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Harrods-Snowday-London by drewleavy

Por Adília Belotti

Devia fazer uns  5 minutos que ela girava na porta, entrando e saindo, sem conseguir decidir-se: ficar ou ir? O que é que tinha vindo fazer ali afinal? Era um batom que vinha comprar? Ou um perfume? Tentou lembrar: precisava mesmo de um batom? De perfumes ela sempre precisava, costumava dizer que não tinha sofisticações, apenas o gosto (que estranha misturança de sentidos!) pelos bons perfumes…

OK, a situação começava a ficar horrível! Uma parte do cérebro colava na sensação de que alguém com certeza viria reclamar ‘isto não é um lugar para brincadeiras’, ‘você está atrapalhando o bom andamento da porta giratória’, ‘é maluca, hein?” Ela odiava a possibilidade de ser abordada em geral, de ser pega fazendo alguma coisa errada em particular. Vai saber por que: nada era pior do que o olhar duro ‘dos outros’, a avó sempre dizia. Tinha uma história: o avô fazendeiro falira. A avó, de repente,  assumira o serviço pesado da casa. As mãos de menina custaram a se acostumar, sangravam às vezes. Mas todos os dias, quando chegava perto da hora do trem passar, ela corria para o alpendre e sentava-se na cadeira de balanço, um livro no colo. A própria imagem da mais elegante compostura. Sobretudo não perder jamais a tal compostura. Ainda mais ali, numa terra que nem era a sua. Ridícula a última frase, aquilo era Londres, aquela era a porta giratória da Harrods e ela era ou costumava ser uma mulher perfeitamente adequada para ambientes assim. A não ser pelo fato de que hoje não conseguia parar de girar.

Com certeza iam pensar que ela tinha algum problema, ia acabar numa camisa de força, se não conseguisse decidir-se: entrar ou sair? Pensou no espanto do marido: ‘sim, sim, sua mulher foi trazida hoje à tarde, não, não, é do tipo manso, biruta total, mas mansa, ah, sim, obrigado, vou já…mansa o senhor disse?’

Vagara pelas ruas geladas desde de manhã. Nada de galerias hoje, nada de museus, apenas andar, sentir o vento congelar a ponta do nariz. Sempre gostara das margens dos rios, ‘go with the flow’, dizia a placa anunciando os passeios de barco pelo Tâmisa. Fluir, só na primavera e olhe lá. O filho sempre reclamava do tempo. Onde ela tinha lido isso, que falar do tempo era coisa tão inglesa?…sim, na palestra da escritora africana, que dizia: ‘ninguém fala do tempo na África porque não há necessidade’. No Brasil também não se fala do tempo, só das tragédias que o tempo traz…

Era um batom ou um perfume que tinha vindo comprar? Podia aproveitar, ver se achava uma sapatilha para levar para a filha. E girou na porta, mais uma vez. Caramba, começava a se preocupar, e se fosse um sintoma exótico de alguma doença neurológica? ‘Doutor, não consigo parar de girar!’

Viajava de férias com o marido para visitar o filho e a nora,  férias modo de dizer que ela vivia de férias, mas, sim, sobrava tempo, muito tempo… por que não conseguia parar de entrar e sair da bendita porta giratória da Harrods?

Agora tinha certeza, já via o reflexo do terno preto do segurança no vidro. Ai, Meu Deus, ele vai me prender…’I beg your pardom, madam, posso ajudá-la?’ e sem esperar uma resposta, pegou gentilmente no seu braço e resgatou-a enfim da vertigem do carrossel.

Devidamente depositada na calçada que o gelo cinzento fazia brilhar, uma parte dela se indignava. O moço alto olhou para ela ou através dela: ‘não se preocupe, senhora, muitas pessoas de idade tem medo dessas portas’, e ela viu atônita seu reflexo nas pupilas escuras: a cara simpática de turista, cabelos brancos, óculos modernos, rechonchuda, sim, ombros tímidos, sorriso afável. ‘Posso ajudá-la a chamar um taxi?’ Ela sentiu ganas de chutá-lo, ‘idosa????! medo da porta????????’, justo naquele momento travesso em que flertara com a loucura? Ela, uma mulher sempre tão civilizada?

Chutou a neve com a ponta da bota e virou-se.  Não responder, tinha sido uma vitória afinal!

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A foto da Harrods é de Drewleavy, sob licença de Creative Commons do Flickr

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