tem episódio novo. Quando eu tinha 20 anos, Doca Street assassinou a amante Ângela Diniz, a “Pantera de Minas”, e foi inocentado no primeiro julgamento sob o argumento da defesa da honra, pois teria sido traído. A população reagiu e em novo julgamento ele foi preso, condenado por homicídio. Agora passei dos 50 e vem à tona mais um capítulo da série na saia curta que fez a estudante de turismo Geisy Arruda ser hostilizada e agredida pelos colegas na Uniban, em São Paulo, há algumas semanas.

A saia curta anda provocando saia justa nas rodas de conversas. Não há quem não condene o comportamento dos jovens que a insultaram, assim como a insanidade da Uniban, a instituição educacional que demonstrou não entender nada de educação. O problema é que a condenação vem acompanhada do mesmo machismo moralista que provocou a situação. Muitos, homens e mulheres, não resistem ao comentário: “Mas a moça também não tinha noção, aquela roupa… também tá na cara, é só ver o tipo… não que isso justifique a coisa, mas era evidente…”

Os dois lados erraram, entendem esses “ponderados” interlocutores. E simplesmente não entra na cabeça deles que os tais dois lados não se equivalem na história. O look moça insinuante, ar erótico, roupa provocante simplesmente não pode ser sinônimo de possibilidade de agressão, desrespeito, preconceito. A mesma “ponderação” deve ter motivado, tempos atrás, aqueles garotos de classe média carioca a bater em uma mulher, empregada doméstica, que esperava à noite seu ônibus depois de deixar o trabalho. E a garota que assassinou os pais em São Paulo com a ajuda do namorado e seu irmão? Teve gente que “pressentiu” que ela estava envolvida no crime ao vê-la com “aquela roupinha, barriga de fora, calça baixa” no enterro da família.

O ponto que amarra essas manifestações não é mesmo a figura da Geni? E a Geni, como canta o Chico Buarque, é boa de cuspir! Ela “pede” pra ser maltratada, chama a si a maldade, perversidade, o preconceito. Assim como o gay, o negro, o pobre, os excluídos e minorias em geral.

E é ainda mais surpreendente ouvir comentários do gênero em ambientes educados. Falta educação?

Talvez um mérito de acontecimentos como esses seja o de tirar do armário o machismo que só espera oportunidade para se manifestar. Fala-se, discute-se, e isso é bom. Igualmente positivo é que certos dados vêm à tona:

A proporção de mulheres que frequentam a escola no Brasil é maior que a dos homens em todos os níveis de ensino, superior inclusive. As mulheres apresentam melhor desempenho e frequência (UNIFEM – Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher no Brasil)

Mas…

Apenas 11, 5% das 500 maiores empresas brasileiras são dirigidas por mulheres e menos de 1% por executiva negra (Perfil Social, Racial e de Gênero das 500 maiores empresas do Brasil 2009)

O que acontece com a educação?

A Suécia, país com cerca de 9 milhões de habitantes, supera EUA, França, Japão e Itália no investimento em educação. A taxa de analfabetismo lá é menor que 5% (dado de 2002). Mas veja o que jornalista sueco Stieg Larsson, um militante dos direitos humanos, registra sobre as suecas em “Os homens que não amavam as mulheres”, primeiro volume de sua trilogia Millennium:

18% das mulheres foram ameaçadas por um homem pelo menos 1 vez na vida
40% das mulheres sofreram violência de um homem
13% das mulheres foram vítimas de violências sexuais cometidas fora de uma relação sexual
92% das mulheres que sofreram violências sexuais após uma agressão não apresentaram queixa à polícia

Ao comentar o fato com um amigo, ouvi: “Ah, não dá para confiar em estatística na Suécia. Os caras perguntam se a mulher já tomou um empurrão, levou um tapinha e aí aparece na estatística como mulher que apanha do marido”.

Ah, então tá… Será que vale para todas as estatísticas num dos países mais desenvolvidos do mundo?

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A foto da saia curta é do photostream de Crest of the Wave, no Creative Commons do Flickr

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5 pensamentos em “De saias curtas e justas

  1. Quando uma vez contaram para mim que o marido de uma conhecida tinha uma amante, o único comentário que fizeram foi: Também, feia como ela é, ele só poderia ter uma amante
    mesmo!…

  2. Não é incrível? E a gente tende a achar que com educação tudo poderia ser melhor, mas parece que não é o X da questão, pelo menos não único X. Vai ver no terreno do Freud tenha outra parte da resposta.

  3. As estatísticas impressionam, de fato. Não há como não ficar surpreso com esses números na Suécia.
    Na realidade o assunto merece outros posts.

  4. Lélia,
    Fiz um levantamento, em decorrência do qual faço uma sugestão. Talvez você ache interessante.

    Na Europa existe uma entidade denominada European Professional Women Network – EPWN.
    http://www.europeanpwn.net/

    Segundo estudo da EPWN a presença de mulheres nos Conselhos de Administração diminui de norte para sul no continente: a porcentagem atinge o máximo na Noruega (22%), Suécia (20%) e Finlândia (14%). Cai para 10% na Alemanha e no Reino Unido e para 7% na Holanda e na França. Na Espanha, apenas 4%, nas empresas cotadas em Bolsa.

    A EPWN promove pela Europa ações visando até mesmo estabelecimento de cotas legais para mulheres, não só para funções legislativas, mas também para funções no Conselho das empresas cotadas em Bolsa.
    Agora já se obteve Leis da espécie na Noruega, onde 40% das funções legislativas DEVEM ser exercidas por mulheres.
    Aqui, há cândida cota de 20% para CANDIDATURAS femininas.
    Lá a cota é para DEPUTADAS E SENADORAS. Dane-se se os homens foram mais votados/ 40% das vagas são femininas, e ponto final: É só criar a fórmula matemática.
    E também no Conselho de Empresas cotadas em Bolsa a Lei norueguesaagora exige 40% de mulheres.

    Como se vê, exceto na Noruega, na Europa a coisa não é tão boa assim.

    Uma sugestão seria criar uma EPWN Ameríbera. ONG capaz de pressionar o Legislativo, o Ministério do Trabalho, etc.

    Digo Ameríbera, e não latino – americana, porque não somos verdadeiramente latinos por aqui.

    O que nos une de fato é a América; e, na origem, a península Ibérica. Roma fica muito longe; ninguém mais sabe Latim – e tem até quem pense que isso é forma de comunicação canina…; e, portunhol pra cá, espangues pra lá, a gente se vira, né?

  5. Pingback: Acerte no sapato | Fifties

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