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Alice in the Wonderland, Tim Burton

Minha filha curtiu a Alice visionária e desafiadora de Tim Burton. Eu não.

Entendo até que essa Alice crescida, que brinca de heroína da imaginação nos jardins asfixiantemente bem-comportados da Inglaterra vitoriana, tenha certa graça explicativa; sobretudo, as imagens são belíssimas!

Mas nem mesmo em 3D aparecem sequer vestígios do non sense do livro de Lewis Carrol! Simplesmente não está lá. O filme é um esforço bem-intencionado de fornecer explicações onde apenas caberiam pontos de interrogação. Circunscreve o que deveria ficar aberto. Uma camisa de força. Saí correndo em busca do livro, o original, não as adaptações mais ou menos água com açúcar que se fizeram em nome da facilidade de leitura das crianças. E reli tudo, de um gole só, com o mesmíssimo prazer de quando eu era menina e com o mesmíssimo espanto…

As duas obras mais conhecidas do pastor Charles Dodgson, o nome verdadeiro de Lewis Carrol, Alice no País das Maravilhas, de 1865, e Alice no País do Espelho, de 1871, ainda hoje intrigam os estudiosos. Entre jogos de palavras, enigmas, anagramas, cada palavra parece conter uma chave que abre outra porta de significado e outra e mais outra…

A toca do Coelho Branco fascina tanto pelo que revela como pelo que esconde. O poeta e tradutor Sebastião Uchoa Leite, que assina a tradução publicada pelo Editora Summus, em 1980, fala de ‘demolição do sentido corrente das palavras’ e de palavras que viram ‘seres’, entidades concretas misturadas nas aventuras de Alice pelos avessos da fantasia.

Dizem que Carrol gostava de meninas, e que tinha três obsessões: sua chaleira, a lógica e a fotografia (ele foi um dos maiores fotógrafos de sua época, aliás). No final da vida, criava puzzles, dilemas lógicos, dois dos quais foram até publicados em revistas científicas. Não é à toa que nas histórias de Alice, as palavras que deveriam, a rigor, garantir a lógica dos diálogos, parecem sempre apontar em outra direção. Elas confudem, torcem, desfolham-se em paradoxos. Lançam para a menina curiosa e para o leitor o desafio: quanto cada um de nós aguenta ver a realidade subvertida?  Trombar com um gato que é apenas um sorriso não é tão fácil quanto parece…ainda mais quando ele alerta para o fato de que “se você não sabe para onde vai, tanto faz o caminho”…

Nunca achei a história de Alice “divertida”, ao contrário, sempre foi a mais difícil de contar para meus filhos. O País das Maravilhas é um lugar cheio de perigos, armadilhas, crueldades. Quando você resolve escapar do jardim e penetrar na Toca do Coelho não sabe o que vai achar do outro lado. Quanto de non sense a gente consegue suportar?

Lewis Carrol escreveu outros livros. Sebastião Uchoa conta uma historinha extraída de um deles, Sylvie and Bruno: “Era uma vez uma coincidência que saiu a passeio na companhia de um pequeno acidente. Enquanto passeavam, encontraram uma explicação, uma velha explicação, tão velha que já estava toda encurvada e encarquilhada e mais se parecia com uma charada”.

No País das Maravilhas as verdades são charadas tão velhas quanto os paradoxos que se escondem por trás das belas e ordenadas imagens da realidade que criamos talvez para nos proteger do maior de todos os perigos…non sense!

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A imagem é do site oficial do filme Alice in Wonderland

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5 pensamentos em “Alice no País do Espanto

  1. Ufa, que alívio! Não li Lewis Carrol nem criança nem adulta, e ao ver o filme fiquei imaginando por que tudo aquilo era um marco da literatura, se talvez tivesse ficado datado etc. Agora fiquei com vontade de ver o quanto aguento de non sense… Bjs, gostei!

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