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“Não gosto da ideia de se querer compreender tudo”, opinou uma amiga a respeito dos cientistas em geral. Entendi que para ela essa era quase uma definição dos profissionais da ciência: algo como “uns caras que querem entender tudo para ter o controle”. Não deu para esmiuçar o comentário. A conversa tomou outro rumo. A ideia, no entanto, ficou martelando… No cérebro? Na consciência? No inconsciente? Uma coisa contém outra? São sistemas isolados ou está tudo misturado? Sei lá, mas já aí temos ótima questão para cientistas elucidarem, se já não o fizeram ou estão adiantados no caminho. 

Mas a coisa ficou martelando em algum canto da minha cabeça porque eu entrevistara um cientista naqueles dias e saí do encontro com uma sensação de paz incrível. O cara-do-tipo-que-quer-entender-tudo mostrava uma tranqüilidade invejável, zero de ansiedade na fala, na expressão facial, no corpo. Mesmo imaginando que na intimidade ele possa ser bem diferente, sofrendo de todas as neuras dos mortais, o que eu observava, deduzia, sentia, é que aquela mente científica o colocava justamente com pé suficiente no chão para saber que não pode compreender tudo. Ele parecia desfrutar da verdadeira tranqüilidade dos ignorantes: a daqueles que, de tanto saber, sabem que estão muito longe de poder compreender tudo. De longe em longe, um dia …

E o que seria o desejo de saber tudo para ter o controle? Creio que a frase pertence ao contexto “Deus e a Ciência na Terra do Sol” — a polêmica essencial para uns, a falsa polêmica para outros. O navegante científico com o qual me encontrei batalha, entre outros afazeres, para que a ciência não seja transmitida como dogma, justamente o que a diferencia de um mito, de uma crença religiosa e de outros gêneros de conhecimento. Dizia então o cientista: “Quer acreditar em ressurreição? Há dois caminhos: confira os experimentos de ressuscitação para compreender se é possível; ou aceite um dogma.”

Não sou entendida de dogmas nem de ciência, mas gosto de acreditar que só temos mesmo esta última com suas verdades. Como dizem por aí, transitórias. Transitórias porque, felizmente, tem uns caras empenhados em compreender tudo e que não se cansam de fazer perguntas, de questionar, de duvidar, de fazer experimentos para conferir e comprovar ou não suas ideias. Querem ser deuses? Não entendo assim, muito pelo contrário. No geral, acho que são humanos que aceitam, com menos fantasias que outros, o desafio do jogo na Terra. Não é pouco, se pensarmos nas palavras do filósofo, astrônomo e matemático Giordano Bruno, que fez história no século 16 por suas teorias sobre o universo infinito:

“… existe um campo infinito e um espaço continente que compreende e penetra tudo. Nele se encontram infinitos corpos semelhantes, não estando nenhum deles mais no centro do universo que os outros, porque o universo é infinito e, portanto, sem centro e sem margens.”

Sem centro, sem margens. É onde nos cabe viver, martelando ou não a consciência. E o que será ela? Sem qualquer cuidado científico, registro uma não-definição encontrada na web: “… descrevê-la assemelha-se a tentar explicar a um cego congênito o que são as cores.” Missão para cientistas.

Tentando compreender tudo, por Lélia Lyra

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16 pensamentos em “Tentando compreender tudo

  1. Em geral, quem não reconhece a ciência aposta suas fichas no determinismo, nas estrelas, destino, no “não adianta remar contra a maré”.

    Quem acredita na ciência, por outro lado, gosta de entender porque as coisas são de determinada maneira, têm curiosidade, pesquisam, investigam e…duvidam.

    De um lado, a dúvida gera incerteza, mas faz vc descobrir e dominar algo. Por outro, a certeza que as religiões transmitem inibem a curiosidade, amarram avanços, mas dão a segurança de não ter dúvidas.

    Quer dúvida maior do que explicar as cores a um cego? Então pense que ao falar de cores com outra pessoa que consegue enxergar como vc, nunca terá a certeza de que ela vê exatamente a cor que vc vê.

  2. É Carl Sagan, no livro Uma luz na escuridão, se não me engano, que fala sobre essa coisa profundamente insatisfatória, pequena e exaustiva que é a ciência. E que no entanto é tudo que temos para caminhar na escuridão…Lélia eu realmente saboreio os seus posts!

  3. Muito interessante seu texto, até porque faz a gente deixar a mente vagar por meandros entre multivárias hipóteses, Lélia.

    O Sêr humano é um animal interessante.
    Alguns não se satisfazem até compreender, outros meramente aceitam.
    E entretanto, como você diz, Lélia, quem “quer compreender tudo” sabe que é ignorante, e que o máximo será atingir parte ínfima da compreensão.
    As pessoas, de fato, compreendem como funciona uma TV a Led, um microondas, o sistema de celulares? Provavelmente não. Mas aceitam.

    Quando quem mandava no mundo nãoaceitava, era fácil: manda queimar como bruxo ou beatificar como santo ( dependendo de em qual ‘time’ o potencial churrasquinho jogava… ). E ponto final.
    Mas, tentar compreender, era proibido.

    Então, ou você aceita que Deus, a milênios, de fato deu-se ao trabalho de falar pessoalmente com alguém; que, sei lá, escolheu um único povo, e o resto que se lixe; que é tão vaidoso que exige não apenas ser adorado todo o tempo, mas, muito mais, que exige ser adorado segundo determinado Rito específico [ claro, o Rito do time ao qual VOCÊ pertence ], e nenhum outro.
    Ou chamas eternas para os infiéis.

    A outra hipótese é o saber.

  4. Beto, não sei se crenças religiosas dão certezas. Acho que mais contribuem para uma sensação, talvez confortante, de que o homem não estaria no mesmo barco que os demais seres vivos.

  5. Adília, não tenho essa figura de ciência insatisfatória, pequena e exaustiva, mas torço para que os cientistas de todas as áreas continuem a achar isso …

  6. Geraldo, já pensou quanto “santo” virou churrasco e quanto “bruxo” conseguiu uma boquinha no poder? E hoje li no jornal que cientistas não conseguem descobrir por que um indiano, bem idoso, consegue sobreviver sem comer e beber nada. Uma aposta é que seu organismo funcione à base de energia solar. O cara parece ser um santo churrasco!

  7. Pedrão, eu também ia apostando nisso enquanto lia a notícia, mas os tais cientistas que observaram o cara durante duas ou três semanas puseram câmeras para ver tudo, acho que justamente para descobrir onde ele escondia o cheese bacon. Devem ter esquecido de olhar em lugares simples: debaixo do travesseiro, por exemplo.

  8. Pior que isso é comum na Índia…são místicos meditantes, bom, ao menos a história menciona vários deles…mas já li que o padrão respiratório de um monge em meditação muda tanto que o intervalo de um minuto entre uma inspiração e uma expiração é coisa assim…”normal”. Acho que é nessa linha o insatisfatória, ninguém tem todas as respostas, e isso é o que torna o universo extraordinário, quer dizer, que ainda existam mistérios 🙂

  9. Entendi, e a gente não aguenta muito mistério, quer logo achar o cheese bacon escondido… Salvem os cientistas antes das baleias!

  10. Li um livro de uma indiana chamado “Deu um reboliço no pé de goiabeira” onde ela descreve como se fabricam homens “santos”na India. Além de divertido ainda é muito ilustrativo para que possamos acompanhar este processo fraudulento. Não sei se é o caso do senhorzinho que não come e não bebe, de qualquer maneira fica evidente que até quem é indiano duvida… Vamos esperar para ver.

    Quanto aos cientistas, que Deus os abençoe e que eles continuem querendo compreender tudo aquilo que eu não entendo!

  11. Fala sério, benção não muda nadinha de nada, mas a curiosidade sem fim dos cientistas, inclusive daqueles que curtem bençãos, faz toda a diferença. Já, já é o Lindão que vai atacar de pequeno cientista!

  12. Acho que essa sensação de sem centro e sem margem é que angustia o ser humano. Por isso ele busca apoio: religião, ciencia, amigos,etc Tudo é válido. O que me agrada na ciencia é essa curiosidade por todas as coisas.. Isso enriquece a vida.

  13. Pingback: Vivos e mortos | Fifties

  14. Pingback: Viva o Dia dos Santos de Todos os Dias! Viva o Dia dos Mortos! | Fifties+

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