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Flying de Alberto P Veiga

Se um dia, por preguiça, cansaço ou falta de brio me faltar o espírito de Natal, sei bem onde vou buscá-lo. É lá no terminal de chegadas do aeroporto que ele fica zanzando tenho certeza, ao menos agora, antes do Natal, que no resto do ano talvez um espírito assim fugidio durma sua inconveniente presença no cotidiano afobado das gentes.

Qualquer aeroporto serve, basta que saiam em ondas por aquela porta automática homens, mulheres, crianças, jovens, velhos, de todas os jeitos, tamanhos e coloridos que tenham passado  as últimas horas suspensos no ar tentando voltar para casa, porque é Natal, afinal!

Basta que existam os abraços. Basta que a mala perdida, a nevasca, os atrasos, a espera, as prestações, o esforço, o cansaço, sejam só assuntos para quando a gente chegar em casa, porque é Natal e é para casa que estamos indo…

Basta que exista esse vínculo, ‘deixa eu ver se você está com a carinha boa’, ‘pára, mãe!’, ´humm, não anda comendo direito, né?’, esse chamamento imperioso para além do desejo, da vontade ou da sensatez, que nos faz pegar a mala e partir, porque é Natal, e Natal a gente passa junto de quem ama, em casa…

Num certo dia 22 de dezembro, eu voltava dos Estados Unidos com três dos meus filhos, pequeninos, impacientes, ‘agora, apertem os cintos’, ‘fiquem olhando para ver quando nossa casa aparece lá embaixo’, o resto da família no terminal, esperando…voávamos, carregados pela saudade… tentando voltar para casa. Nunca vi um vôo como aquele, avião com jeito de vagão de metrô, lotado de gente tão diferente, nada a ver com os turistas de hábito, nada de máquinas fotográficas que é para casa que a gente volta e a gente conhece nossa casa de cor. Conhecer de cor é, etimologicamente falando, conhecer com o coração, as palavras surpreendem, parece que adivinham…

Que vôo estranho! Lá pelas tantas, estavam todos os passageiros uns já de pé, conversando, animados, contando das lonjuras, do exílio, da família, do Natal, das esperas, da vida, velhos amigos de todas as cores, compartilhando dessa intimidade abusada que nasce naquelas situações de fronteira, quando a vida abre um parênteses, quando a gente de fato comunga da nossa humanidade…amanhã ninguém sabe, nem Deus, que às vezes se distrai, a gente entende e perdoa, mas hoje o coração transborda de saudade, inunda tudo, lambuza o outro de um amor ampliado, amor à flor da pele, de novo as palavras adivinhas, flor, pele;  ‘mãe é a nossa casa lá embaixo agora?’, ‘todas as casas hoje parecem nossas, filho’; hoje, que estamos todos voltando para casa!

E quem se importa se o bacalhau ficou salgado, se o tio bebeu demais, se as primas sempre brigam; nem faz mal que tudo pareça excessivo, teatral, careta. Chegar em casa é afirmar nosso pertencimento, é expressar nossa fé numa felicidade que passa bem longe dos pacotes de presentes e dos shoppings lotados, feita de laços, de vínculos, de afetos…

A casa é o colo da nossa alma. É para lá que a gente volta. É para lá que deve estar indo agora mesmo o espírito de Natal.

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A foto, com ocomentário, ‘nunca deixo de me encantar com a beleza de voar’, é de Alberto P. Veiga, do Flickr

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4 pensamentos em “Voltando para casa

  1. Di querida,
    só mesmo vc, que cultiva fadas e duendes no teu jardim encantado, para descrever com tanta magia o espirito do Natal!
    Tenho certeza que hoje ele se sentará na ponta da tua mesa grande e acolhedora para tornar mais acolhedor e magico o teu Natal!
    Grande beijo,

  2. Obrigada pelas palavras que você sabe encadear tão lindas.
    Pelo espirito que você mantem sempre atento.
    Pela conciliação.

    beijo
    e feliz natal para todos

  3. Mandou bem!
    Nós, “mães dos filhos que vem de longe”, sabemos bem a alegria que esta volta nos traz.
    E VIVA O NATAL, afinal sem ele não teríamos tão bela razão.
    Beijos carinhosos

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