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Nasceu, de Marcelo Tomiossi

Fui caminhando ao lado da minha filha os últimos passos que faltavam para que entrássemos na maternidade. Meu genro vinha atrás, de moto.

Olhei para ela e disse: Querida, você está entrando filha e vai sair mãe e eu, estou entrando mãe e vou sair avó.

E assim foi, graças a Deus, a todas as deusas.

Começo pelo fim da história, o começo não está mais em minhas mãos. Como no antigo jogo do passa anel, passei para ela o parágrafo e a letra maiúscula.

Olho para ela, acomodada em um sorriso calmo, transbordando leite e ternura. Fez ninho e nele se embola e se abriga meu neto. Olho para ele e vejo muitos traços, origens que desconheço. Sei que estou ali, tateio minha eternidade.

Nossos olhos, os meus e os dela, transbordam rios de água salgada. Na boca, o gosto é doce.

Nunca fomos tão iguais e nossa despedida nunca foi tão intensa.

Minha filha se foi, transformando-se em irmã.

Tornamo-nos cúmplices. Somos as duas guardiãs dos segredos e mistérios do eterno feminino.

Habitamos o continuum do tempo, lugar das mulheres mães que tecem sempre em seu ventre o futuro.

Ela já está mãe, eu vou devagar construindo a avó.

Recolho caretas, sons, sorrisos que sei não são para ninguém, com eles vou desenhando meu neto. A intimidade virá com o tempo.

Espalho fotos dele por todos os cantos, vou me impregnando de sua existência.

Estou por perto, estou sempre a uma certa distância. Não é fácil achar a medida. Nesta peça, sou figurante.

Espero pelo tempo em que seus olhos me verão. Neste momento começará a nossa história, uma avó e seu neto. E todo meu desejo de mostrar a ele o mundo. Mostrar a ele o que faz os meus olhos brilharem. Tomara que ele goste do que vai ver.

Sei que ainda há um tempo de espera para nós dois, o coração tem pressa.

Muitas lembranças me chegam trazendo meus filhos bebês, acomodados em meu peito. Sussurro melodias antigas, acalento a avó, a mãe e o neto.

À medida que os dias passam, vou me dando conta do mundo novamente. Já sinto seu chamado em mim. Me dando conta do tanto que estava mergulhada nesta nova historia. Com alegria, percebo que posso ir, posso voltar. Sou dispensável, com isto ganho asas e vôo livre.

Talvez ser avó seja isto, uma mãe voluntaria, que não trabalha período integral. Confesso que estou gostando do que vejo.

Me sinto feliz e com a sensação de missão cumprida.

Me sinto, mais uma vez, profundamente grata à vida por participar de momentos abençoados como este em que sementes viram gente, filhas se descobrem mães e avós são surpreendidas pela delícia desta nova condição.

Nasceu, por Regina Amaral

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A foto que dá título ao post é de Marcelo Tomiossi, da Edge Photos Adventure, do Flickr, sob licença de Creative Commons

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12 pensamentos em “Nasceu!

  1. Parabéns!

    A você, sua fliha e neto.E que este momento iluminado seja sempre o símbolo da união e do amor entre vocês!

  2. Adília!!! acabo de ler… vc vovó? de Maria? será?
    Que maravilha! amei o que escreveu!

    Feliz dia das mamães para as duas!

    Ceres

  3. Regina, avós não são dispensáveis. NUNCA! Avós são o porto seguro de netos, que cheios dos nhem, nhem, nhens de pais, principamente dos novatos, encontram nos avós os locais e momentos de sanidade.

    Nós já fomos pais, sabemos o quão chatos fomos. Inseguros, metidos e ignorantes. A experiência é uma bênção. Aproveite. Curta muito!

    Avós são a melhor lembrança nos primeiros tempos. Tenha certeza disso.

    Beijos e parabéns a vc e Guto

  4. Ceres, vc é de Marte? Ou de Vênus? O post é da Regina, o neto é da Regina e seu comentário é da Adília. A NASA está à sua procura.

  5. Beto,
    quando disse “dispensável” é porque acredito que seja esta a condição de relações livres. Se sentir indispensável pode satisfazer o ego, mas junto com a satisfação vem o peso deste lugar.
    Ando usufruindo muito desta condição que a idade e o fato de ter meus filhos criados está me trazendo. Onde estou e com quem estou, estou porque quero, porque me dá prazer e porque posso dar prazer a quem está comigo.
    Venho e vou seguindo a bussola do coração e não a bussola da obrigação.
    Desta maneira, acho sim que avós são uma parte extremamente importante na vida dos netos, mas exatamente porque são dispensáveis. Se eu faltar, tenho certeza que eles descobriram ótimos substitutos. Quer se canditatar?

  6. Lelia, eu disse se eu faltar…
    Como ainda não estou pensando em ir, pode ser que o lindão escape do Bill Murray.
    Brincadeira Beto, acho que você será um grande avô!

  7. Regina querida, essa dança da vida é írresistível, uma convocação, um rapto, um milagre a nós sem diabo algum, cheias de graça, “no meio do redemunho”! Você vai nos ensinando e a gente vai se emocionando com você e com todas as filhas e com todas as crianças do mundo. Carne viva, nós, as mães do mundo! A felicidade da Mai me fez um bem…

  8. Abri este blog por acaso, após ter lido um artigo no STUM, onde você é colaboradora. Amei esse texto sobre a sublime condição de ser avó! Fui avó pela primeira vez aos 47 ( hoje tenho 57), e revivi toda a minha forte emoção na época ao ler suas palavras tão inspiradas! Parabéns! Um abraço.
    Rosa

  9. Rosa, que bom que voce gostou do post. É sempre muito gostoso poder partilhar experiências.

    Só uma ressalva: não sou colaboradora da STUM.
    Um abraço,
    Regina Amaral

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