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Por Regina Amaral

Chimamanda Ngozi Adichie, escritora africana, nascida em 1977.

Ela é jovem, muito jovem.

Mas fala do lugar de alguém que viveu tudo.

Não pessoalmente. Porque, na verdade, não tem idade para ter vivido a guerra sobre a qual escreve. Mas talvez a tenha conhecido por trazê-la impressa em seu DNA, ou através das historias que ouvia da boca dos adultos que a viveram na carne e nos ossos. E profundamente em seus corações.

Meio sol amarelo livro por ela escrito conta uma história dura e sangrenta, sem que a autora tome partido de um lado ou do outro nela envolvido. Ao contrário, constrói sua narrativa buscando retratar todos os lados desta guerra tribal travada entre as etnias tutsis e hutus na região da Nigéria e  Biafra.

Acho que é um dos livros mais tristes que já li, talvez porque o relato dos acontecimentos seja feito de maneira encarnada, apoiado em vidas e experiências reais extremamente dolorosas. Mas o que mais nos toca é ver que, em meio a situações extremas de violência e animalidade, a dignidade dos personagens é mantida, bem como seus projetos e sonhos.

Talvez a mesma dignidade que se percebe nesta jovem autora ao assistirmos o vídeo acima. Ele não é especificamente sobre seu livro Meio sol amarelo. Na verdade, ela nem o cita. Entretanto, versa sobre sua maneira de fazer um giro de 360 graus sobre o que vê, suportando as diversas facetas do visto, sem buscar simplificá-lo, recortando-o e fazendo desaparecer as perspectivas dissonantes. 

Não é fácil o que ela nos propõe. Demanda de quem vê a coragem de aceitar o humano de maneira integral e por isto não tomar partido.

Demanda a sabedoria de reconhecer que todas as histórias são feitas de muitas verdades, e se uma delas se sobrepõe é porque está sendo proferida por alguém que, pelo menos momentaneamente, está num lugar de maior poder. Dizendo sobre isto ela nos convida a rir, quando nos conta que ela, escritora negra, só criava personagens loiros e de olhos azuis.

Nos alerta para o fato de que se alguma coisa for dita inúmeras vezes, ela se tornará verdade e as outras perspectivas sobre o mesmo fato se apagarão.

Reproduzo aqui suas palavras porque há nelas poesia e convicção:

“Uma historia cria estereótipos. E o problema com estereótipos não é que eles sejam mentiras, mas que eles são incompletos. Eles fazem uma historia tornar-se a única historia. Como conseqüência, esta historia acabará por roubar a dignidade das pessoas e dificultar o reconhecimento de nossa humanidade compartilhada, enfatizando como as pessoas são diferentes, ao invés de como são semelhantes.”

Talvez nós de cinqüenta, um pouco mais, um pouco menos, tenhamos mais possibilidade de conquistar o que nos diz esta jovem e rara mulher. Afinal vivemos mais e, por isto mesmo, sabemos da necessidade de nos desapegar das verdades simplistas e apaziguadoras.

A vida é rica, suas tramas são tecidas por inúmeros fios, seus nós não são fáceis de serem desfeitos. Sustentar esta riqueza não é tarefa pequena, mas talvez seja o destino de nós humanos.

Como diz ainda Chimamanda: “Quando rejeitamos uma única historia, quando percebemos que nunca há apenas uma historia sobre alguém ou algum lugar, nós reconquistamos uma espécie de paraíso.”

Que neste ano que agora se inicia nós possamos ter tempo suficiente para refletir sobre as inúmeras versões da vida, e que principalmente, sejamos capazes de sustentá-las como um leque aberto, resistindo à tentação de fechá-lo, cientes de que assim estaremos honrando a grandeza e a riqueza da vida que compartilhamos.

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Regina Amaral é psicanalista, trabalha com palavras e ama o silêncio. É autora do livro Aprendendo a dançar (Entre a forma e o devir), da editora Anna Blume

O vídeo faz parte do acervo do site da TED, Ideas Worth Spreading, e foi utilizado sob licença de Creative Commons

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3 pensamentos em “O perigo de uma única versão

  1. Regina,
    Gostei muito, primeiro por lembrar de minha chegada na Nigéria há 30 anos atrás, conhecendo apenas um lado da história e achando que trazia todas as soluções na bagagem. Custei a realizar que a Africa tem mais de 5.000 anos de história e sua própria cultura, muito rica e muito diferente de nossa cultura ocidental… Só depois disso pude coomprender onde estava …
    Gostei mais ainda por que seu alerta acontece num momento muito particular nesse país, em qua há apenas a versão de uma só pessoa prevalecendo sobre tudo e todos.

    E, principalmente, que seu alerta norteie nossa percepção, libertando-nos dos preconceitos e falsas verdades estabelecidas.
    Caio

  2. Querida Regina,
    Tomar partido é nos tornarmos palavras, sairmos de nosso centro ao encontro da “pessoinha que tudo sabe”, porém tampouco vê o tamanho de seu despeito!
    Belo enredo para refletirmos nossas falhas! Obrigada Regina, gostei muito do contexto.
    Voltarei outras vezes ao seu blog.
    Beijos
    Angela.

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