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"Separo a manhã da tarde com bom almoço e um belo vinho!"

“Separo a manhã da tarde com bom almoço e um belo vinho!”

Arquiteto, administrador público, político e ensaísta, Jorge Wilheim é um dos principais urbanistas brasileiros. Nasceu em Trieste, na Itália, em 1928, mas formou-se no Brasil, na Faculdade de Arquitetura do Mackenzie e tornou-se um expressivo formulador do planejamento estratégico para as cidades brasileiras e de um urbanismo para o novo século, visionário e pragmático, sempre interessado nos grandes debates intelectuais.

Fifties: Jorge, em primeiro lugar, deixe-me confessar meu espanto. Você já chegou aos 85 anos, não? Qual o segredo de sua jovialidade, bom humor, alegria de viver?
Jorge Wilheim: Estou de bem com a vida! Mas jovialidade também depende de circunstâncias (ninguém é jovial em um velório!) e da sorte que tenho de conviver com amigos (as) que, com sua personalidade, estimulam meu bom-humor. Por outro lado sou otimista, vivo fantasiando futuros bons: sou das utopias e não das distopias… Este otimismo tem, contudo, um aspecto negativo: para não me decepcionar, nego realidades desagradáveis (por algum tempo, depois caio na real). É uma defesa emocional útil, embora não seja uma qualidade.

F: Qual a importância ou o peso da idade no seu cotidiano?
JW: 85… Existe um problema: os projetos urbanísticos que elaboro têm geralmente um tempo de maturação de uns 15 anos. Estou sendo lembrado o tempo inteiro de que provavelmente não verei o resultado do que projeto hoje… O trem-bala operará depois de 2020: será que, aos 100, chegarei a pegar esse trem? Não me agrada nada, nada, ter que conviver com a noção de limite do meu tempo. Minha vida não se “completou” (se é que ela deve se completar). Ainda fantasio futuros.

F: Depressão, medo, desânimo, falta de energia. Você conhece esses estados de ânimo? Como lida com eles?
JW: Não há desânimo, a vida me vai levando numa boa. Minha irmã está bem firme aos 89. Porém não estou preparado para ir-me para sempre! Acho esta ameaça de finalização da vida absolutamente injusta. É muito cedo… Viver é bom demais! E estão acontecendo tantos fatos novos, que provocam tantas emoções e pensamentos! E filhos, e netos, e, um dia, bisnetos! Como largar isto? Não gosto da rapidez com que o tempo anda passando!

F: Sua área de abrangência vai da filosofia à musica, da literatura às artes plásticas, da política às novelas de televisão, do futebol à gastronomia. Qual a importância dessa gama de interesses em sua vida?
JW: Sou muito curioso e fico entusiasmado quando descubro algo novo, quando me proponho a abordar e a resolver um problema diferente. Até gosto de folhear dicionários e me surpreender com o significado de palavras desconhecidas… Sempre vivi em contato com livros e arte, que realimentam a curiosidade. Além do mais, arquitetura, música, cinema têm muito em comum. Navego na horizontal porque acho que as coisas se interligam cada vez mais (defendo a tese de um neorrenascimento neste século, cujo objetivo seria, à semelhança do que aconteceu nos séculos XV e XVI, a consolidação de uma plataforma humanista comum às diversas disciplinas” ). Em urbanismo me inclino mais para o antropológico do que para o estatístico. Percorrendo disciplinas diversas, embora seja enriquecedor, corro o risco de não me aprofundar o suficiente, pois, como dizem os americanos: “when you spray your butter too much it gets thinner”.

F: Gostaria que você falasse um pouco sobre uma belíssima metáfora sua: “o banco da praça” como a essência do espaço público. Nessa expressão poética, percebe-se a sensibilidade para o humano. Como isso matiza sua vida?
JW: Antes de ser metáfora, o banco é um fato! Ele está no parque do campus do Mackenzie e ainda não recebi resposta para minha proposta de nele sentar uma vez por semana para informalmente bater papo com estudantes das primeiras séries sobre cidade e vida urbana à maneira dos diálogos socráticos. Quanto à metáfora, banco na praça é “sair para o lado de fora”, comunicar-se, expor-se e ser sensível ao mundo exterior, viver com os outros e com uma paisagem. Enfim: respirar o ar da cidade que, como se dizia na Idade Média, libera.*

F: Você mora no mesmo lugar há mais de 50 anos, numa pequena rua sem saída. O projeto da casa é seu mesmo? Sei que a casa foi crescendo organicamente. Poderia nos falar um pouco sobre isso?
JW: O projeto da casa que alugamos em 1957 não era meu. Mas o das 16 reformas seguintes, sim! Inclusive o telhado normando que resultou da necessidade de substituir um forro que estava caindo por uma laje de cobertura (sobre a qual decidi pisar, criando meu espaço na mansarda…). No começo havia crianças pequenas, dentro e fora de casa. A rua era um playground. Além do inevitável futebol, fizemos ali teatro de fantoches, fogueira de São João e cinema ao ar livre! E, numa “transgressão cidadã”, plantei todos os paus-ferro e sibipirunas que hoje dão charme à ruazinha. Ruas sem saída podem ser uma delícia… Desta vivência nasceu a proposta “uma árvore quatro vilas”: se plantarmos em um cruzamento uma bela árvore que impeça o trânsito estaremos criando quatro ruas sem saída! Quanto à minha casa, ela passou por sucessivas reformas com a saída dos meus filhos, incluindo a criação de um consultório para Joanna, minha mulher (meu escritório foi para a casa ao lado), e mais espaço para livros e quadros, sendo que adquiriram importância maior o estar, a lareira, a TV e especialmente a mesa para jantares saborosos com amigos: a mesa é o melhor lugar para bater papo , não é?

F: Você é extremamente solicitado: entrevistas, televisão, família, fora o trabalho no escritório. Como é o seu tempo de lazer? Consegue ter algum no dia a dia ou reserva tudo para o final da semana? Pergunto isso ainda atrás do segredo da sua juventude.
JW: Não há segredo, mas herdar um bom DNA ajuda… Meu relógio interno me desperta às 7h e me obriga a levantar, pois a primeira hora do dia é dedicada ao corpo: fisioterapia ou caminhada no Parque da Água Branca, em São Paulo. Caminhar lá é um prazer. Gosto muito do que faço no trabalho, inclusive dos papos que levo com as jovens arquitetas que estão trabalhando comigo no escritório. Separo a manhã da tarde com um bom almoço e belo vinho, seguido de uma hora de cochilo na poltrona. Mas trabalho todos os dias 8 horas. À noite, adoro ir ao cinema ou a algum concerto, mas a TV me propicia eventualmente uma novela mais dramática ou um bom jogo de futebol, vôlei ou tênis. Sou “peixe”, isto é, torcedor do Santos desde os anos 60 quando ia ao Pacaembu assistir Pelé jogando! Leio nos interstícios; na adolescência a leitura era obsessiva. Apago a luz da cama à meia-noite. Algo careta, não?

F: Você pensa em se aposentar?
JW: Não vejo por que. Gosto de meu trabalho. Não tenho, por ora, nenhum empecilho físico ou mental. Mas por vezes sinto-me preguiçoso e cada vez mais, ao encarar a possibilidade de uma diversão, de uma viagem, de cabular o escritório e subir para a casa de Campos do Jordão já na sexta-feira, surge a pergunta: “se não agora, quando ?”

* Alusão a um conhecido mote medieval “Stadt macht frei“: a cidade libera, ou seja, o cidadão (habitante da cidade, do burgo) era livre da servidão do campo, do senhor.

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4 pensamentos em “Sylvia Loeb conversa com o arquiteto Jorge Wilheim

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