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Luxury, Polandeze

Aos 50, um pouco antes, um pouco depois, você abre o armário e sente que já comprou sapatos demais na vida; entre heranças, legados e favoritos, sua casa, de repente, parece cheia demais e os grandes espaços vazios, minimalistas de ‘coisas’, não provocam mais estranheza, ao contrário, acolhem. 

Aos 50, tantas vezes por necessidade, mas muito por prazer, sua alma vai adotando o mote da ‘simplicidade voluntária’: ‘the more I know, the less I need” …

E, melhor, você se descobre definitivamente…tendência!

Os especialistas no mercado do luxo dividem os consumidores geopoliticamente, imaginem: ricos da Europa, Inglaterra, EUA e Escandinávia e ricos do BRIC ou do Oriente Médio.

Em tempos pós-crise, aprendo no último report da revista Luxury Briefing, comprar desbragadamente é muito mal visto entre os ricos do norte do planeta.

Esses consumidores de luxo, “querem seus símbolos, logos e marcas invisíveis e preços justos”, segundo os blogueiros do Future Labs, especializados em tendências nesta área. Querem luxo socialmente responsável e produtos com atestado de origem e ‘boas práticas’ de produção. Consumo de luxo, quando o planeta parece se contorcer e nuvens de sombra cobrem a Europa, rima com consumo consciente.

Aliás, nem falem mais de luxo apenas associado ao consumo. Consumir é só uma das tantas coisas que fazem a gente se sentir especial.
E luxo, ao menos para os verdadeiramente ricos e poderosos, ou seja, os ricos ‘antigos’, ricos chiques, passa cada vez mais longe da exibição de marcas, logos e ostentação e cada vez mais perto não só do consumo consciente, mas ali bem do ladinho do puro prazer.

Ou seja, a menos que você tenha um ‘coração de emergente”, você estará vivendo uma vida luxuosa sempre que achar a maior graça em descobrir o vilarejo da Itália onde vive aquele velhinho que faz o melhor cappuccino do mundo; sempre que cultivar experiências que garantam que na hora H você vai conseguir apreciar devidamente ‘o melhor de qualquer coisa’ e, talvez mais do que tudo, se daqui para frente, em vez de colecionar sapatos, começar a construir uma coleção de experiências singulares e prazeres únicos…seus, sem estrelas, nem anúncios em neon!

Viram? Está na hora de ampliar nossa definição de luxo…

E seguem alguns argumentos a favor desses novos conceitos de luxo que alinhavei em um outro blog, o Toques de Alma, há uns dois anos:

Luxo é…

Ser dono do seu tempo.
Responda rápido: qual é o ritmo da sua vida? Se for como a minha, aposto que as horas e os dias se sucedem no compasso sossegado de… uma descida de montanha-russa! Ou no ritmo sereno do pouso de emergência de um Boeing, no aeroporto de Nova Iorque, com toneladas de neve na pista….e na véspera do Natal! Está certo, exagerei, pode tirar a neve e a véspera do Natal…

Preste atenção em quantas vezes este ano você se surpreendeu pensando: nossa, já é segunda-feira outra vez ou já estamos quase em julho de novo! Não, não são os dias que andam mais curtos ou anarquizando, propositalmente, a ordem cósmica…somos nós que andamos pelo tempo sem perceber, anestesiados por agendas sobrecarregadas, compromissos inadiáveis e metas impossíveis…

Não importa onde você mora ou quantos dígitos tem sua conta bancária, você, tanto quanto qualquer outro, é prisioneiro das miragens da nossa época. Por conta disso, o máximo do luxo, é poder brincar com o tempo. E privilegiados serão os que conseguem organizar suas vidas de modo a usufruir de prazeres excepcionais como acordar sem despertador, acompanhar os filhos enquanto crescem, almoçar sem pressa com bons e velhos amigos, tirar algumas horas por dia para andar vagabundeando pela praia (sim, imagino que alguém dono do seu tempo, vai morar à beira de algum dos mares do planeta) e fazer, literalmente, o tempo parar…

Usufruir do silêncio.
Muitos estudos comprovam o que a gente já sente na prática: nós, habitantes das megalópolis terrenas, estamos ficando surdos. No site de uma ONG americana descubro que mais de 30% das 15 mil células dos meus surrados ouvidos já vão estar perdidas quando surgirem os primeiros sinais de surdez, em geral, zumbidos (tinnitus) e que apenas a exposição regular a sons de 80 decibéis é o suficiente para nos condenar a eterna perplexidade: hein? hein??????????????

Descubro ainda que em um show ou em uma balada o som pode chegar a mais de 110 decibéis. Conselhos? Use protetores de ouvidos, descanse pelo menos um dia depois de uma destas noites de farra auditiva, avisam os especialistas….A Agência Européia para Segurança e Saúde no Trabalho, com o apoio do Parlamento Europeu, criou até um Dia Internacional do Silêncio, o International Noise Awareness Day (a última 4ª. feira de abril)!

O mundo está ficando barulhento e, o que é pior, a gente anda se acostumando com isso. Ficar em silêncio pode ser assustador. Que outra razão existe para tanta gente ir caminhar nos parques com fones nos ouvidos, senão embriagar o cérebro de atordoamento? Outro dia fui passar o final de semana no sítio de uma amiga. À noite, o silêncio era tanto que dava a impressão de que estávamos presos, náufragos, em uma espécie de calmaria cósmica…tudo parado… No futuro, luxo vai ser experimentar, ao menos de vez em quando, silêncios assim tão profundos que façam você imaginar que poderia ouvir a voz de Deus…ou a sua própria voz.

Estar próximo da Natureza.
Lembro que quando assisti aquele filme Bicho de Sete Cabeças, com Rodrigo Santoro no papel de um jovem empurrado para a loucura, a coisa que mais me impressionou foi a falta de beleza em 100% das cenas do filme. O menino se movia em ambientes tão áridos que não era de admirar que os sentimentos das pessoas fossem igualmente duros e ásperos, a alma talvez imite a paisagem. Quando foi a última vez que você esteve próximo à Natureza, em algum lugar realmente selvagem, você lembra? Não valem os parques da cidade, embora, pessoalmente, eu considere um luxo poder caminhar de manhãzinha nas friorentas alamedas do Parque Vila Lobos. A realidade é que vivemos apertados, com os pés no ar, sem contato com a terra e sob um céu em geral pardacento. No futuro, peregrinações a estes santuários sagrados vão ser privilégio de alguns poucos felizardos…absoluto luxo!  

Ser o editor da própria vida.
67% dos brasileiros são analfabetos funcionais segundo o IBOPE. Na prática, isso significa que estas pessoas conseguem ler, mas não chegam a compreender o que lêem e mal e mal conseguem escrever…Agora, dá para imaginar a tragédia que isto significa em um mundo globalizado, movido a Internet, celulares, TVs digitais?

Imagine você tentando achar seus óculos que caíram do avião no meio da selva Amazônica ou procurando “batatas fritas” entre os 150 pratos de um restaurante no interior da China…

Brincadeiras à parte, lembro de um livro de Umberto Eco, Mentiras que parecem verdade, sobre os preconceitos e idéias até mesmo absurdas, quando não perigosamente conformistas, que contaminam os livros didáticos. De fato, compramos mentiras com cara de verdades a cada minuto, o que nos torna a todos, analfabetos funcionais, indefesos e manipuláveis. Cá para nós, em um mundo de reality shows, celebridades instantâneas e fundamentalismos religiosos, as fronteiras entre verdade e mentira ficam imperceptíveis para quem não leva nem mesmo um mapa tosco na mochila. E quando tudo é espetáculo, privilegiados são os que conseguem enxergar além das imagens, dos outdoors, da propaganda…conseguir editar a própria vida é finalmente, o maior dos luxos…

E para você? Luxo é o quê?

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A foto é do photostream de Polandeze, sob licença de Creative Commons do Flickr

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4 pensamentos em “É um luxo!

  1. Não seria o maior luxo arrumar de vez em quando um cérebro para ficar atuando, enquanto a gente senta nessa cadeira de pedra só para ficar contemplando?

  2. Lélia, pensei nisso….essa cadeira de pedra esperando o fogo noturno favorecedor de conversas fiadas intermináveis à luz da Lua é o maior luxo!

  3. Oi Adília, neste exato momento, luxo pra mim foi descobrir o seu blog. Que delícia! Parabéns! Linda reflexão! Eu ainda não cheguei aos 50, mas faço coro aos luxos listados. Beijos. E muito prazer, ainda que online.

  4. Adília adorei o seu blog, pois fala muito do que eu sinto, vivo e penso.Vejo a minha volto o foco das pessoas em valores ligados a consumo,ao urbano e a acumulação. Não consigo ver graça nesse mundo,mas como é difícil estar fora dêle.
    Com parceiros fica mais fácil.Valeu te conhecer mesmo que à distância.
    Beijos
    Vania

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