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Por_ Lélia A.

O único link deste post com os 50 é o fato de a mulher protagonista da história que conto adiante estar nos fifties. De resto, o tema não tem idade, porque tem a ver com civilidades.

A nossa fifties caminhava na praça com seu cachorro e catou o cocô do bicho. Ainda bem, porque muitos ainda não assimilaram o hábito. Gente como eu, que às vezes (verdade, só às vezes mesmo!) ainda esquece o saquinho e faz cara de paisagem diante do inevitável. Ou cara de muito atarefada, pessoa que compreensivelmente pode esquecer um detalhe desses na vida.

Bem, o fato é que ela está lá, passeando, e leva seu saquinho na mão para catar o cocô cidadão. Mas não faz isso, assim, sem mais nem menos. Embora o cão não selecione a melhor oportunidade para dar a “marcada” no território, a dona espera o melhor ângulo social para recolher o dejeto, atenta ao movimento rotatório na praça. Quanto mais gente passar ali no pedaço, na hora, mais alta a sua satisfação pelo reconhecimento do ato cidadão.

E ela não se inclina em direção ao alvo, assim, descuidadamente. Monta a cena quase com solenidade. Empunha o saquinho muito séria e abaixa-se como recomendam as boas regras ortopédicas para evitar uma travada de coluna: primeiro curva os joelhos, depois se agacha meio de ladinho, um jeito mais delicado e, finalmente, estica a mão que ensaca o cocô. Na sequência, dá o nó no saco e caminha resoluta para a lata de lixo mais próxima. Não ganha elogios, mas adoraria. E segue feliz da vida pelo dever exemplarmente cumprido. Ela não é qualquer uma. É cidadã valorosa!

Ela estava visivelmente feliz, o cachorro, evidente, nem aí. Eu achei graça, mas com certa tristeza. Que miséria de cidadania temos para alguém se sentir tão orgulhoso por catar um cocô?

Deve ser a mesma carência cidadã daquele motorista que passa na estrada quase parando em frente ao posto policial. Ele parece suplicar o olhar e o sinal do guarda para fazê-lo parar. Está doidinho para mostrar, cheio de orgulho, que tem todos os documentos em ordem, o carro perfeito, tudo na medida. E,uau!, ouvir aquele “muito bem, o senhor pode seguir”.

Não quero denegrir os bons hábitos desses indivíduos, mas eles não são o outro lado da moeda (o lado oposto de quem detona, agride) como expressão da falta de cidadania? Precisariam se sentir tão especiais se recebessem o devido respeito por seus direitos?

Minha intuição diz que não. Por se sentirem tão invisíveis e desprezados no espaço social, a coleta do cocô ou a exibição do documento parecem funcionar como o pedido patético de reconhecimento de valores que andam muito derrotados. E esses personagens habitam certamente os andares superiores da pirâmide. Na base e até fora dela, cidadania é coisa que está abaixo do cocô do cavalo do bandido. É o povo que nem se dá conta de cocô de cachorro. Para eles, é só mais uma merda. Se o Lula diz, também digo.

A foto No pooping! é de Johannal, no Flickr.

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14 pensamentos em “Se o Lula diz, também digo

  1. Lélia,
    adorei teu post! Só vou levantar mais um aspecto que pode ser relevante. Acho que este anuncio barulhento do cumprimento da cidadania passa também por pessoas que, apesar de já bem grandinhas, ainda se comportam como crianças que pedem aplausos do papai e da mamãe.
    Não se sentem adultas o suficiente para legitimarem suas proprias ações. Ainda há procuram no brilho do olhar de um outro.

  2. Falou e disse! Não me ocorreu esse lado, mas é exatamente isso também. Eles pedem aplausos do papai e da mamãe. Talvez falte a eles umas belas ressacas, é ou não é?

  3. Ok, gente. A próxima vez que encontrar a moça catando o cocô cidadão, ela vai ganhar um elogio pelo “extra”. E serão dois elogios se ela estiver com um saquinho “extra” — para o caso de eu ter, de novo, esquecido de levar o meu. É um esforço mesmo!

  4. Nos tempos de hoje, costuma-se admirar quem chega na hora certa nos encontros, quem não rouba no trabalho, quem cumpre os horários e entrega os serviços na hora certa. Tudo aquilo que deveria ser normal. Porque não querer ,então, um elogio quando se está fazendo um “extra”?

  5. Onde leis não são cumpridas, o espaço publico não é visto como de todos, concessões difilcilmente são por mérito, mas por apadrinhamentos, propinas correm soltas, e tudo que conhecemos de falta de civilidade e ética, os que agem de maneira correta e civilizada são taxados de trouxas ou babacas. Aqui não é a Suécia não!!!! Imagine nossos onibus sem cobradores ; falencia antes do primeiro mes!
    Não precisa de aplausos essa minoria ” babaca”, mas certamente de vaias , a “esperta”maioria.

  6. Cidadania no Brasil é artigo escasso. Tão escasso que a TV Globo se arvora em empresa cidadã, só porque faz anúncios babacas com aquele sujeito que nem sabe falar e que atende por Serginho Groisman. Fala umas bobagens, que a TV acha que vai ensinar o povo a virar cidadão e aí termina: “Cidadania, a gente vê por aqui!”
    Se a Globo fala M…, o Lula também pode!

  7. Acho que a “cidadã” do exemplo acima não esta necessariamente pedindo reconhecimento, pode estar apenas (e “superiormente” ) dando exemplo comportamental ao povo. Daí a necessidade da platéia.
    Mais preocupante do que discutir o baixo “grau” de cidadania do povo, qualquer que seja a classe social, é constatar que nossos exemplares governantes, administradores e “formadores de opinião” são os primeiros a dar o mau exemplo.

  8. Lélia, embora o assunto de ‘base’ não seja lá muito agradável, afinal ‘cocô de cachorro’, que prazer ler um post tão bem escrito e sobretudo, tão bem pensado! Muito bom!

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